A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


O FENÔMENO E A IRRESISTÍVEL OBSESSÃO POR UM BOM PAR DE FERRADURAS.
 
(*) Texto de: Aparecido Raimundo de Souza.
 
Vocês, leitores e amigos, não têm consciência do tamanho do abacaxi que terei de descascar em face de uma enxurrada de e-mails recebidos em minha caixa eletrônica, indagando o porque de não ter escrito nada a respeito do Ronaldinho Fenômeno, diante do seu envolvimento com três travestis num motel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Prometi que ficaria calado, porém, como formador de opinião e, mais que isso, em respeito a todos que lêem meus trabalhos, compram meus livros e, sobretudo, aqueles que acompanham e dão força à minha carreira, não só na revista, como igualmente no site, segue, abaixo, o que tenho a comentar sobre o triste e lamentoso episódio.  
 
Por primeiro, devo deixar claro que não gosto de futebol. Todos que convivem comigo, sabem que, ao invés de assistir a uma partida pela televisão, de uma dessas centenas de times conhecidos, prefiro, mil vezes, bater uma punheta para a Lisa Ekdahl, aquela intérprete sueca que brilhou no Euro Jazz do TIM Festival. Sua voz é pequena, o timbre infantil, mas a mocinha é afinada. Seu estilo inconfundível nos lembra a cantora e pianista americana Blosom Dearie.
 
Por segundo, não conheço o senhor Ronaldo e não sei qual a profissão dele. Um vizinho que mora no meu prédio, me interfonou, pedindo que tirasse o carro que talvez, por engano, colocara, na vaga dele, na garagem. Para acalmar os ânimos, entrei num papo de cerca Lourenço. Indaguei se ele já ouvira falar do tal sujeito. Para meu espanto, a resposta veio na ponta da língua: - “Brother, Ronaldinho é o atacante do Milan. Quem não conhece o Fenômeno? Até meu cachorro, que é cego de nascença, se acaso topar com ele, andando pelo calçadão de Copacabana, será capaz de pedir autógrafo. Se liga ai, ô meu. Ronaldinho Fenômeno é o nosso grande e inconfundível Ronaldo Luiz Nazário de Lima”. Puts grilo! Por essa não esperava.
 
Na macabra região de Whitechapel, de Jack, o Estripador, ou melhor, em Shoreditch, antes do período hiperbólico de um lugar chamado Camamú, perdão, Brick Lane, no leste de Londres (Camamú fica na Bahia), viveu uma geração sob a luz criativa dos Libertines. Além de uma ligação muito forte com o consumo conjunto de crack (não é o Kent do seriado SMALLVILLE) e heroína, esses jovens tinham em comum o fato de serem influenciados pela atitude lírica e romântica da banda. Segundo Felipe Hirsch, diretor de teatro, em matéria publicada no Segundo Caderno do jornal “O GLOBO”, edição de 26 de outubro de 2008, “Os Libertines são, sem dúvida, a grande banda dessa geração”.
 
Mas e daí? O assunto a ser enfocado aqui não é o Ronaldo? Desculpe, o Fenômeno? Por que desvirtuei do tema e passei a bater boca sobre esses rapazes liderados por Pete Doherty, que davam entrevistas iluminadas por colares, piercings e pulseiras fosforescentes, se nada referente a eles diz respeito à proposta central do texto que ora escrevo? O que pretendo, na verdade, é não deixar dúvidas quanto a minha aversão pelo futebol. Aversão, aliás, ferocíssima. Detesto, odeio, tenho raiva. Aquele barulho dos torcedores nas arquibancadas gritando, pulando, berrando, latindo, tendo chiliques, atirando coisas no gramado, ao tempo que me deixa cataplasmado, me lembra a insustentável sedução do nosso povinho ignorante discutindo, em rodinhas de amigos regadas a cerveja gelada e tira-gosto barato, nas portas dos botecos da vida, o terceiro mandato do Lula.
 
Não sei porque, talvez resquícios de algum trauma de infância não totalmente curado. Quando menino incutiram na minha cabeça, que era uma sacanagem inconcebível, uma putaria das grossas, vinte e dois barbados correndo feito um bando de aloprados atrás de uma bola. Meu avô (que Deus o tenha), apregoava que o mais sensato - para não gerar encrencas e não acabar todo mundo entrando, dando e levando porradas - seria mais prático e coerente dar uma bola na mão de cada jogador. Assim, cada um, por si, chutaria para onde quisesse, sem temer que o adversário viesse, lhe aplicasse uma rasteira e roubasse a gorduchinha.
 
E o Romário? Que Romário, gente? Não é o Ronaldo, o Fenômeno, o panaca da vez? Isso mesmo! La vai. O assunto, todavia, morrerá aqui. Não mais voltarei a ele, seja a que título for. Como disse, não tenho o que falar ou dizer sobre futebol. Não domino o assunto. Sou leigo. Mesmo quando a Seleção Brasileira entra em cena, prefiro ler um livro ou locar um filme e assisti-lo confortavelmente deitado no meu querido e aconchegante sofá. Dessa forma, o episódio ocorrido com o “enrolante do Milan”, senhor Ronaldo, e o encantador de cobras, André Luiz Albertino (esse nome não me é estranho), conhecido como “Andréia Albertine” e, mais dois outros boiolas, seus comparsas, nos leva a refletir sobre aquele velho axioma que sinaliza: “onde há fumaça, há fogo”. Senão vejamos: um cidadão respeitado, cônscio de seus deveres, um cara que tem tudo o que quer, a tempo e a hora, um homem público, que qualquer mulher, ao vê-lo, molha a perereca, deveria cuidar melhor da sua imagem, da sua reputação, avaliando, estimando, vigiando, enfim, necessitaria sopesar com mais acuidade os principais instrumentos de poder, a seu alcance, quais sejam, a fama, o status, a mídia, o caráter, a vergonha, entre outros.
 
