A casa dos grandes pensadores
 

 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


Os Três desejos

(*) Aparecido Raimundo de Souza

(**) Nota do editor da revista “Textos Inteligentes”

“A Justiça é uma puta bem safada, tão envergonhada de si mesma, que esconde os olhos numa venda”

(Pensador de Rua – Praça da Sé – São Paulo)

Diz um provérbio árabe que o homem, para ser totalmente realizado, necessita dar existência a três coisas consideradas fundamentais: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Com todo respeito, desculpem a intransigência, ou  a intolerância, mas a elas eu tomaria a liberdade de acrescentar mais três itens distintos, claros, não no sentido de deturpar o anexim  ou discordar de quem quer que seja.  Seria, na verdade,  trazer à baila a extensão dos meus sonhos que, tenho certeza, também estão presentes na cabeça de muitos milhões de brasileiros.

Vão dizer, à boca miúda, que esses desejos não passam de loucuras inventadas por um debilóide, ou por um bobo alegre da corte, ou por outra, por filósofos de meia tigela iguais aos da Idade Média, que viviam nos palácios dos príncipes e nobres, divertindo os bens nascidos com momices e ditos chocarreiros. O fato é que do alto dos meus cinqüenta e quatro, já escrevi um filho, plantei um livro e tive uma árvore. Sistematicamente nessa desordem...

Todavia, em nenhum momento desse mais de meio século,  me julguei  efetivamente dono da situação, ou seja, não fui, nem sou feliz. Então, perguntariam: o que faria esse idiota ilustre se sentir plenamente  realizado e partir daqui alegre,  e saltitante se, claro,  batesse hoje, com a caçoleta?

Se me permitem, gostaria de abrir um parêntese para trazer à baila algumas querenças secretas que carrego desde que me entendo por gente. Se não botar para fora esses “encobertos” que fluem de dentro o meu âmago como bombas prestes a explodirem -, ainda que para alguns possam parecer contrários e pecaminosos à moral, a ética e aos bons costumes - ficarei entalado como se tivesse com dois ovos quentes na  boca. Os senhores que me contemplam, incrédulos e pasmos, já passaram pelo ridículo de terem a boca entupida com dois ovos quentes engasgados na linha da garganta? Deveriam experimentar!...

Sempre achei, continuo achando e vou morrer pensando dessa forma: o homem que não é ignavo e preza, acima de qualquer filosofia, a sua honradez, deve fazer e falar o que bem entende, expressar, sem medo de represálias seus pensamentos, convicções e anseios, sem se acovardar diante das leis, da ordem, da moral, da ética e da sociedade. Que tudo isso voe pelos ares  junto com aqueles afetados pela hipocrisia, pelos caras fingidas que têm sangue de barata correndo nas veias. Igualmente que parem no inferno, de braços dados com o capeta, os boçais e cagarolas (principalmente os de colarinho branco)  os que se julgam amordaçados, ou  que preferem calar o bico e silenciar a voz, ao invés de abrirem o peito e liberar todo o gás venenoso que corrói o íntimo, que está preso, sufocando,  impedindo que a liberdade de expressão bata as asas e a  vontade de ser autêntico  enfraqueça e se esgote juntamente com o livre arbítrio e, mais: esbofeteando a duros golpes o bom senso, aquele onde o ridículo não tem vez e não se cria. Resumindo: aqueles que temem a censura e abaixam a cabeça diante de sua presença que enfiem o dedo no rabo e façam como o velho Abelardo Chacrinha Barbosa ensinava: rodem, rodem e rodem até o medo fazer bico e feder.

Pronto: vomitei  as substâncias nodosas que teimavam em fazer germinar o embrião de um otário a mais que insistia em permanecer enclausurado  dentro da  alma.

Mas esperem um pouco! Abri um parêntese para falar dos meus sonhos secretos e acabei desvirtuando o rumo da prosa. Deixem, então, discorrer sobre as tais aspirações maiores até que a árvore, o livro e o filho. O que seria mais gratificante que o belo gesto de plantar uma árvore? O que daria mais prazer que escrever um livro ou ter um filho? Com a árvore se cuidaria para que a natureza fosse preservada e mantida a zelo, e num futuro próximo meus descendentes respirassem um ar livre de impurezas. O livro legaria à posteridade todas as experiências de uma trajetória de vida, com lições diárias de um aprendizado meticuloso, sofrido, sentido na carne e ferido na pele. E o filho? O filho perpetuaria a espécie, propagaria a raça, manteria viva a ramificação do tronco  genealógico e imortalizaria a linhagem dos futuros consangüíneos que dela surgissem e tornaria, sobretudo,  imorredoura e perdurável a estirpe.

