“Se
a morte é triste onde quer que ela se abata, ai chegará o superlativo da
tristeza” (Salvador Gentile)
Lá
vou eu, andando a cavalo, debaixo de um sol mormacento, montado num burro.
Por mais que force a barra, o animal parece uma tartaruga empacada, não
deslancha os passos nem por reza braba. O caminho, embora comprido, até
que ajuda um pouco os que dele carecem: chão de terra batida, com trechos
cobertos por cascalhos e pedregulhos. A paisagem, em derredor, é que não
muda. Por mais que se olhe, de um lado para outro, só se divisa fazendas
enormes com árvores de copas frondosas com sombras acolhedoras. Cercas de
arame farpado perdem-se, abraçadas aos mourões pintados de preto, bem lá
longe, onde as vistas não agüentam enxergar. De vez em quando, em uma
porteira de acesso a sítios ribeirinhos, um caraminguado, em pé, muito
respeitoso, tira o chapéu e aproxima-se, cabisbaixo, dando os pêsames
pelo falecimento da Tia Cotinha. Aliás, eu faço essa viagem de índio
porque ela havia sido internada, às carreiras e levada para a UTI,
semanas atrás, e por causa deum
tal de infarto do miocárdio, (pelo menos foi isso que o médico, Dr.
Bezerra, diagnosticou) titia resolveu, de uma hora para outra, terminar
sua autobiografia, e, por conta disso,não sair da tal da UTI respirando. Achou melhor encerrar sua história
e, de lá mesmo, virar defunta fresca. Pôr um ponto final definitivo e
partir desta para melhor. E, como todo mundo sabe, depois que uma criatura
resolve visitar Papai do Céu, por mais querida que seja entre os
familiares, os que ficam, não deixam o cadáver esquentar lugar na mesa,
entre os vivos, ou queimar muita vela, que é para economizar os bolsos
dos familiares.
Morreu, dá-se logo um jeito de arrumar um paletó
de madeira, sete palmos de terra e um cemitério de primeira, com
canteiros bem cuidados enfeitando as sepulturas, essas coisas que os
exploradores do povo vivem inventando a cada dia, visando a ganhar uns
trocadinhos a mais. No caso da tia, depois da necropsia, meteram sua carcaça
num vestido alaranjado do tempo do ronca, uma blusinha simples, de manga
comprida, (certamente para não sentir frio, na viagem), ajeitaram os
cabelos à Maria Chiquinha - , titia adorava Maria Chiquinha – passaram
um batom de cor discreta nos lábios esbranquiçados e cobriram-na da cabeça
aos pés com cravos brancos e vermelhos. Tia Cotinha deve estar bonita e
formosa (meu Deus, que horror, não é possível que esteja pensando uma
coisas dessas, justo nessa hora amarga!) dentro do caixão adquirido às
pressas na funerária “Descanse em paz” do seu Altair, da farmácia, e
que uma Caravam toda enfeitada de cruzinhas e cortinas roxasfora até as cercanias do rancho fazer a entrega.
Fico
imaginando, enquanto tento instigar o quadrúpede a trotar mais ligeiro,
tia Cotinha acomodada, sem o sorriso permanente no rosto cheio de rugas em
meio a um punhado de pequenas coisas que detestava. Ela odiava, por
exemplo, plantas e, se bem recordo, ainda em vida, havia feito um pedido
veemente aos quatro filhos: quando morresse, que não colocassem flores de
espécie nenhuma no ataúde. Tinha alergia. Coitada! A essas alturas, lá
do andar de cima, estará muito irada, com o nariz coçando. E quando o
nariz comicha, ela dana a espirrar feito louca. Não há nada que corte o
maldito inconveniente.
Num
momento de terno enlevo, aflora-me, à memória, tia Cotinha sendo velada.
Ao redor do esquife, uma dezena de amigos e parentes compenetrados,
choram, de lencinhos coloridos nas mãos e comem pipoca. Por estas bandas,
quando alguém bate a cacholeta, a pipoca não pode faltar. Faz parte do
ritual. Pois bem, os vizinhos mais próximos, nesse exato instante, devem
estar comentando, com profundo pesar, (num canto da sala) as ações da
boa senhora, seu coração enorme, aberto, como um porto, a todos os
navios e aos infindáveis pedidos de ajuda e conforto aos aflitos que
faziam filas na escada docasarão
principal.
