Acho que ainda não falei a vocês da Querubina. Foi
uma das minhas paixões, anos atrás. Tivemos um longo romance, bonito
enquanto durou até que ela conheceu um rapaz simpático, mais novo,
que atendia pelo nome de Tompson de Panasco, representante de filtros
para torneiras, na capital. O cara vivia viajando cidadezinhas do
interior e numa dessasa levou com ele. A partir de então, raríssimas vezes nos
encontramos. Num esbarrão, outro dia,no vai-e-vem do trânsito, trocamos telefones e endereços. E o
caso morreu no esquecimento.
Bem, pelo menos até hoje de manhã, quando ao descer para recolher
os jornais na caixinha de correspondências do prédio, deparei com um
envelope cor-de-rosa, subscrito por ela: Querubina do Amor Perfeito.
“Bina”, como a apelidei, gostava da cor rosa. Em tudo dela,
prevalecia esse tom. Nos mínimos detalhes, inclusive nasunhas, no vestir, nos calçados, nas roupas, peças íntimas e
até nas cartinhas. Pelo jeito, a minha jovem amiganão mudou muito...
Subo correndo, e antes mesmo de chegar à porta do apartamento me
vejo com o envelope rasgado e um par defolhas de caderno ao alcance das vistas:
...”Meu adorado fofinho, quanto tempo! Bateu uma saudade grande,
por isso resolvi escrever. O que tem feito de bom? Namorada nova no
pedaço? E quanto a sua vida? Planos para o futuro? Tem produzido
muito? Algum livro em andamento? Outro dia - imagine - li uma crônica
sua, um desassossego bandido invadiu meu ser, desses que vem de
repente e da mesma forma vai embora, não deixando rastro. Faz tempo
que não nos vemos. O Tompson está ótimo, vendendo igual água.
Trocamos ocarro, agora não
é mais aquele Fiat 147 amarelo (Meu Deus, que cor horrível), sabe
que odeio amarelo, não é mesmo? Ele financiou um Corsa branco (eu
queria cor-de-rosa), mas o vendedor disse que não podia realizar meu
sonho, pelo menos assim, de imediato. Mas lhe escrevi, na verdade,
primeiro para colocar as fofocas em dia, saber como você anda, o que
tem feito, essas coisas que nósmulheres gostamos de saber. Segundo, deu na telha escrever
uns versinhos, pensamentos tolos, coisas infantis,de apaixonada, sem valor histórico, e gostaria, sinceramente,
que meu fofucho passasse os olhos e dissesse se devo continuar
insistindo com a caneta e o papel, ou aposentarde uma vez para sempre esse negócio de tirar de dentro de mim
certasbobagens adormecidas. Não repare, (nem ria), fiz com a alma,
para o Tompson.Botei o
nome de “Desejos”, mas ainda não tive coragem de enviar. Tompsom
é meio esquisitão, mas no fundo, um sujeito legal, de almaalegre, tranqüila, o peito aberto a todos que quiserem chegar.
Antes que esqueça: mandoulhe
um forte abraço”...
Na outra folha igualmente cor- de- rosa, otal pensamento em letras bordadas:
...”Queria ser o seu “tudo” na vida
os caminhos a percorrer
os perigos a enfrentar
o amanhã por nascer
o sorriso do seu olhar.
Queria ser seu agora
o seu melhor momento
de felicidade
e encantamento
Queria ser sua esperança
a sua alegria
a sua ilusão e fantasia
Queria finalmente
estar em seu coração
ser seu momento de reflexão
na calma tarde querefletida
lá fora”...
Espero, meu fofo, do fundo do meu eu, e em nome de nossa velha
amizade, quevocê
consiga reservar uns dez minutinhos e, os dedicar aos nossos velhos laços
de amizade. Se achar por bem, modificar,ou aumentar, fique a cavalheiro, aliás, você nunca deixou de
ser um perfeito cavalheiro. Meu endereço está do outro lado da
folha.Aguardo resposta.Despeço
enviando-lhe mil beijos. Dessa que não esquece, que orafervorosamente todas as noites, a Papai do céu,por você, sua famíliae
aindao quer muito.
Querubina”...