A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


Sem buracos na caixa preta

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza

O que você acha mais importante para o povo brasileiro, hoje, ou melhor, para o Brasil, neste exato momento em que se fala, a todo instante, das falcatruas do Renan Calheiros, das reformas políticas, das CPis que nunca deram em nada, na máfia das sanguessugas ou na aparição triunfal de Collor e outros salafrários que conseguiram voltar ao cenário político? O que seria de vital importância para a população? Mudar o aeroporto de Congonhas para os quintos do inferno, ou saber quem matou a Taís na novela Paraíso Tropical? Acaso o povo brasileiro estaria interessado em saber quais foram às conclusões dos inspetores da FIFA na fiscalização dos estádios de futebol para o próximo mundial? Afinal, o que, na verdade, interessa mais a população? Descobrir como foram usadas as propinas pagas aos deputados federais denunciados por Roberto Jefferson, ou o que Lula fará ate o final do segundo mandato?

Errou quem respondeu ser tudo isso. A meta principal do governo, atualmente, é tirar o seu rabinho da reta, trancar a bunda a sete chaves e continuar pousando bem bonito para as fotos. Ao lado de dona Marisa, evidentemente. Errou também, claro, quem sinalizou ser a prisão dos envolvidos na máfia da gasolina, ou os cilindros com os dados de voz encontrados pelas equipes de buscas da Aeronáutica e do Exército lá em Serra do Cachimbo, no acidente com o avião da GOL, onde morreram 157 pessoas. Lembram desse acidente? Talvez você, em particular, não recorde, porque não havia ninguém da sua família dentro daquele avião! Pimenta no rabo dos outros, não arde. Sem sombra de dúvidas, você saberá responder com quem a Cicarelli transará no próximo final de semana, ou quem e a atual mulher com a qual o cantor Fabio Jr acabou de contrair núpcias...  

Pois bem! Deve ser levada em conta, uma série de fatos considerados de vital importância: a educação nunca foi meta de nenhum governo. Quanto mais burros existirem por aí, melhor para se fazer a cabeça e manipular. Não interessa a nenhum chefe de nação gente instruída ou com muita visão de futuro. A máfia da gasolina, para quem não sabe, acabou nos postos que abastecem os carros do Planalto e, também, não há interesse em que se chegue ao final de alguma apuração transparente. Quanto aquele avião que caiu, a vaca já foi pro brejo mesmo, as 154 pessoas do vôo 1907, estão, agora, na casa do cacete, a GOL assumiu as burrices de seus pilotos e as mixarias indenizatórias restaram pagas a todas as famílias envolvidas. Por falar na GOL, Linhas Aéreas Inteligentes, ela  provou que realmente é inteligente: recebeu um aparelho novinho em folha da ExcelAire, a empresa  dona do Legacy que fez a merda toda e ninguém falou mais nada. Também falar o que, de que, e para quê?  Em linha paralela, a nossa digníssima e brilhante Policia Federal, através do delegado Renato Sayão, responsável pelo inquérito (que, diga-se de passagem, não apurou porcaria nenhuma) até hoje não se recompôs da humilhação pela qual passou. Continua, ainda, quase as portas de completar um ano do fatídico acidente, fora de rota, às apalpadelas, voando num céu que nunca foi de brigadeiro. Na verdade, Renato Sayão desde o início das investigações do acidente com o 737/700 se encontrava mais perdido que cego manco em tiroteio e, pior, desempenhou, com esmero, o ridículo papel de palhaço. Aliás, é bom que se diga, todos os seguimentos da sociedade, de repente, resolveram assumir esse papel. A Polícia Federal não poderia ficar de fora. Seria, acima de tudo, ridículo. É bom lembrar, nessa remexida de ovos, porque o delegado Sayao tão bem desempenhou o papel do saudoso Carequinha.  Com certeza todo mundo já esqueceu.  Voltando um pouquinho só, a fita. O delegado Sayao foi encarregado de ouvir os 18 controladores de vôo que trabalhavam no dia do acidente. Ao chegar na Base naval de Brasília, a fim de cumprir sua importantíssima missão, se viu “surpreendido” com uma batelada de atestados médicos expedidos pela Aeronáutica. De repente, a rapaziada que deveria prestar depoimento saiu de cena –, ou porque passaram a ter problemas repentinos de saúde –, ou por outra, os órgãos que controlam a aviação civil no Brasil, estavam atentos, cuidando com elevado esmero para que aquela galera não falasse demais e não pusesse tudo a perder com suposições vazias e sem nexo. Eles, os controladores, sabiam demais, todos temos consciência disso. Porém, o que eles conhecem, como a palma das mãos, não deveria ser compartilhado com ninguém. A teia da aranha deve ser mantida no mais absoluto segredo, de preferência a sete chaves, como o traseiro do presidente. Em fluxo paralelo, alguém, por detrás dos panos, sinalizou que nenhuma informação deve ser vazada para a imprensa ou para a população e fim de papo. Tal atitude traria, à baila, um amontoado de mistérios existentes nas coxias da tal da Agencia Nacional de Aviação Civil, (Anac), do Departamento de Aviação Civil (Dac) e da Infra-estrutura Aeroportuária, conhecida como Infraero, ou Infraoferro.