Na
verdade, titia com sua natureza de querer ajudar todo mundo, reabilitava
as almas atribuladas. Colocava, nos angustiados e aturdidos, uma dose
forte de consolo e esperança. O certo é que os pares que iam ter com ela
voltavam para seus lares em paz, tranqüilos como se nenhum problema os
atormentasse. Mas e agora?Sim
e agora? Quem consolaria essas criaturas que procuravam por tia Cotinha?O primo Luiz?O
primo Vando? Pelo menos esse dois, apesar dos pesares, tinham os pés bem
firmes no chão. Ao contrário de Cassandra e Olegária. Ambas se constituíam
em um belo par de éguas quadradas, sem um pingo de juízo e coerência
nos miolos. Aliás, na cabeça dessas doidivanas só havia espaço para os
namorados da capital, que davam as caras todos os finais de semana e
estendiam o domingo até a quinta-feira. Nesse interregno, as duas sem
vergonha ficavam grudadas, na maior putaria, beijando-se e fazendo o que não
deviam dentro do paiol de milho, enquanto a madrugada corria solta, no
infinito...
Com
certeza, tia Cotinha irá fazer falta. Muita gente, (além dos familiares
próximos,incluindo os
casais que vinham tomar conselhos) sentirá, na pele a ausência dessa
setentona sacudida, que todo dia acordava às quatro e meia, passava a mão
num dos cavalos, engatava a charrete e batia para o vilarejo (quase cinco
quilômetros e meio, só de ida) para fazer compras. E, na hora em que a
turma acordava, lá pelas nove, o café estava no fogão, assim como os pães,
o bolo de fubá, a manteiga caseira, tudo prontinho em cima da mesa de
cimento (que o falecido tio Corrêa construíra) e até o almoço dos peões
que trabalhavam duro na colheita do café, como também o dos cachorros:
bofe com polenta.
Mas
quanto a mim, o que direi à tia Cotinha no instante em que apear na sua
beira? Santo Deus, não sei se agüentarei encarar a titia estática,
parada, fria, indiferente, dentro de uma caixa de madeira esquisita,
tenebrosa, fedendo a odores de além-cova, e aqueles craveiros
esparramados sobre seu peito. Não, tia Cotinha não estará no velório
para receber-me. No momento da minha entrada, ela deverá andar ocupadíssima,
transitando de um lado para outro anotando na sua cadernetinha inseparável
quem foi e quem deixou de ir para dar-lhe o último adeus. Tenho plena
convicção de que ela transformará o rosto numa indescritível careta
que assustará até o capeta, na derradeira hora em que forem colocar a
tampa lacrando definitivamente a urna.
Titia
sofria, desde pequena, de algumas fobias inseparáveis. Uma delas era o
medo de ficar no escuro, sem ninguém para bater um papinho. Por essa razão,
não posso deixar de pensar no caixão lá embaixo, sem um bico de luz e a
falta de oxigênio. Titia vai morrer mil vezes. Vai ser uma merda!
Chego,
mesmo, a escutar sua voz furiosa ralhando com os meus primos:
Tire
esse treco de cima de mim, Vando. Cruz em credo! Cassandra, que diabos
estou fazendo deitada à estas horas feito uma pamonha? Cadê a Olegária?
Já mandou os rapazes almoçarem?Afinal,
por que todos olham para mim como se estivessem diante de um fantasma?
Ouvindo
tia Cotinha, de repente assusto-me e por via de conseqüência, assombro o
infeliz do animal, que me prostra boquiaberto, no meio da poeira.
Cavalo
burro. De outra vez vê se derruba a sua mãe.
Fernanda,
minha esposa, aos prantos e aos solavancos, agride-me, para que pare de
gritar feito um debilóide, no meio da noite.
Que
é isso, homem de Deus? Está sonhando?Que cavalo burro é esse que você tanto xinga desesperadamente? E
que idéia é essa de me dar um monte de coices? Quase me joga para fora
da cama. Vê se aquieta o facho e me deixa dormir, seu jumento de uma
figa!...