A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


O Fim da criminalidade ou a intervenção estratégica do PLANO D?.

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza.

Lemos todos os dias nos jornais e assistimos pelas redes de televisão que a escalada da criminalidade, a cada dia que passa, cria novas e profundas raízes. Com isso, igual uma doença incurável, ela aumenta, se alastra e avança assustadoramente. A coisa virou rotina. E, de rotina, transformou-se em caos. Diante disso, governantes e autoridades se empetecam, arranjam uma gravatinha nova, mostram uma plástica recente no rosto, se enchem de brios, reclamam, esperneiam, mas não conseguem pôr um fim ou dar um basta definitivo nesse câncer crônico cujo recrudescimento e falta de estratégias pôs o país à beira do inferno de Dante.

Vamos voltar no tempo para podermos ilustrar melhor os pontos nevrálgicos que traremos a discussão e, em seguida, apresentarmos o antídoto capaz de coibir com a proliferação desenfreada da marginalidade e do crime organizado.

Em outubro de 2004, o ministro da justiça, Marcio Thomas Bastos garantia que cinco novos presídios federais estariam prontos até o final daquele ano. Uma primeira pergunta surgiria aqui, a guisa de parêntese: adianta construir cadeias onde nem moscas conseguem entrar, quando os verdadeiros ladrões estão soltos e vivendo as expensas do Zé Povinho? É de bom alvitre, deixar registrado, que, nós, humildes escritores, se pudéssemos ser agraciados com a indicação para ocuparmos uma vaga de ministro, teríamos vergonha de mostrarmos a cara em rede nacional. Faríamos melhor. Enfiaríamos nosso rostinho bonito e bem barbeado, debaixo do sovaco do ilustre Fernandinho Beira Mar, para, em aliança com ele, darmos prosseguimento e cobertura àquela facção que ofereceu uma recompensa em pomposos cartazes espalhados por todo o Rio de Janeiro, com a intenção de desarmar o “bondinho do João”. Para nós, seria como reviver a gloria do Doutor Pangloss, célebre personagem de Voltaire. Por certo, daríamos uma porrada com luvas de pelica no pessoal da oposição. Mas esperem um pouquinho, senhores borra botas desse Brasil de ninguém: não deixem de levar em consideração, que, depois desse episódio vergonhoso dos cartazes, muitos outros “bondinhos do João, do Chiquinho, do Alemão” surgiram e, estão por ai, firmes e fortes.  Fechemos o parêntese.

Pois bem. Em 2003, 6.624 pessoas foram sumariamente retiradas de circulação só no Estado do Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, 3.750 e, em São Paulo, 7.100. Destas, na Cidade Maravilhosa, 1.195 perderam a vida em ações policiais falhas, 2.020, em Belo Horizonte. Em São Paulo, registraram 2.250 mortes, com a observância que, nos três estados, até hoje, essa vergonha nacional irrefreável continua engasgada nos inacabados inquéritos policiais que rolam nos cartórios das dezenas e centenas de delegacias à espera que caiam, o mais rápido possível, no ralo do esquecimento.   O número de assassinatos subiu para 3.470, só no Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, 1.225 e, em São Paulo, 4.638. Ao todo, mais de 31.237 cidadãos se viram lesionados em decorrência de algum crime violento. Será que o nobre ministro saberia explicar, aos milhares e milhões de embasbacados prostrados diante das telinhas dos telejornais, se esses números aumentaram ou diminuíram? Com certeza, não. Todavia, seu colega de pasta, o ministro para assuntos estratégicos, Capeta dos Infernos, teria as respostas na ponta da língua. Pelo amor de Deus, não digam que nunca ouviram falar do ministro Capeta. Acordem, saiam do marasmo, prezados cidadãos! Acaso esqueceram que as Torres Gêmeas foram para as cucuias e as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, virou um filme digno de ser assistido?    

Tudo bem. Pulemos essa parte. Alguém se recorda da guerra entre bandidos, que expulsou os moradores da Favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, algumas semanas atrás? E das cabeças decapitadas, encontradas próximo à estação do metrô de Acari? Apostamos, conscientemente, que pouca gente ainda tenha esses episódios na lembrança; todavia, o construtor de presídios (desde a época da entrevista) vem anotando, carinhosamente, em seus guardados, que, em 2004 -, 102 policiais morreram em serviço e, agora, início de abril do corrente -, esse número praticamente chegou a estapafúrdios 440. Ora, se o maior representante da Justiça não sabe, desconhece, ou não anotou, por certo, o mais sensato, seria ter seguido o exemplo das avestruzes...

