“Ah!,
essas mulheres, sempre tive uma, amando duas de cada vez”...
(Fernandinho
Saraiva).
A
primeira, de uma série que tive o prazer de colecionar, ao longo da vida,
foi uma empregadinha doméstica que veio trabalhar em casa, logo que
mudamos para o apartamento novo. Chamava-se Elizabete. Loirinha, de olhos
verdes, dezenove anos. Era uma gracinha de menina, um amor de pessoa.
Personalidade acima de qualquer suspeita. Monumental. Quando a vi, pela
primeira vez, meus olhos encheram-se de minúsculos coraçõeszinhosapaixonados. O tal cupido que o Lilico, meu irmão de vinte e sete
vivia falando toda hora, finalmente havia atirado seu dardo envenenado e
acertado em cheio meu coração de garoto que começava a descobrir as
coisas boas do mundo. Logo que veio morar com a gente, Elizabete não
trouxe muitas coisas. Sua bagagem: uma bolsa de nylon,bastante surrada, de um verde desbotado, três sacolas de
supermercados com sapatos, discos e uma outra, com uma caixa cheia de
produtos de beleza.
Mamãe
a ajudou a instalar-se. Deu-lhe um cobertor,lençóis, fronhas, uma colcha e um travesseiro. Não havia cama.
Nos primeiros dias Elizabete dormiu no chão, de frente para a porta, numa
espécie de estrado improvisado por papai. O meses foram passando...
Durante
o dia Elizabete dava conta de todos os afazeres domésticos de uma casa de
família: lavava, passava, cuidava de um irmão recém-nascido, (raspa de
tacho, como apregoava papai),faziafeira aos domingos, e ainda ajudava mamãe a servir o café, o almoço o lanche da tarde e
a noite, o jantar. Depois de cumpridas essas tarefas,exausta, retirava-se para seu quarto, (agora completamente
mobiliado), e ficava por horas a fio ouvindo discos numa velha
radiovitrola.
Havia,
num canto, uma penteadeira, com um espelho oval, um banquinho e uma cômoda,
ondecolocava muito bem
arrumadinho, um monte de lps de Roberto Carlos, Jerri Adriane, Wanderlei
Cardoso, Gilliard,Odair José,
Diana, Jessé, Cely Campello, Guilherme Arantes, Adilson Ramos, Carlos
Alberto e tantos outros que compunham a jovem guarda. Naquele tempo, não
haviamCDs, eram discos de
vinil, com capa plástica e tudo mais. Elizabete seguia uma espécie de
ritual: entrava no quarto, encostava a porta, não passava a chave,
apagava a luz e acendia um pequeno abajur em forma de elefante. Despia-se,
esparramando as roupas a caminho do banheiro. Tomava uma duchalonga e demorada, de meia hora, talvez um pouco mais.Vinha, então, a melhor parte. Saia do chuveiro, só de calcinha e
sutiã e estirava o corpo na cama de solteiro que meu irmão havia doado
para ela, logo depois do seu casamento com a Liliane.
Meu
posto de observação era bastante engraçado. Para as sessões de
espionagem, lembro que precisava trepar numa espécie de baú repleto de
livrose cadernos atirados às
traças. Essa peça ficava jogada perto da máquina de lavar roupas e do
tanque, na varandinha, ao lado da porta da cozinha. Era dali queespreitava, às escondidas, a Elizabete, depois do seu retiro para
a intimidade. Havia uma báscula que nuncafechava, servia mais como passagem de ar para resfriar o ambiente.
Umaespécie de cortina caia
por sobre os vidros lisos e devido a ela, tornava-se difícil ou quase
impossível alguém, do outro lado descobrir-me. Ademais, tomava um
cuidado medonho para que ninguém pegasse no flagra, principalmente o
Nelsinho, outro irmão, ainda solteiro, que costumava trazer a namorada
para dar “uns amasso” numa espécie de dispensa, ondeguardavam, além das ferramentas de papai,mantimentos em estoque, latas de óleo, produtos de limpeza, botijão
de gás., e outras quinquilharias.
