A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


Muito além do vôo do colibri.
 
(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza.
 
Ele chega
como plumas
trazidas pela brisa
que me beija a face
Ao primeiro contato, o livro de poesias Colibri (de Jorge Piri, Taba Cultural, Rio de Janeiro, 80 páginas, 1ª edição 2006)  encanta a alma e inebria o espírito, em decorrência da leveza dos versos que trás.  Sem a retórica dos clássicos e os adornos empolados dos mestres, o autor, compõe uma espécie de retrato falado de si mesmo. Trabalhando na primeira pessoa con sprizzi impertinenti, transporta o leitor para um mundo de sonhos, onde o fascínio da alma se abre em flor e explode como um vulcão adormecido.
Jorge Piri tem uma Felina Formosura para escolher as palavras certas. Parece que adquirió toda esa destreza na busca incessante de temas eternos, como um lugar comum, onde a troca de carícias entre um casal de apaixonados toma formas dimensionais e vai além do que a imaginação espera encontrar. É o momento exato em que o poeta aflora contemplando a mulher amada. E nesse embevecimento, o homem adormecido desperta desenhando um mapa imaginário que penetra fundo nas profundezas do desejo:
“...Ah! Tu és o meu fascínio,
A musa a qual o meu
Coração se rende
E a quem os meus olhos
Não se fartam de ver,
Tentando descobrir o
Segredo que a ti me prende
Buscando ser de ti
O meu querer”.....”
E segue bebendo da fonte inesgotável da sua alma, como se, de repente, estivesse embriagado pelo sussurro  de um segundo coração batendo forte dentro do peito:
...”Eu quero encontrar você,
Num lugar além daqui,
Onde só existam
Eu, a natureza e você.
Onde eu possa cultivar
Morangos e girassóis
E o rio seja de água límpida...”
Inconformado, o sonhador, não pára. Segue adiante, como um cirandeiro que inventou um sentido novo para celebrar a presença da sua Eterna Escolhida:
...”Eu fui te buscar
Entre as pétalas
De uma margarida
E não te achei.
Queimei os meus pés
Cruzando as areais
Dos desertos
E não te vi.
Naufraguei navegando
Os mares, lutando contra
As ondas e não te encontrei.
Subi ao mais alto dos montes
Atirei-me nas asas do vento
E em nenhum destes  lugares
Estavas...”
Colibri não está a procura de uma identidade. Nasceu com ela. Pronta, perfeita, na medida de todas as coisas. É como uma flecha em busca de um alvo faminta, que sabe o rumo certo onde acertar. Nessa ânsia de investigar cada segundo de vida dentro dos caminhos mais diversos, Jorge Piri, sem se perder das temáticas do gostar e do querer profundo, do amor e da paixão sentidas na alma, se desprende do corpo e, ao fazê-lo, viaja por galáxias distantes. Dentro desses mundos, se mescla numa espécie de concepção desenfreada de palavras nascidas ao sabor da criação maior. Literalmente, o irreal e o ilógico explodem e, ao irromperem, se tornam pingos de luz. De igual forma, a hegemonia do efêmero, como um meteoro em sua fortaleza, risca o infinito e se esbagaça em mágica mutação.
Jorge Piri marca qualitativamente as melhores formas de dizer coisas simples sem cair no óbvio. Igualmente mostra o ritual da contemplação de um ser apaixonado girando em derredor da amante amada. Faz isso com  espontaneidade, com destreza, e discernimento. Em paralelo, replanta, com a carência adquirida, as raízes quase em agonia. Aviva o âmago desalentado não permitindo, sobretudo, que o amor esfrie e se desfaça em quimeras.
“...Como se não bastasse
Esta distância que existe
Entre mim e ti,
Fazes da minha procura,
Um incessante pega-pega,
Um constante esconde-esconde...”
Tanto o autor como sua obra, se dão a conhecer por inteiro, despidos do certo e do errado, do  bonito e do feio. Em linguaggio muto, parla di tutto, senza dir nulla. No seu transcurso, rivela semplice ed il più complesso.
Mostram, por inteiro, um “eu” interior, como um receptor saturado de ser a mesma coisa sempre, indefinidamente. Colibri, não se conforma em existir apenas como um livro de poesias bucólicas, mas, no fundo não passa disso. Entretanto, essa simplicidade é tão eloqüente, tão febril, tão magnânima, que autor e obra atingem o ápice da magia e se derramam em encantos.
...”Fiz versos brancos
Prá cantar tua pureza,
Azuis pra dizer
Do teu olhar.
Róseos para os teus lábios
Que nunca consegui beijar.
Fiz versos de toda cor
Pra te falar de um amor
Que deixastes desbotar”...
 
IN COMENTÁRIOS - (Revista TEXTOS INTELIGENTES – SÃO PAULO  - LANÇAMENTOS  - Sábado, 07 de abril de 2007).

*Aparecido Raimundo de Souza é escritor

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 14/08/2007