A casa dos grandes pensadores
 
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

QUEM MANDOU OLHAR O PINTO

   

   Fernandinho Saraiva, completamente sem grana, não via como arranjar dinheiro rápido para pagar o aluguel da pensão onde morava, e a conta  da quitanda do Sinval, do armazém do Marcão e até da farmácia do Diclofenaco. Quase a arrancar os poucos cabelos que lhe restavam, parou, um instante, na praça da matriz, e  acomodou-se num banco diante do chafariz. Na verdade, o chafariz era um moleque de cimento armado completamente nu, fazendo xixi numa espécie de tanque em formato de penico.

-  Meu Deus! – cogitou com seus botões enquanto espiava em derredor. - O que faço para sair dessa pindaíba?

Pelo relógio da igreja, nove e trinta e cinco da noite. Como chegar em casa com dona Angelina tirando plantão vinte e quatro horas?

Pior é que a janela da peste da mulher fronteava com a via de acesso a seu quarto, se é que podia chamar aquilo de quarto. Se conseguisse entrar sem ser reparado, com certeza tomaria um bom banho quente, relaxaria debaixo do chuveiro uns quarenta minutos e depois, então, espicharia o cansaço doido do corpo na velha cama barulhenta. Todavia, isso era praticamente impossível. A proprietária  não baixava a guarda. Semelhava parentesco com o diabo. Nunca abandonava a vigília, nem para usar a latrina que exalava para os cômodos fronteiriços  um cheiro repugnante de torcer o nariz. Sempre atenta, a megera varava alta madrugada fumando cigarro após cigarro, o que provocava em sua garganta uma tosse repugnante e interminável. Raios! Tinha que haver uma saída, tinha que haver uma solução. Mas qual?

Pensara em vender cachorros-quentes e pipocas na porta do clube, mas o clube só funcionava nos finais de semana. De segunda a sexta-feira, as ruas da pequena cidade ficavam às moscas, completamente despovoadas até de forasteiros que vinham de outras localidades. Em lugarejos do interior, o pessoal  se recolhe mais cedo, logo depois da novela das oito, e no domingo, ao terminar o programa do Fantástico. Prática antiga, até porque, no dia seguinte, o “lavoro” a enfrentar é tão certo quanto a morte.

Desesperado, sozinho, com fome, sem um tostão nos bolsos para convencer um cego a cantar, Fernandinho Saraiva continuava no banco. Danou a roer as unhas num gesto de descontrole emocional. Às vezes metia o dedo no nariz e retirava de lá do fundo uma meleca gosmenta. Em seguida, limpava na manga da camisa. Olhava para um lado, depois para o outro. Transeuntes cruzavam com ele. Crianças choravam ao longe. Cachorros latiam. Um casalzinho de namorados permutava carícias encostado na parede do coreto. Um mendigo de rosto agitado procurava no chão algo para forrar a barriga. Enquanto isso, Fernandinho queria trocar as roupas, pegar uma ducha quente, descansar a carcaça, comer, beber...

Furioso, voltava às unhas e às sujeiras do nariz. Fazia  maquinalmente, sem  perceber. Inquieto, nervoso, deslizou a atenção dos olhos para o moleque do chafariz. Sentiu, de repente, que carecia urgentemente de um canto ermo onde pudesse aliviar a bexiga. A coisa,por dentro, andava prestes a estourar. Mijar, mijar, mijar. Mas onde? No meio da praça? Na grama do jardim?

Saltou, do banco, apressado. Lembrou-se de um espaço que seria ideal. O corredorzinho escuro e sem saída atrás da igreja, entre o santuário e os aposentos paroquianos do Padre Bartolomeu. Correu para lá. Realmente um bequinho escuro o aguardava. Mal chegou, abriu o zíper e colocou o troço para fora.

Foi aí que uma moça, pulou diante dele, sozinha, (sozinha uma figa). A sem-vergonha saiu muito braba levantando a calcinha e ajeitando apressadamente a blusa e a mini saia. Fernandinho assustou-se com ela, tanto que não viu quem a acompanhava, um puta de um armário embutido de quase dois metros de altura, bater em retirada correndo e encobrindo o rosto, ao tempo que vestia, como um foguete, a camisa e abotoava o jeans. Naturalmente, transavam às escondidas. O problema é que a  jovem desandou a gritar como uma possessa:

- Tarado, tarado, tem um maluco aqui mostrando o pênis.

- Socorro!...

Foi o que bastou para juntar uma pá de gente. Figuras de todos os cantos acotovelaram-se nas janelas das casas, nas varandas, nos muros, nas portas das vendinhas. Encostou uma D20 com alguns soldados, a sirene ligada, faróis acesos. O barulho ensurdecedor quebrou o marasmo dos cidadãos mais pacatos. Dois grandalhões partiram à cata do infeliz, revólveres e cacetetes em punho.

A garota, dando uma de santinha, evidentemente querendo passar-se por puritana, apontou o pobre desgraçado:

- Ali...

Fernandinho levou uns tapas pelo meio das ventas, outros iguais no pé do ouvido:

- Vamos ter uma conversinha com o delegado, seu maníaco de merda.

O desafortunado saiu puxado, arrastado pela camisa. A rapariga a gritar, eufórica:

- Corta esse malandro na porrada.

Sem entender nadinha de nada, Fernandinho não teve chance de esconder a arma de artilharia, ou seja, o flagrante delito que causou toda a confusão: uma pica magra, roliça, franzina e murcha, toda molhada, que segurava entre os dedos.

Assistindo ao espetáculo, o menino do chafariz continuava parado, quieto, mudo, frio, indiferente, fazendo tranqüilamente seu xixi de pau duro e interminável, sem que ninguém lhe dirigisse um olhar de indignação ou de  desaprovação.