A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

MEU BEM, NÃO É NADA DISSO QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO

 

   O repórter pegou o Toninho Baiacu neste início de semana, bem no meio da praça, de surpresa, meio de supetão. Atrás do repórter, um cara com uma câmara ligada gravava cada palavra que saia de sua boca, enquanto um outro, com uma luz forte, acesa acima da cabeça, suspensa por uma espécie de mastro, tentava jogar o foco diretamente na direção do seu rosto. Em redor dos quatro, uma pequena multidão de pessoas começou a formar uma rodinha, até que o cordão humano se tornou coeso e atento, não só as perguntas que eram formuladas, como também às respostas do entrevistado. Não se ouvia a respiração de ninguém. Na verdade, todos estavam ávidos para  saber o que o jornalista queria com aquela entrevista e como o Toninho Baiacu (até aquele momento um ilustre desconhecido, para todos, na praça) se sairia da empreitada.

Você me disse que se chama Antônio, ou melhor, Toninho. E me disse também que tem um apelido engraçado. Poderia dizer qual é esse apelido?

Pois não: Toninho Baiacu.

E por que Toninho Baiacu?

Porque desde pequeno, aprecio esse tipo de peixe. Baiacu é um peixe. Não como outro, por melhor que seja. Daí o pessoal lá de casa, meu pai, meus irmãos, minhas irmãs,  resolveram me chamar de Baiacu. E pegou...

Toninho, vou lhe fazer algumas perguntinhas, você  vai participar, ao vivo,  do programa do Fernandinho Cuca Fresca, da Rede Vem que é Mole. Pode ser?

Claro.

Olhando para esta câmara, quando eu falar três. Podemos começar? Um, dois, três. Fernandinho, estou aqui com o nosso amigo Toninho, conhecido, na intimidade dos amigos, como Toninho Baiacu. Por favor, diga um olá para o Fernandinho.

Olá, Fernandinho, tudo bem? É um prazer muito grande participar do seu programa.

Toninho, vou lhe fazer algumas perguntas. Aliás, as mesmas que já fiz anteriormente para dois caras da pesada que estão concorrendo com você.  O Marcos e o Cláudio.  Preste atenção. Não pode pensar muito, tem de falar o que vier na cabeça, certo? O menor tempo ganha um final de semana, com tudo pago,  para curtir, com a namorada, amiga, ou quem você quiser levar como acompanhante, para a suíte presidencial do Motel Fome dos Prazeres, do nosso amigo Léo, para quem eu mando um abraço. Preparado?

Positivo.

Você  é casado?

Não, sou solteiro.

Bem, sendo solteiro, fica um pouco complicado. Mas tudo bem, vamos lá: saberia dizer para o público aqui presente e para todos os demais telespectadores qual é o maior e o melhor truque feminino?

Bem, embora seja solteiro, como já lhe falei,  tenho, graças a Deus, um punhado de mulheres aos meus pés. Você me perguntou qual é o maior e o melhor truque feminino. Pois bem: o maior, é quando a mulher, na cama, nos leva ao delírio, ou a loucura. O melhor, é quando alcançamos, juntos, os finalmente e gritamos: Mengo, Mengo...

Vejo que o amigo  é  um flamenguista doente.

Eu? Com certeza.

Pois muito bem: quem você levaria para uma ilha deserta?

Eu? Deixa ver: a Karina Bacchi? Não, muito nova! A Xuxa? Acho que a Xuxa não faz o meu tipo. Já sei: a Juliana Ferraz, apresentadora do SporTV.

Sentiu o lance aí, ô Fernandinho? Nosso amigo aqui tem bom gosto. Mandou bem.

E por que a Juliana?

Ela é gostosa demais. Tem um traseiro...

Três coisas que você pediria, caso ela chegasse aqui, agora.

Eu? Três coisas?  A quem, a Juliana?

Claro.

Me leva ao céu, beleza.  Joga minha cara na parede e depois me pisa com toda força. Espezinha meu pescoço até sangrar.

Casamento?

Eu? Tô fora.

Companheira ideal.

Prá mim? Bem, eu...a  Monique. Isso mesmo, Monique, uma vizinha do arco da velha que mora de frente para  minha casa. Ai!!Me arrepio todo, só de pensar nela...

Toninho, como você se define?

Eu? Bem: gostoso, machudo, bom de cama...

Consegue marcar quantos gol numa só noite?

Eu? Bem. Tenho que responder a isso?

Claro, você está ao vivo, para todo o Brasil.

Bem duas, três, sei lá. Depende do pedaço de mau caminho que estiver comigo. Se for a Carolina Magalhães, por exemplo, acredito que consiga alcançar o clímax umas quatro ou cinco vezes.

Garoto esperto, Fernandinho. Esse aqui bota nós dois no bolso. Só gosta do que é bom. Agora, a última, concorrendo com o melhor tempo. Se for você, e vou torcer para que seja, um final de semana com tudo pago na suíte presidencial do Motel Fome dos Prazeres, do nosso grande amigo Léo. Boa sorte. Toninho, se você chegasse em sua casa agora, e recebesse o recado de que sua vizinha, como é mesmo o nome dela...

Monique...

