A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


Um pedacinho que se desprendeu

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza

Para Luzia (Lulu), minha irmã.

Você partiu sem dizer nada. Deixou por aqui um vazio imenso. Uma saudade grande que penetra nos meus sonhos e acelera minha inquietude. Às vezes penso que você virou estrela. Mas eu, particularmente, sei que isso não é verdade. Você não virou estrela. A gente só vira estrela quando morre. Não é esse o seu caso. Você não morreu. Sei que está bem viva em algum lugar do meu passado. Em alguma parte dessa selva de pedras gigante, rodeada de estranhos, cercada de rostos inexpressivos ou perdida, talvez, numa ruazinha sem saída. Quem sabe choramingando num beco de lembranças à espera de um milagre. O milagre do nosso reencontro. A graça do nosso recomeço. Sinto você rondando por guetos, escondidinha, como uma menina assustada, cheia de medos e receios, à mercê do acaso, ou do inesperado. Não vê o dia, nem a hora de ser reencontrada. É por isso que busco. Que procuro, dentro de mim, incansavelmente, a sua presença, como o mendigo deitado na esquina querendo saber de que lado fica o amanhã. Futuco velhos baús, alcanço minha infância, onde flutua, no meu céu, a pipa e os balões do longínquo Lauzane Paulista, ou mais precisamente da casa número onze da Rua Professor Aloísio de Castro. De um amontoado de caixas amarelentas, pulam imagens embaralhadas, salta o bicho papão dos meus sustos de menino. O relógio na parede parou os ponteiros, a cristaleira perto do banheiro, ficou vazia de louças; permaneceu, no ar que respiro, duradouros sons de um ontem antigo e imagens distorcidas dos meus avós. Mas como o pássaro não se revela ao vento atrás da montanha, nada por aqui me direciona a sua existência.

Do nosso tempo de criança, da nossa infância perdida não me restou muita coisa. Quase nada nesse quebra cabeça de mil peças, onde tento juntar, aos poucos, a medida em que o tempo me permite, os pedacinhos, formar um chão seguro onde pisar, ou um porto onde atracar meu barco a deriva de saudades. Dói saber, minha princesa, que nenhuma fotografia, nenhum papel escrito, nenhum bilhete, nada, absolutamente nada restou do nosso ontem. Nada, a não ser pequenas quimeras que transformei em mimos e, de igual sorte, perpetuei dentro de um quartinho de lembranças, que fiz erguer como uma puxadinha dentro de mim – uma quase dispensa, onde depositei tudo de nós - relíquias raras. Às vezes, na minha saudade, me perco horas a fio nesse espaço que criei só para pensar em você.  Sempre que posso, fujo para dentro dele e me questiono: onde estará ela agora? Em que parte do meu eu distante aquele pedacinho de mim me escapou? Que atalho seguiu, que eu não vi? Por qual e estranho caminho sua sombra se embrenhou que não deixou pistas que pudessem, ao menos, ser seguidas a depois?  