O
fato e que a cada nova manhã Elizabete ficava mais radiante. Simplesmente
abafava. O salário que ganhava, aplicava em coisas de uso pessoal. Tinha
um excelente bom gosto, a danada. Gostava de usar roupas curtas e
justinhas à pele, (estava em moda a mini-saia) e geralmente as garotas
imitavam a cantora Wanderléia. Por assim, quando colocava um daqueles minúsculos
chortinhos realçando o bumbum, ou uma saia deixando à mostra a calcinha,
eu viajava na maionese. A noite,os
ares ficavam mais densos. Elizabete saia do banhoenfiada numa camisola branca muito curta e transparente que
mostrava em todo o esplendor seu corpo de mulher, as formas perfeitas, a
barriguinha, o umbiguinho, com destaque para a calcinha com enfeites de
gatinhos cobrindo carinhosamente o triângulo do amor, que dava a impressão
de estar espremidinho, pedindo socorro. Nessas horas voava em pensamentos
distantes, ao tempo que roía desesperadamente as unhas. Um dia Elizabete
pulou fora do banho, semnada
cobrindo a nudez, a água escorrendo, macia por sobre seus cabelos
formando uma poça nos azulejos brancos do chão.Caminhou até o aparelho de som e colocou cuidadosamente um disco
no prato. Ajustou o volume de maneira quesomente seus ouvidos pudessem curtir a melodia: era o Odair José e
a musica desse artista fazia um sucesso danado, na época e ela era fã de
carteirinha.Tinha,
inclusive, um pôster tamanho gigante, pregado na parede ao lado da janela
que dava vista para o prédio contíguo:
“...As
minhas coisas
de
repente estão tristes
compreenderam
quenão existe
nada
mais entre nós
Meu
violão
caiu
de cima do armário
suas
cordas rebentaram
dando
adeus a minha voz”...
Elizabete
pareciaabsorta. Sem ao menos
enxugar-se ou cobrir-se com a toalha, deitou-se de barriga para baixo,
deixando à mostra, para meudeslumbramento,
um senhor par de pernas bem torneadas, que terminavam numa montanhade ancas bem proporcionadas, dessas de deixar qualquer homem maluco
com visões sinistras do paraíso. Vendo aquilo, o instinto começava a
falaralto. Aliás, isso
sempre acontecia. Bastava fixar os olhos em Elizabete, algo anormal como
um fogo interior transformavameu
ser. Cuidadoso, olhava para a porta da cozinha. Ninguém por ali. Corria
os olhos para o ladoda
dispensa. Nada, também. Então, relaxava, dava asas a imaginação.
Abaixava o calção até a altura dos joelhos e colocava para fora, o
membro enrijecido pela tesão que sentia por aquela deusa maravilhosa quedeixava-me completamentelouco
e fora de qualquer controle. Do meu posto, acomodado na ponta dos pés e
por sobre o baú de livros, nascia uma visão privilegiada da cama, e em
cima dela, o pecado em todas as suas formas, exposto sobre o lençol de
algodão, e ao fundo, parte da entrada do banheiro onde ela refrescavao cansaço estafante do dia-a-dia. Enlouquecido, sonhava acordado.Imaginava-me, deitado ao lado dela, entrelaçado emseus braços, o sangue fervendo nas veias, o suor escorrendo, os
sentidos todos em alerta. Mas era só um momento de pura felicidade,
porque Elizabete desconhecia os meus anseiossecretos e tampouco imaginava que a comia, que a devorava da cabeça
aos pés, centímetro por centímetro, sorrateiro, como um bicho acuado,
enquanto ela,na tranqüilidade
de seu retiro pessoal, sabe-se lá,pensava em algum namoradinho distante. Nesse chove não
molha, enquanto descontraída, ela cuidava de si, orapintando as unhas ora escovando os cabelos, que caiam até a
cintura, e a musica rolava, de cima do baú, só restava a satisfação decontentar-me com um querer enorme, mas frustrado.
