A casa dos grandes pensadores
 
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

MURAL DO ESQUISITO

 

   Kelly tinha um tipo de obsessão rara: comer maçã embaixo do chuveiro frio ouvindo musica a todo volume num aparelho de rádio de pilha que ficava num canto da enorme prateleira cheia de perfumes e outras coisinhas para embelezamento do rosto. Passava a maior parte do tempo dentro do quarto, trancada feito um bicho arredio, as janelas e as cortinas sem abrir, longe do sol da manhã ou da brisa leve que soprava à noite.

Quando não estava no quarto, metia a carcaça no banheiro, que ficava ao lado. De tanto ir até lá, sentar e levantar o traseiro, descobriu que o fabricante da sua bacia de privada particular fundou o primeiro estabelecimento em 1953 e nele colocou o nome de Hervi, que era primo irmão do Standard, outro  do  mesmo ramo de mercado, que além de sanitários de louças construía tampas e assentos e veio a ser o maior concorrente da Astra.

Se tentava ir para a cama e conciliar o sono, acordava meia hora depois, sobressaltada, assustada, atemorizada, toda molhada de suor, os olhos esbugalhados, salientes, perdidos no nada, em coisa alguma, as mãos trêmulas e os pensamentos desconexos, incoerentes, desunidos presos a visões sorumbáticas, macambúzias de coisas que não podia controlar. Um desastre de proporções gigantescas tomava forma em seu mundo interior mal parido. Por causa disso, qualquer porcaria fora dos parâmetros normais mudava sua vida para sempre. Um cachorro latindo, alguém passando na calçada, uma risada um pouco mais alta, um carro cruzando a rua, um vizinho que acendesse uma lâmpada, criança chorando, porta batendo, ruídos no corredor diante da porta dos seus aposentos. A saída para fugir de tudo era a fome. Uma fome incontrolada, inexplicável, estranha, doída, fora de propósito, descomedida e às vezes salpicada de desejos desconexos.

Queria comer macarrão parafuso. Ou um bom prato de feijão com porca e um suco de goiaba com bastante gelo.

Às vezes tinha uns repentes de gente desvairada, louca da cabeça, de coisas embaralhadas, mescladas entre sonho e realidade, mais sonho que realidade palpável. Noutras ocasiões sentia-se como uma fada princesa que havia  perdido os pais. Punha-se a chorar copiosamente e a soluçar como uma criança que deixou de ganhar um brinquedo desejado.

Se tivesse uma garrafa de vinho doce por aqui!...

Entretanto, não bebia nada, nem água de torneira, embora soubesse tudo a cerca de curar uma ressaca braba. Lia muito e um dia achou um livro sobre o assunto na biblioteca da escola. Roubou o livro e o levou para casa. Quase apanhou da mãe.

Sonhou, numa dessas noite de vigília, que por causa do avô havia tomado uns tapas de seu pai.

Será que os netos pagam pelos pecados dos avós?

Queria morrer. Cada membro que pulsava em seu corpo dizia-lhe claramente que deveria estar morta, enterrada, com sete palmos de terra no focinho, cheia de vermes peçonhentos e formigas se banqueteando em suas carnes flácidas, mortas, de verdade, quem sabe nas profundezas do inferno, de braços dados com o capeta comendo mariola e bebendo uma Schin.

Comumente ficava em pé sem cair, ou deitada sem dormir, mas permanecia sobre o colchão macio, debaixo do lençol quentinho, imaginando andar de bungee rocket com o namorado que conhecera na estação Paraíso, do metrô. Outras ocasiões se masturbava até a exaustão com um consolo que furtara numa lojinha de produtos eróticos quando lá estivera com o marido da vizinha da casa contígua a sua.

Vamos  passear de sky jump?

De jeito nenhum, preferia beijar de língua, a boca do Cardoso, filho do dono da padaria do bairro. Aliás, ele prometera levá-la para experimentar as sensações gasosas de um body board numa dessas tardes longas depois que saísse do trabalho. Que sensação sentiria? Com certeza, idêntica a de gozar com um pau bem duro no meio das pernas!...