Nessa farofa toda, não deve ser esquecida outra figura importantíssima. O juiz federal Charles Renaud Frazão de Moraes. Ora bolas, que papel representa esse prezado juiz nesse quebra cabeças? Até onde se tem notícia, esse magistrado estava colado nos calcanhares dos condutores do jatinho, os indivíduos Joseph Lepore e do co-piloto, Jan Paul Paladino para saber onde eles moravam. A imprensa apurou o seguinte. Como estamos próximos das festas natalinas, o MM Juiz queria mandar a eles cartões de Feliz Natal com felicitações de um Próspero ano novo. Todavia, a embaixada norte-americana não engoliu essa balela. Achou que o juiz estava de sacanagem e com outras idéias na cabeça. Diante disso, se negou a fornecer os respectivos endereços onde essas figuras poderiam ser encontradas. Nessa altura do campeonato, ser encontradas para quê?  Os digníssimos já bateram asas do território nacional, vão voltar aqui para quê? O grotesco episódio tomou vulto e acabou indo parar na embaixada, imaginem só, na embaixada. Entrou, em cena, o cônsul-geral norte-americano, um tal de Simon Henshaw, mas esse, logo de cara, mostrou a que veio. Não abriu as pernas, nem se fez de rogado. Botou o terninho de grife, engraxou os sapatos e partiu para frente das câmeras. Você ai sentado esperando pela novela da Globo.  Recorda do que ele disse?  Sei que não importa, mas diremos queira você ouvir, ou não.  Em entrevistas concedidas à mídia, o posudo foi curto e grosso. Não abriria a guarda. Nada de endereços. O juiz Charles Frazão que se afumentasse e fim de papo. E ele, de fato, se afumentou. Mais um boboca, portanto, para engrossar a lista dos adoradores do Arrelia.  

Vamos, agora, tentar ver a coisa por outro ângulo. Se fosse o contrário, ou seja, se o desastre com o Boeing mais o Legacy houvesse ocorrido, por exemplo, no espaço aéreo dos Estados Unidos e, em conseqüência, tivesse morrido uma pá de filhos do Tio Buch. Será que o nosso representante diplomático agiria da mesma forma que o seu colega? Com certeza, há muito, teria sentado na boneca e vomitado o que soubesse, sem se importar com as burocracias e entraves do Ministério das Relações Exteriores.  

Não devemos deixar de lado, já que mexemos no angu, o advogado dos pilotos do jatinho, Dr. Robert Torricello. Além da enorme pressão que fez junto às autoridades brasileiras, ingressou com medidas judiciais alegando que seus constituídos não careciam permanecer nem mais um dia no País e, por outra, que a “apreensão de seus passaportes e o impedimento para deixarem a boa terrinha dos bandidos e larápios, não passavam de medidas extrajurídicas ilegais”. Certo, o moço. Nós é que paramos no tempo e nos acostumamos a ser vaquinhas de presépio. Pau mandado. O brasileiro, o homem nativo, como um todo,  é um tremendo Zé mané.      

No contra fluxo dessa balela que rola por ai, surgem, ainda, novas indagações à procura de respostas concretas: quem, afinal julgará os controladores? A justiça comum, ou a militar? Quem é a figura competente para resolver esse nó na garganta de tanta gente em busca do óbvio? E o inquérito? Quase esquecíamos dele! A quem compete dar andamento? Enquanto a grana para abafar as arestas não aparece e a coisa não cai, de vez, no esquecimento - como outros desastres idênticos - com muitas pizzas e refrigerantes sendo servido, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) continua imprestável e politicamente emperrado. Ate agora não se sabe a quem cabe decidir de quem será a competência para julgar o supramencionado inquérito da novela GOL. Se a Policia Civil de Mato Grosso, ou a Polícia Federal, com sede em Brasília. Por certo, a nosso ver, Senhores, pelo amor de Deus, não ponham, a prova, mais uma vez, a inteligência medíocre desses boçais que andam a cata de respostas. Quem deve julgar? Que tal a Comissão de Ética do Senado?

Como? Não é da competência da Comissão de Ética do Senado? Desculpem, a gafe! Mil perdões.  Para se dar uma satisfação à sociedade de caipiras e bobos da corte, que tal a indicação da Mãe Joana? A que acabou de absolver o Renan Calheiros e seus pares.  Quem melhor que ela, a Mãe Joana, para dar uma resposta definitiva, concreta, séria, eficaz e, a altura, do nosso querido e amado Zé Povinho?

JCV-03.11.06. 

*Aparecido Raimundo de Souza é escritor

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 17/09/2007