Nervoso,
com os neurôniosem alerta
geral, agarrava o nervo duro e irrequieto no meio das pernas. Chegava a
exaustão, devido a cadencia empregada com as mãos, para atingir o clímax,
chacoalhando, sem parar o órgão genital. Essa brincadeira de mau gosto,
(de mau gostoporque somente
eu participava), perdurou por muitos e muitos meses, até que numa noite,
também já prestes a gozar, eis que de repente, o Nelsinho, como surgido
dos quintos do inferno assomou no umbral da porta da dispensa, com a droga
da namorada à tiracolo. Os doispegaram-mede calças arriadas, na hora agá, no instante derradeiro,
justamente quandomeu corpo,
voltado para os prazeres da carne, uma vez mais, liberava uma porrada de
espermatozóides em homenagem àquela deusa encantada, que recostada sobre
a cama e ao som do Odair José, seguia indiferente aos meus problemas de
menino adolescente batendo às portas dos dezesseis.
-
Bonito, seu moço. Descascando banana em plena oito horasda noite! E ainda por cima importunando a Bete. Deixa o pai saber
disso.
Não
contente, completou a frase:
Mãe,
ô mãe,venha até aqui na
cozinha ver um negócio...
Exatamente
o que mais temia acabou acontecendo. Deu uma encrenca dos diabos. Para
mim, evidentemente. Mamãe acorreu, com uma vizinha de apartamento, chata,
que não saia lá de casa, o senho franzido, os olhos dilacerados pela fúria.
Enquanto meu irmão puxava-me o braço, aos beliscões, arrancando-me em
contrapartida, pelado, de cima do baú, em vão tentava esconder o pinto
da namorada dele, como da mamãe e da vizinha. Aliás, essa maldita
destrambelhada, olhava-me como se estivesse encarando um maníaco. O engraçado,
o cômico, no meio desse povo todo que apareceu, uma vergonha infinita
veio vindo lá do fundo e queimou, por inteiro, meu rosto pálido. Se
fosse a Elizabete, com certeza, o vexame não atingiria graus tão altos.
Em
meio a confusão que tomou forma, Elizabetesaltou da cama, acendeu a luz, desligou o som e meteu o bedelho.
Pegou-me num beco sem saída, numa situação caótica quenão desejariaao pior inimigo. Levei, na frente de todos, uns belos tabefes
no meio das ventas. Quando papai chegou a cinta comeu firme no lombo.
Apanhei feito cachorro magro e sem dono. Depois desse mico, optei por
ficar de molho, quase um mês, confinado dentro do quarto, com vergonha de
aparecer para Elizabete, embora soubesse, de antemão, que a namorada de
meu irmão Nelsinho, haviacontado
a ela,com riquezas de
detalheso incidente, desde o
instante em quepegaram-me
com as mãos na massa. Pronto, estava naboca de todos o meu segredo, desvendado, exposto, com direito até
a apelido: “tarado da bunda branca”. Em parte, a alcunha ajudou muito.
De tanto falarem do meu traseiro branco, Elizabete, por fim, aquiesceu.
Veio chegando, aos poucos, de mansinho, devagar, parecia não ter pressa.
Trazia o café, o almoço, o lanche, conversava muito sobre tudo, sentava
a meu lado para ver televisão...
Aconteceu,
rolou o clima num final de semana. Ninguém em casa. Doseu jeito, como só ela sabia.Perdi a virgindade e junto, os medos bobos que povoavam minha
adolescência. Conheci um mundo diferente, obscuro, um universo imensurável,
que fez-me ver o outro lado da moeda, ou seja o reverso do clausuro quevivia enfurnado. Conheci o prazer, o amor fez-sepleno, e a felicidade que todos buscam veio ao meu encontro, como
um sol gostoso batendo no rosto. Elizabeteficou com a gente por quase oito anos.Nesse tempo, ensinou-me tudo o que um homem deve saber para fazer
uma mulher sentir-se plenamente realizada.Nosso caso de amor, que deu até aborto, infelizmente terminou no
dia que completei a maioridade. Vinte e um anos. Estraguei tudo. Ela
pegou-me na cama de casal dos meus pais com a filha de uma moradora nova
que mudou-se recentementepara
um apartamento, porta com porta,no
nosso andar.