Acredito piamente que Ronaldinho saiba ser transparente nos seus objetivos e ideais mais prementes. Não nasceu ontem, não é ingênuo, nem dissimulado e, se o é, disfarça, com maestria impecável, notadamente suas perversões mais salientes. No seu caso, particularmente, vejo a coisa por esta ótica. Sabe-se lá, enjoou do belo sexo, resolveu trocar de time, achou melhor vestir a camisa do adversário. Meditem: se Ronaldinho aprecia um “botão de caneco” ou, se desmancha em munhecações “empurrando um quibe”, em lugar de uma bocetinha lavadinha e cheirando a Maradona, o problema é dele, de mais ninguém. Dispomos, para fazer uso a hora que quisermos, de um instrumento conhecido como livre arbítrio. Dentro desse recurso, que só depende do nosso comando, uma gama de vontades e desejos estão sistematicamente postos ordenadamente a nossa inteira disposição. Somos, portanto, livres para escolhermos a estrada que melhor nos encantar os olhos. Futebol, no meu caso, repito, passa longe. Léguas de distância. Não troco um bom romance pelo Brasil jogando, seja pela busca do título que for, ainda que, em época de Copa do Mundo. Sou mais de curtir, se não tiver uma leitura do agrado, Elba Fitzgerald ou Sarah Vaughan. Esse meu gosto pela música, vem desde Billie Holiday, Chet Baker e Cassandra Wilson. Pode ser o caso de Ronaldinho e suas paixões desengonçadas ou proibidas por um bom naco de traveco esdrúxulo misturado aquela fumacinha que se compra em qualquer ruela da inquietante Cidade de Deus.
 
Da mesma forma que desligo a televisão nas tardes de domingo, para não assistir a transmissão dos jogos e me deixo ser levado por Markus Zusak e a sua Menina que Roubava Livros, Lya Luft, José de Alencar e Machado de Assis, procuro me situar no pensamento que deve ter atravancado a mente conturbada do ilustre jogador, na hora fatídica que escolheu, por vontade sua, queimar a imagem, se autoflagelar, denegrindo-se a si mesmo, aos poucos, em câmera lenta, numa espécie de sadomasoquismo barato, em troca de algumas hora de prazer duvidoso, ao lado de pervertidos meninos de rosto coberto pelas máscaras insidiosas da insensatez. Não, há, pois, que se levantar a hipóteses de um possível engano. Não no caso dele. Duvido que o Fenômeno chute, para gol, um paralelepípedo em lugar de uma bola.  
 
Resta saber, de onde a galera tirou essa historia medíocre de apelidá-lo Fenômeno. Ronaldinho, ainda que mal pergunte, é considerado Fenômeno por quê? Acaso foi abduzido e voltou de algum planeta clonado à Dilma Rousseff? Ressuscitou ao terceiro dia, depois que levou um fora da marqueteira Paula Lavigne? Comeu as melhores e mais belas mulheres, levou chifres de umas trocentas e, agora, mesmo se vendo obrigado a pagar, mensalmente, considerável soma em dinheiro a título de pensões as ex não deixa de rir como uma hiena menstruada?  Essas proezas, a propósito, tornam alguém, ou faz, de um simples mortal, um Fenômeno? Nessa linha de raciocínio, que outro nome pomposo vocês que me mandaram e-mails dariam, (tirando o Fenômeno) a uma celebridade mundialmente conhecida que, de repente, pula de banda, confunde alhos com bugalhos, troca uma linda Natália Casassola, aquela do BBB por um efeminado de Parada de Lucas mais abichado que o Clodovil Hernandes no tempo em que o Roberto Carlos andava de calhambeque desfilando pela avenida Atlântica?
 
Ronaldinho - desculpem os fãs de carteirinha - deveria ser taxado não de Fenômeno, mas de Galinha Ciscadeira, ou na pior das hipóteses, de Deuteronômio, aquele livro do Antigo Testamento incrustado entre Números e Josué. Perguntarão, a uma só voz: - “POR QUE!?” – “NENHUMA LIGAÇÃO!”. A resposta está mais que óbvia. Salta à pele. Assim como o quinto livro de Moisés não tem nenhum entrelaçamento com Ronaldinho, o Fenômeno que lhe imputaram está completamente fora da lógica e do bom senso prático. Ele pode ser considerado Fenômeno pelas merdas embostiadas que aprontou ao longo de sua carreira. Pelos gols que deixou de marcar. Pelas bolas que perdeu, pelas alegrias que deixou de dar aos seus inúmeros admiradores. Concluindo. Chegou a hora de se colocar um ponto final definitivo nessa balela de Ronaldinho Fenômeno. Melhor lhe cairia a auspiciosa alcunha de ANIMAL.             
 
(*) Revista “TEXTOS INTELIGENTES” nº 750 - São Paulo, sábado, 10 de Maio de 2008 – Seção “QUEM SE ABILITA?”- Págs 10 e 11.
*Aparecido Raimundo de Souza é escritor
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 15/05/2008