Nosso único elo de ligação – papai – também resolveu virar fumaça. Achou mais cômodo se dissolver no ar, como nuvem passageira, levado, talvez, ao sabor do mesmo vento que soprou para além da minha capacidade de entendimento todas as coisas boas que poderíamos ter feito. Para todos os lados que olho, só vejo silencio e vazio. Exílio sem fim de vidas perdidas. Vertigens de imagens se condensam ao meu redor e me tolhem os passos. Fantasmas se formam em pequenas lágrimas, e se derramam pelo meu rosto, como se fossem cascatas de sonhos bonitos, sonhados ao aconchego de uma noite eterna, da qual não gostaria nunca ter acordado. Esses seres me assustam, me prendem numa dor sem sentido, num abraço desconexo e, muito depois, quase às portas da exaustão, desaparecem, somem, criam asas enormes, se mesclam no ar, viram pequenos pontos distantes e da mesma forma como apareceram, se vão sem deixar vestígios. Assim como você se foi, minha Lulu, minha irmã querida. A única consangüínea do belo sexo que tive em toda a minha existência. Um presente do qual não desfrutei. Um amor bonito que não vingou. Uma existência que se perdeu entre as brumas de um passado que maltrata e fere profundamente. Você é, Lulu, a minha ternura antiga. Aquela que possui a cor do tamanho da infelicidade que, desde sempre, me atormenta. Ela tem, ainda, o cheiro acre do vazio que restou de tudo. Meu coração sente saudade e essa saudade é do tamanho do seu rosto. Uma parte de mim sofre, a outra se desvencilhou e seguiu viagem dentro de você. Numa dessas noites, embevecido em nosso quartinho de lembranças, seus olhos, de repente, pareceram me espreitar por detrás de uma canção distante – “Esse amor demais antigo, amor demais amigo, que de tanto amor viveu. Que manteve acesa a chama, da verdade de quem ama, antes e depois do amor”.  Hoje, pelas minhas contas, você completa 20 anos, enquanto eu desfruto dos 23. Mentalmente, vejo você, ao redor da mesa posta. O clima é de festa. Na sala, sobre a toalha branca, um bolo enorme, em forma de coração, refrigerantes, dezena de doces e salgados espalhados, bolas coloridas, no teto e, pelo resto da casa, um bando de convidados transitando para lá e para cá. Há um ziguezague desenfreado. Flagro a Ermelinda, ao lado do fogão, rodeada de vizinhas e freguesas do salão.  E você, num encantamento ímpar, de vestidinho azul, assoprando as velinhas. Não a dos 20, mas a dos 15, em 1971 e, depois, cortando o bolo, aos 18, em 1974. Com a galera, ajudo a engrossar o coro das vozes para a sustentação dos parabéns. Você sorri. Sorri um sorriso de princesa, ao tempo que se abre, inteira, como uma pétala de rosa, igual flor desabrochada botão. Bate palmas, eufórica. Em seguida, nos abraçamos longamente. Nessa hora, você se entrega, sem medo, se envolve, no calor dos meus braços. Saímos de mãos dadas, sem nos importarmos com os demais e corremos até o portão -, há um corredor comprido até onde está o portão –, todavia, antes de chegarmos até ele, tudo se dissolve. Vira tempo, fumaça, lembranças. Não fosse pouco e tudo se esvai, tudo se junta à noite, onde uma lua gentil nos espreita lá do alto. Saudade derrama prata sobre seus cabelos. Bate um vento ameno, que duplifica o enigma, como se alguém deitasse no frio piso do corredor, uma varinha mágica. Mal tenho tempo de gritar: “Lulu, eu te amo!”. Aliás, eu grito, eu grito, grito forte, grito sentido. O meu amar não exclui a solidão, nem destrói esse indivisível fardo que carrego.  Minha voz se perde num silencio em branco e preto, consome a fotografia que desenhei de você. Consome a mim, num eterno enigma que me envolve logo depois. Mas eu sou, minha irmã querida, como a lagarta. Ela não tem pressa. Sabe que logo virá outra vida nas asas de uma borboleta. Você é o meu alvo. La freccia raggiunge il bersaglio Che sedece la freccia. A flecha alcança o alvo que Atrai a flecha. Você partiu, eu sei, sem dizer nada. Permaneceu, por aqui, um vazio imenso. Mesmo dentro desse vazio, percebo que o vento deixou suas lições, sem, no entanto, dissentir. Na minha saudade, enquanto espero por você, enquanto sinto o vento, enquanto sinto o ir e vir de tudo, uma esperança, ao meu redor, se veste de amarelo. Nessa esperança, até as flores do jardim dos seus olhos brincam de primavera.

(*) Carapicuíba, São Paulo, Março de 1976.

Publicado na Revista TEXTOS INTELIGENTES nº. 736 - Abril de 2008 – Págs. 17 e 18.

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*Aparecido Raimundo de Souza é escritor

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 07/04/2008