Não fosse tanto e era quase mulher! Mas o quase atrapalhava, impedia e ela se via, empacada,  na porta do cemitério da Consolação com duas velas nas mãos tentando queimar uma mecha dos cabelos de um menino sapeca que brincava de acertar pedrinhas nos túmulos com um estilingue de tiras pretas.

Corra, corra, seu safado de merda, corra para meus braços. Vou lhe dar a bandeirada final.

Lembrou do rádio. Ligou uma estação qualquer, ao acaso. Tocava uma musica de sons engraçados. Tribalistas – Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte? Não. Come Away With Me – Norah Jones? Também não. Porra! Rod Stewart, Jota Quest, Leonardo, KLB, Kid Abelha? A puta que pariu? Isso, a puta que pariu!...

Vocês todos são uns cocos. Desafinam tão bem quanto as cadelas mal amadas de suas respectivas progenitoras.

Kelly possuía uma beleza  rara, mas ao mesmo tempo cafona. Um ar de adolescente chata, nojenta, cheia de vontades. Desejos mal acabados, picuinhas mal resolvidas.

Quem está no sótão? Algum fantasma retardatário?

Fantasma os cambaus. Esse negócio de alma de outro mundo é coisa de gente besta.

Ratos! São ratos! Milhares deles...

Os desgraçados desafiavam os gatos da casa. Pertenciam, na verdade, a juventude cristã, cujo pastor, um sisudo e bonito ratão, desse tamanho, com cara de mercenário, gostava de afanar os pedaços de queijo da geladeira, ostentava um sorriso de fazer inveja a qualquer ser humano normal.

E Kelly era normal? Seria mesmo?

Um dia flagrou sua mãe sem calcinha, os olhos vendados, ajoelhada, de quatro, tentando pegar nas coisas do pai, com a boca.

Vem, meu amor, entra na caverna escura e me come  a rosquinha...

Primeiro de uma boa mamada que é para deixar a vara bem lambuzada.

Só de lembrar dessa cena hilariante ficou toda trêmula e molhada. Para não ver o final  do que iria acontecer preferiu ligar a televisão e assistir um filme na TV a  cabo.

Se essas paredes falassem o quarto de meus pais não seria um local aconchegante, onde duas pessoas comportadas, pudessem se amar.  Parece mais com o portal de acesso à Sodoma e Gomorra.

Voltou ao banheiro. Sentou no vaso. Queria sentar noutra coisa, uma coisa que fosse dura e quente, não o consolo, rígido e frio que guardava sobre o colchão, para a mãe não pegar. Acabara de mandar para dentro a ultima maçã. Por certo nem chuveiro resolveria seu problema. A coisa estava nas entranhas. Bem no meio da vagina, um bicho carpinteiro que coçava e dava fisgadas eróticas. Pensou, então,  numa arte. Uma cênica, que fizesse seu coração rir até se escangalhar.

Vou fazer xixi e colocar numa garrafa de refrigerante. Depois lacro, e envio ao Cardoso. Será que ele desconfiará que se trata da minha urina?

Cardoso tinha cara de tonto. Mas no fundo, um sujeito tranqüilo, de bem com a vida, normal, desses que fode a mulher dos amigos, na moita, come pipoca, gosta de corrida de automóveis,  usa relógio de pulso e tatuagens nos braços para dizer que é o tal. Sem falar que condenava o aborto, o divórcio o controle da natalidade e o sujeito que controla o controle do controle da natalidade.

Meu par ideal. Minha alma gêmea. Vou dar para ele. Vou dar para ele até a puta da boceta ficar vermelha de tanto roçar naquele caralho grosso e macio. Sou a receita pronta. Basta o sangue bom ler as entrelinhas de meus olhos e me pegar de jeito. Cederei de bandeja, regada a vinho fino, nem que esse vinho seja extraído da minha menstruação.

Kelly sorriu largamente com esses pensamentos marotos e em seguida arriou as calcinhas, de vez e, passou ao box. Escancarou a torneira, até o fim e meteu, meio de lado, a bunda branca e seca debaixo do chuveiro frio. O peido que soltou se confundiu, por um breve momento, com o barulho da água  escorrendo, ligeira, pelos buraquinhos do ralo.