Porém, isso tudo que fiz alinhar,  serviria apenas para levantar a moral do cidadão pacato, acomodado, tranqüilo  e bocó. Jamais para mim. Em nada do que aqui estão enfileirados residem as minhas fantasias de ser humano comum. Não sei porque, me assistem honrarias que excedem o impossível, sem querer ser pedante e melhor que ninguém. Ora, muitos se perguntarão: se plantar uma árvore, escrever um livro e gerar um  filho nunca fez e nem fará a felicidade desta criatura, que pretende, então? Quais suas ânsias e ambições? Suas aspirações e cobiças,  num país onde prolifera o caos total e a anarquia dos baderneiros?  A resposta é simples, minha gente. O que almejo é muito comum e simples, de fácil compreensão, inclusive. Talvez até mais corriqueira que a moral embutida no provérbio árabe. São, portanto, meus desejos, livres de ornamentos afrescalhados, todavia, elevados, distintos e cheios de magnanimidade.

Por primeiro, daria  uma escarrada na lata ou no rosto do presidente quando esse infeliz vem a público com palavras bonitas engambelar os trouxas: não existe carestia – diz ele -, não existe inflação, não existe estado paralelo. O País está nos trilhos, a  moeda é forte, o fantasma do desemprego é pura  intriga da oposição, a segurança caminha impecável, o povo não passa fome, a seca do Nordeste foi dizimada e os zés-dos-anzóis esparramados por aí a fora não morrem nas mãos de bandidos fora-da-lei. 

Segundo, obrar (para quem não sabe, obrar é o mesmo que cagar, evacuar, bater uma laje, soltar um barro, passar um telegrama) na Constituição Federal, porque essa Lei Maior, essa Carta Magna que os grandalhões tanto dizem acatar, respeitar, estimar e considerar, não passa de um conjunto de direitos e deveres malsucedidos, de normas regulamentadoras de uma instituição falida, fracassada, frustrada, mal gerada que na prática só existe bonitinha mas ordinária, no papel.

Terceiro, limpar o traseiro na Bandeira Nacional, símbolo que outrora tremulava imponente e vestuta com o verde das nossas matas, com o  amarelo do nosso ouro, com o azul do nosso infinito e porque não, com o branco e sem manchas da paz que restou manchada.          

Diante do que foi posto, que atire a primeira pedra (e aqui eu fecho o parêntese aberto) aquele pai de família, o assalariado, o aposentado, o pensionista, o policial, o professor, o médico, enfim, cada representante da sua categoria, como também  aquele pacato e singelo homenzinho de brio, vergonha e caráter que não comungue ou não compartilhe comigo (ainda que lá no fundo trema de medo de confessar), da vontade doída e ardente que chega a dar cócegas nos nervos, de realizar  - ainda que depois apodreça atrás das grades - com regozijo pleno, essas três proezas...

Acaso alguém teria dúvidas em responder se o brasileiro, de um modo geral é feliz? Se  realmente se sentisse despreocupado e alegre, por que nas festas populares as pessoas sãem às ruas caracterizadas de Bin Ladem? Por que na malhação de Judas a população não castiga a criatura que segundo a Bíblia teria traído a Jesus? Os jornais de todo o País publicam, diariamente charges e textos que se tivéssemos no tempo da ditadura os seus autores estariam vendo o sol nascer quadrado. Já não quero falar nos humoristas do Casseta&Planeta, da Rede Globo, que a cada novo programa mostram, com estardalhaço cada vez mais achincalhante  a pouca vergonha dos nossos políticos, bem como a falta de respeito pelo cidadão comum e, quando menciono comum, me refiro a enorme legião de famintos, esfarrapados, humilhados e injustiçados que sobrevivem nas periferias deste imenso rincão.

Meus desejos representam, pois, acima de tudo,  a vontade desse povo sofrido, a consciência de uma geração aflita, de uma plebe posta de lado, rejeitada, abandonada à sorte. Muitos não falam porque temem a  lei. A justiça é implacável com os humildes, com os negros, com os favelados, mas protege os poderosos e acoberta suas falcatruas. Vivemos num País onde o Chefe da Nação sustenta que a justiça é uma caixa preta. Todos sabemos que a justiça é uma caixa preta. Um saco de gatos, um covil de malfeitores, um ninho de cobras. O Senhor Lula disse isso e meia dúzia de figurinhas intocáveis o interpelaram através de processos judiciais, fizeram, aconteceram, espernearam e qual foi o resultado? Pizzas! No Brasil tudo acaba em pizzas os sabores mais variados. Servidas numa mesa enorme, com muita cachaça (nenhum afronto aos cachaceiros de plantão, pelo amor de Deus) e refrigerantes,  para ajudar a descer melhor e não engasgar na garganta dos que pregam um moralismo deturpado, inconsistente, sujo, nojento,  lambrecado de repugnâncias.