Ministros e ladrões a parte, teçamos rápidos comentários em torno do povo brasileiro.  É sabido, pela maioria, que ele gosta de viver ao sabor das lorotas romanescas de Dan Brown. Aceita tudo o que lhe é imposto, como se fosse um Jesus crucificado, querendo salvar o mundo de todos os pecados da humanidade. Mente estreita, gosta de sofrer, de ser pisoteado, massacrado, esmagado, tal como Bakbarah das Mil e Uma Noites. Faz isso por amor. Não reclama, não assume, não grita, não tem idéias novas, nem peleja por espaços melhores. Para ele, tudo está ótimo e dentro dos conformes, desde que não lhe falte um banquinho tosco, à noite, para sentar o rabo e grudar os olhos nas novelas da Globo. A grande massa não quer saber se a descoordenação desses parias que estão com as rédeas do poder é ou não comprovadamente eficaz, menos, ainda, se as idéias alardeadas aos quatro cantos trarão benefícios à sociedade. Pouco lhe faz diferença, se as mortes do sargento Arthur Guedes Freire e do soldado Adriano Reis de Moura, ambos da Policia Militar do Rio de Janeiro, metralhados ao pé de uma favela no bairro de Inhaúma, valeram, para alertar os famigerados (que se proliferam como ervas daninhas na Brasília do saudoso Juscelino), de que é preciso, sem mais delongas, sair do ostracismo enervante, do marasmo enfadonho e apresentar alguma coisa concreta a esses panacas que, “di pari, come buoi, che vanno a giogo” estão prontos para serem servidos nos banquetes regados a churrascos e vinhos importados nas mesas fartas dos filhos da mãe, (NOSSOS REPRESENTANTES NA CÂMARA, NO SENADO, NOS MINISTÉRIOS, ENFIM, NO RAIO QUE OS PARTAM TAMBÉM, POR QUE NÃO?). Afinal, responda quem tiver coragem e vergonha: o que interessa a esses Chicos e Manés tomarem conhecimento que, aos primeiros dias de fevereiro, 563 mil moradores, de 23 bairros periféricos da cidade fundada por Estácio de Sá permaneceram largados aos ratos, em vista dos representantes da boa ordem estarem desestruturados para um embate frente-a-frente com seus inimigos, mais ferrenhos? Por outra: que diferença faz, se o medo mórbido da população, tanto do Rio de Janeiro, como de Belo Horizonte e São Paulo se transformou numa síndrome desenfreada e, como a volta triunfal da epidemia da dengue, virou best-seller nacional, embora o enredo seja de péssimo gosto e digestão dificílima?

Já não queremos mencionar o tal suspense turístico, que colocou a terrinha amada (conforme noticiou o jornal britânico The Independent), no topo da lista negra, ao alinhavar, em suas páginas, fatos requintadíssimos e teses discutíveis, observando que “os governantes e as autoridades perderam a batalha, estando o Brasil à deriva, como um desditoso Titanic, prestes a naufragar, numa gigantesca onda de lama e podridão?”.

Qual seria, pois, a mágica benigna, a fórmula tão sonhada para extirpar, da face da terra, a criminalidade? No que consistiria o “PLANO “D”? Seria essa estratégia vista pelos nossos governantes e autoridades, como uma válvula de escape paliativa, ou uma medida provisória de péssima reputação que já nasceria sufocada pela burocracia das leis existentes ou, realmente, se transformaria num remédio eficaz, certeiro e infalível, para cessar de vez, com o terrível mal do século? A fórmula é bem simples. Direta, sem rodeios. Cada bandido capturado, cada assaltante preso, cada traficante fora das ruas (incluindo a maciça população carcerária condenada por crime hediondo), ato continuo, teria sumariamente seus órgãos retirados. Antes, para evitar problemas com as leis em vigor e, notadamente com os salafrários e cafajestes dos direitos humanos, o elemento assinaria um TERMO DE DOAÇÃO VOLUNTARIO, ou TDV. Nesse documento ficaria acordado que, por livre e espontânea vontade e sem nenhum tipo de coação ou tortura, transmitia, a bem da ciência e de seu país, todos os órgãos passíveis de transplantes, entre eles, as córneas, os pulmões, os rins, ai embutidas as tão faladas e discutidas células-tronco (que reutilizadas terapeuticamente no organismo de determinados pacientes, podem propiciar novas esperanças na luta contra aproximadamente 60 doenças, entre elas, os vários tipos de cancros, males do coração, leucemia e outras mazelas que afligem a população). Enfim, o João da Coca, o Paulinho do Vidigal, os Fernandinhos Beira Mar e, tantos outros facínoras, colaborariam, diretamente, para que grandes números de necessitados pudessem voltar ao seio de seus familiares. Com isso, se acabaria, igualmente, com um outro quadro mais crítico e humilhantemente lamentável. Os hospitais, as instituições, os organismos e os centros de captação de órgãos, que hoje vivem, de pires nas mãos, à cata de doadores, sairiam do vermelho. As filas quilométricas das unidades de atendimento do SUS, não só dele, mas de outros mecanismos voltados para o mesmo fim, cessariam, diante dessa ação da bandidagem. O que a banda podre receberia em troca dessa caridade?  Uma permuta justa. O perdão, ou seja, TODOS, SEM EXCEÇÃO, TERIAM SUAS PENAS SUSPENSAS. NO MESMO TRILHAR, OS PROCESSOS QUE ESTIVESSEM TRAMITANDO, RESTARIAM ARQUIVADOS.  O “PLANO D” por sua vez, poria um ponto final na criminalidade. Ninguém se arriscaria a se enveredar pelos caminhos do crime, sabendo que cairia nas malhas finas da doação voluntária. Na verdade, o plano seria, para os fora da lei, como uma medida coercitiva de punição ou pena restritiva de direitos. Vista a coisa por outra ótica, no lugar de se construir cadeias de segurança máxima, o senhor ministro da justiça mandaria vir, das Minas Gerais, bons nacos de queijo. Em paralelo, construiria ratoeiras em grande escala, contrataria uma empresa particular especializada em dar cabo de ratos e camundongos. Ela agiria em todo o Brasil, com atenção voltada especialmente para Brasília, onde já se constatou que a incidência desses vermes é assustadoramente alarmante, requerendo, portanto, cuidados mais sérios. Isso mesmo, Brasília, a capital do país, A mesma que alguns malucos teimam em apontar erradamente como o berço das grandes decisões nacionais.       

(*) Publicado na Revista “TEXTOS INTELIGENTES” nº. 735 – Abril de 2008 – Págs. 13 e 14.

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*Aparecido Raimundo de Souza é escritor

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 04/04/2008