Isso mesmo, se você chegasse em sua casa agora e recebesse a notícia de que a Monique pediu para que você fosse até a casa dela trocar uma lâmpada e, quando você chegasse lá, ela viesse abrir a porta só de calcinha e sutiã, e tivesse segurando, nas mãos, uma lâmpada, e na outra uma escada, para você subir e trocar a lâmpada, claro, o que é que você faria? Dois segundos. Tempo.

Engolia a lâmpada e me acendia, depois, todinho, dentro dela, como um curto circuito subindo ligeiro, pela escada.

Muito bem: resposta inteligente e criativa. Vamos a mais um candidato. Temos o Marcos, o Cláudio, e o Toninho. Vamos lá,  deixa eu ver, quem vai ser, okei, você aí, atrás da moça de amarelo, o cara de blusa azul. É, você, mesmo. Vem prá cá, correndo. Fernandinho diretamente dos nossos estúdios, a produção com o cronômetro nas mãos, marcando o melhor tempo: quem será o vencedor? Toninho Baiacu, Marcos, Cláudio ou...muito boa tarde, como é o seu  nome?

O Domingo, finalmente, chegou. Nesse dia,  acontecia o aniversário da sogra de Toninho. Estava, pois, por conta desse evento, reunida, a família, em peso, bem como parentes e amigos em torno da mesa farta e das bebidas, e a aniversariante. No quintal imenso rolava um churrasco no capricho, refrigerante para a garotada a dar com o pau e para os marmanjos muita cerveja gelada. Por volta de oito da noite, todos resolveram sentar na sala defronte a piscina e ficar de olho na televisão. Ou melhor, para assistir ao Programa do Fernandinho Cuca Fresca. No transcorrer da semana, a emissora  vinha  anunciado, durante a  programação, nas chamadas do Programa,  que o sujeito que ganhara o prêmio residia no bairro de Santo Antão, exatamente onde o Toninho morava. Para aumentar o impasse e criar expectativa em torno de audiência, o canal de TV não revelava o nome do vencedor, e só mandava para o ar o nome do bairro que tinha sido contemplado. Praticamente quando a comunidade de Santo Antão ficou sabendo, a galera, em peso, abriu  a caixa da curiosidade: todos, sem exceção, queriam saber quem era o felizardo, para evidentemente  cumprimentar o sortudo e dar-lhe  os parabéns.   

De repente, eis quem toma conta da telinha. Isso mesmo. Toninho Baiacu, em carne e osso. Os filhos, quando viram o pai, promoveram uma algazarra sem tamanho. Um dos garotos grudou no seu pescoço, o outro pulou em seu colo enquanto o menorzinho saiu em disparada chamando pela empregada da casa, que conversava nada mais, nada menos com a Monique, a vizinha da frente.

Tia Monique, tia Monique, papai está aparecendo na televisão...

Vieram as duas, correndo e tomaram acento no meio da sala. A esposa, eufórica, danou a gritar:

Fiquem quietos, todos. Vamos escutar o pai de vocês.

A velha sogra levantou-se e como era meia surda foi ficar mais perto do aparelho.

Meu genro, você daria para ser artista. Fica bem, diante de uma câmara e um microfone.

O sogro não se fez de rogado.

Lembra um pouco meus tempos de rapaz, esse danado.

Toninho levantou-se de, num salto e correu para a televisão.

Meu velho sogro, tem um jogaço, na Band...

A esposa deu um chega para lá, a cunhada achou ruim, o sogro, idem e a dona Gertrudes, a sogra que aniversariava, estava mais atenta e ligada que cheirador de cola, depois de ter lambuzado o nariz pela trigésima vez. Toninho Baiacu entrou em pânico. Justo nesse dia o desgraçado do programa do Fernandinho estava indo ao ar, e pior, tudo indicava ser ele o felizardo. Pulou daqui e dali, tentando despistar os presentes. Vamos ver outra coisa: essa porcaria do Fernandinho só bota no ar coisas sem sentido. Vamos para o SBT...

Toninho quase apanhou. A galera, em peso, queria assistir na íntegra,  a entrevista dele, na praça e saber das respostas que havia dado às perguntas do repórter. A esposa, nem cabia em si de contentamento, naturalmente levada pela euforia de estar vendo o marido, pela primeira vez  numa tela de televisão. O infeliz olhou para a sogra, para o sogro, para aos filhos, para a cunhada, para aos amigos, e seus olhos fixaram-se depois,  em Monique. Com certeza, naquela noite iria tudo por água abaixo: sua vida, seu lar, seus filhos, a amizade dos amigos. Era o fim. Era o fim, sem sombra de dúvidas.  

Minutos depois quando a entrevista acabou,  e o repórter, finalmente, revelou o nome do vencedor, as coisas de Toninho Baiacu já estavam todas no meio da rua, jogadas não só pela esposa, como pela sogra e pela cunhada.

Foi chegando gente, foi chegando vizinho, amontoando caras e rostos nos muros em derredor, juntando a turma do bar e também alguns conhecidos do Toninho que vieram dar os parabéns e apertar sua mão.

Tarde demais. Toninho mal teve tempo de pegar os documentos e botar uns trocadinhos no bolso, para pagar o ônibus.