Todos nós temos dentro do coração um pouco de Bin Ladem, de Buch, de Saddan, de Hitler, do motoqueiro do parque, do bandido da luz vermelha, dos irmãos Cravinhos e das Suzanes da vida. Adoraríamos, nem que fosse por milésimo de segundos estar na pele dos comandantes do PCC e outras facções para comandar o tráfico de dentro dos presídios de segurança máxima, de poder matar os desafetos, botar fogo nos ônibus, atirar contra policiais, promover a esculhambação com estardalhaço e atropelo, enfim,  passear para cima e para baixo em aviões particulares cercado por fortíssimo esquema de segurança.  

Em igual trilhar, gostaríamos de derrubar os prédios públicos de Brasília, ver transformado num monte de escombros o Senado, a Câmara, os ministérios, os palácios suntuosos, as mansões onde vivem a turminha dos terninhos de grife, dos sapatos bem engraxados, dos que andam em carrões com motoristas de quepes e luvas brancas, dos que  transgridem os sete pecados capitais multiplicados setenta vezes sete. Também nos faria um bem enorme massacrar a  pedradas, essas criaturas zelosas que elegemos para cuidar dos nossos anseios e objetivos mais prementes.

Por extremo, acalentamos mostrar a face oculta, ou seja, aquele lado sombrio que não aflora porque o sistema coíbe, pune, prende, retalha.

Alguém já viu rico na cadeia? Deputado atrás das grades?  Senador da República prestando depoimento em delegacia? Por favor, apontem um só personagem, um só do governo,  ou ligado a ele, que esteja  mofando no xilindró. Em contrapartida, o homem do dia-a-dia, o infeliz, o Zé mané, o pretinho que mora lá no alto da favela, com certeza, lá está, pagando a sua pena.  Para ele a justiça  existe, mas existe no sentido de fritar a sua pele e arrancar seus ossos.  Os que têm dinheiro, compram a liberdade, acoitados pela justiça, os que não têm, mofam nas masmorras do Estado, e sofrem as piores penas de restrição à liberdade, ou seja, a caixa preta, vem para cima deles como presente de grego. Todos nós temos dentro do coração e isso é sempre bom repetir, um pouco de Bin Ladem, de Buchs, de Saddam, de Hitler, e de todos os outros ilustres anarquistas e terroristas que deixaram marcas na humanidade. Gostaríamos de guerrear com as coisas que estão erradas e que fogem aos padrões normais. Afinal de contas, meu Deus, tirando isso, esses parias que vemos todos os  dias por ai, vivem em Brasília  para quê?  Será com a intenção de acabar com o lixo, com a podridão, com os ratos, as lacraias e as baratas de esgoto?

Em paralelo, todos nós adoraríamos fazer uma reforma, não da previdência,  ou do judiciário, mas  uma reforma no grande circo de palhaços que comandam o espetáculo, que tomam conta do picadeiro. Uma reforma nos que escrevem os capítulos dessa novela chata, repetitiva e tediosa. Mudar os diretores, os roteiristas, os iluminadores, os contra-regras, enfim,  mudar o elenco de artistas que já nos encheram bastante o saco e cujas caras estamos cansados de ver na telinha  de nossos aparelhos de tevê e, pior, em horário nobre. No meio dessa balburdia toda, meus caros, duas coisas são certas como a morte de Cristo no Calvário e o continuísmo da podridão que nos assola. 1ª) querer nunca deixou de ser sinônimo forte de poder e, 2ª  o brasileiro não pensa forte, não é decidido não vai a luta: já se acostumou a trocar seu voto por uma cesta básica e o pagamento de uma conta de luz.

Enquanto essa reforma política (que tanto alardeiam os safados e ladrões que vivem na Capital Federal) não se realizar - primeiramente na cabeça de cada cidadão de bem, de cada homem honrado que não tenha sangue de barata nas veias, evidentemente acompanhada de uma CPI do Bom Senso, o Brasil que vemos ai - continuará ao deus dará, ao salve-se quem puder. Um quadro lastimoso que, a cada dia, nos trás a memória uma frase bastante oportuna da Revolução dos Cravos, acontecida em 1974. “TODO O PODER ÀS PUTAS, QUE SEUS FILHOS JÁ LÁ ESTÃO”.

(*) Revista “Textos Inteligentes” – nº. 550 - Julho de 2007 (págs. 17 a 19) – Sábado, 07 de Julho de 2007.

(**) Nota do Editor. O artigo acima transcrito saiu publicado originariamente em livreto único, (15 páginas, com ilustração do artista plástico Wagner Veiga) pela Editora PAPEL&VIRTUAL - Rio de Janeiro em maio deste ano. Sua publicação gerou, ate o presente momento, 12 interpelações judiciais ao autor, seguido de um pedido judicial interposto na Segunda Vara Criminal do Rio de Janeiro para a recolha de todos os exemplares distribuídos às livrarias. Em Apelação interposta, o autor foi beneficiado com uma Liminar que lhe garantiu o direito de manter o livro em comercialização, bem como sua republicação neste espaço, o que fazemos agora, totalmente na íntegra e sem cortes.             

Aparecido Raimundo de Souza é escritor

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 09/07/2007