A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

QUERUBINA DO AMOR PERFEITO

 

   Acho que ainda não falei a vocês da Querubina. Foi uma das minhas paixões, anos atrás. Tivemos um longo romance, bonito enquanto durou até que ela conheceu um rapaz simpático, mais novo, que atendia pelo nome de Tompson de Panasco, representante de filtros para torneiras, na capital. O cara vivia viajando cidadezinhas do interior e numa dessas  a levou com ele. A partir de então, raríssimas vezes nos encontramos. Num esbarrão, outro dia,  no vai-e-vem do trânsito, trocamos telefones e endereços. E o caso morreu no esquecimento.
Bem, pelo menos até hoje de manhã, quando ao descer para recolher os jornais na caixinha de correspondências do prédio, deparei com um envelope cor-de-rosa, subscrito por ela: Querubina do Amor Perfeito. “Bina”, como a apelidei, gostava da cor rosa. Em tudo dela, prevalecia esse tom. Nos mínimos detalhes, inclusive nas  unhas, no vestir, nos calçados, nas roupas, peças íntimas e até nas cartinhas. Pelo jeito, a minha jovem amiga  não mudou muito...
Subo correndo, e antes mesmo de chegar à porta do apartamento me vejo com o envelope rasgado e um par de  folhas de caderno ao alcance das vistas:
...”Meu adorado fofinho, quanto tempo! Bateu uma saudade grande, por isso resolvi escrever. O que tem feito de bom? Namorada nova no pedaço? E quanto a sua vida? Planos para o futuro? Tem produzido muito? Algum livro em andamento? Outro dia - imagine - li uma crônica sua, um desassossego bandido invadiu meu ser, desses que vem de repente e da mesma forma vai embora, não deixando rastro. Faz tempo que não nos vemos. O Tompson está ótimo, vendendo igual água. Trocamos o  carro, agora não é mais aquele Fiat 147 amarelo (Meu Deus, que cor horrível), sabe que odeio amarelo, não é mesmo? Ele financiou um Corsa branco (eu queria cor-de-rosa), mas o vendedor disse que não podia realizar meu sonho, pelo menos assim, de imediato. Mas lhe escrevi, na verdade, primeiro para colocar as fofocas em dia, saber como você anda, o que tem feito, essas coisas que nós  mulheres gostamos de saber. Segundo, deu na telha escrever uns versinhos, pensamentos tolos, coisas infantis,  de apaixonada, sem valor histórico, e gostaria, sinceramente, que meu fofucho passasse os olhos e dissesse se devo continuar insistindo com a caneta e o papel, ou aposentar  de uma vez para sempre esse negócio de tirar de dentro de mim certas  bobagens adormecidas. Não repare, (nem ria), fiz com a alma, para o Tompson.  Botei o nome de “Desejos”, mas ainda não tive coragem de enviar. Tompsom é meio esquisitão, mas no fundo, um sujeito legal, de alma  alegre, tranqüila, o peito aberto a todos que quiserem chegar. Antes que esqueça: mandou  lhe um forte abraço”...
Na outra folha igualmente cor- de- rosa, o  tal pensamento em letras bordadas:
 
...”Queria ser o seu “tudo” na vida
os caminhos a percorrer
os perigos a enfrentar
o amanhã por nascer
o sorriso do seu olhar.
Queria ser seu agora
o seu melhor momento
de felicidade
e encantamento
Queria ser sua esperança
a sua alegria
a sua ilusão e fantasia
Queria finalmente
estar em seu coração
ser seu momento de reflexão
na calma tarde que  refletida lá fora”...
 
Espero, meu fofo, do fundo do meu eu, e em nome de nossa velha amizade, que  você consiga reservar uns dez minutinhos e, os dedicar aos nossos velhos laços de amizade. Se achar por bem, modificar,  ou aumentar, fique a cavalheiro, aliás, você nunca deixou de ser um perfeito cavalheiro. Meu endereço está do outro lado da folha.  Aguardo resposta.  Despeço enviando-lhe mil beijos. Dessa que não esquece, que ora  fervorosamente todas as noites, a Papai do céu,  por você, sua família  e ainda  o quer muito. Querubina”...