A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

LEMBRANÇAS DA TIA COTINHA  

 

“Se a morte é triste onde quer que ela se abata, ai chegará o superlativo da tristeza” (Salvador Gentile)

Lá vou eu, andando a cavalo, debaixo de um sol mormacento, montado num burro. Por mais que force a barra, o animal parece uma tartaruga empacada, não deslancha os passos nem por reza braba. O caminho, embora comprido, até que ajuda um pouco os que dele carecem: chão de terra batida, com trechos cobertos por cascalhos e pedregulhos. A paisagem, em derredor, é que não muda. Por mais que se olhe, de um lado para outro, só se divisa fazendas enormes com árvores de copas frondosas com sombras acolhedoras. Cercas de arame farpado perdem-se, abraçadas aos mourões pintados de preto, bem lá longe, onde as vistas não agüentam enxergar. De vez em quando, em uma porteira de acesso a sítios ribeirinhos, um caraminguado, em pé, muito respeitoso, tira o chapéu e aproxima-se, cabisbaixo, dando os pêsames pelo falecimento da Tia Cotinha. Aliás, eu faço essa viagem de índio porque ela havia sido internada, às carreiras e levada para a UTI, semanas atrás, e por causa de  um tal de infarto do miocárdio, (pelo menos foi isso que o médico, Dr. Bezerra, diagnosticou) titia resolveu, de uma hora para outra, terminar sua autobiografia, e, por conta disso,  não sair da tal da UTI respirando. Achou melhor encerrar sua história e, de lá mesmo, virar defunta fresca. Pôr um ponto final definitivo e partir desta para melhor. E, como todo mundo sabe, depois que uma criatura resolve visitar Papai do Céu, por mais querida que seja entre os familiares, os que ficam, não deixam o cadáver esquentar lugar na mesa, entre os vivos, ou queimar muita vela, que é para economizar os bolsos dos familiares.

Morreu, dá-se logo um jeito de arrumar um paletó de madeira, sete palmos de terra e um cemitério de primeira, com canteiros bem cuidados enfeitando as sepulturas, essas coisas que os exploradores do povo vivem inventando a cada dia, visando a ganhar uns trocadinhos a mais. No caso da tia, depois da necropsia, meteram sua carcaça num vestido alaranjado do tempo do ronca, uma blusinha simples, de manga comprida, (certamente para não sentir frio, na viagem), ajeitaram os cabelos à Maria Chiquinha - , titia adorava Maria Chiquinha – passaram um batom de cor discreta nos lábios esbranquiçados e cobriram-na da cabeça aos pés com cravos brancos e vermelhos. Tia Cotinha deve estar bonita e formosa (meu Deus, que horror, não é possível que esteja pensando uma coisas dessas, justo nessa hora amarga!) dentro do caixão adquirido às pressas na funerária “Descanse em paz” do seu Altair, da farmácia, e que uma Caravam toda enfeitada de cruzinhas e cortinas roxas  fora até as cercanias do rancho fazer a entrega.

Fico imaginando, enquanto tento instigar o quadrúpede a trotar mais ligeiro, tia Cotinha acomodada, sem o sorriso permanente no rosto cheio de rugas em meio a um punhado de pequenas coisas que detestava. Ela odiava, por exemplo, plantas e, se bem recordo, ainda em vida, havia feito um pedido veemente aos quatro filhos: quando morresse, que não colocassem flores de espécie nenhuma no ataúde. Tinha alergia. Coitada! A essas alturas, lá do andar de cima, estará muito irada, com o nariz coçando. E quando o nariz comicha, ela dana a espirrar feito louca. Não há nada que corte o maldito inconveniente.

Num momento de terno enlevo, aflora-me, à memória, tia Cotinha sendo velada. Ao redor do esquife, uma dezena de amigos e parentes compenetrados, choram, de lencinhos coloridos nas mãos e comem pipoca. Por estas bandas, quando alguém bate a cacholeta, a pipoca não pode faltar. Faz parte do ritual. Pois bem, os vizinhos mais próximos, nesse exato instante, devem estar comentando, com profundo pesar, (num canto da sala) as ações da boa senhora, seu coração enorme, aberto, como um porto, a todos os navios e aos infindáveis pedidos de ajuda e conforto aos aflitos que faziam filas na escada do  casarão principal.

Na verdade, titia com sua natureza de querer ajudar todo mundo, reabilitava as almas atribuladas. Colocava, nos angustiados e aturdidos, uma dose forte de consolo e esperança. O certo é que os pares que iam ter com ela voltavam para seus lares em paz, tranqüilos como se nenhum problema os atormentasse. Mas e agora?  Sim e agora? Quem consolaria essas criaturas que procuravam por tia Cotinha?  O primo Luiz?  O primo Vando? Pelo menos esse dois, apesar dos pesares, tinham os pés bem firmes no chão. Ao contrário de Cassandra e Olegária. Ambas se constituíam em um belo par de éguas quadradas, sem um pingo de juízo e coerência nos miolos. Aliás, na cabeça dessas doidivanas só havia espaço para os namorados da capital, que davam as caras todos os finais de semana e estendiam o domingo até a quinta-feira. Nesse interregno, as duas sem vergonha ficavam grudadas, na maior putaria, beijando-se e fazendo o que não deviam dentro do paiol de milho, enquanto a madrugada corria solta, no infinito...

Com certeza, tia Cotinha irá fazer falta. Muita gente, (além dos familiares próximos,  incluindo os casais que vinham tomar conselhos) sentirá, na pele a ausência dessa setentona sacudida, que todo dia acordava às quatro e meia, passava a mão num dos cavalos, engatava a charrete e batia para o vilarejo (quase cinco quilômetros e meio, só de ida) para fazer compras. E, na hora em que a turma acordava, lá pelas nove, o café estava no fogão, assim como os pães, o bolo de fubá, a manteiga caseira, tudo prontinho em cima da mesa de cimento (que o falecido tio Corrêa construíra) e até o almoço dos peões que trabalhavam duro na colheita do café, como também o dos cachorros: bofe com polenta.

Mas quanto a mim, o que direi à tia Cotinha no instante em que apear na sua beira? Santo Deus, não sei se agüentarei encarar a titia estática, parada, fria, indiferente, dentro de uma caixa de madeira esquisita, tenebrosa, fedendo a odores de além-cova, e aqueles craveiros esparramados sobre seu peito. Não, tia Cotinha não estará no velório para receber-me. No momento da minha entrada, ela deverá andar ocupadíssima, transitando de um lado para outro anotando na sua cadernetinha inseparável quem foi e quem deixou de ir para dar-lhe o último adeus. Tenho plena convicção de que ela transformará o rosto numa indescritível careta que assustará até o capeta, na derradeira hora em que forem colocar a tampa lacrando definitivamente a urna.

Titia sofria, desde pequena, de algumas fobias inseparáveis. Uma delas era o medo de ficar no escuro, sem ninguém para bater um papinho. Por essa razão, não posso deixar de pensar no caixão lá embaixo, sem um bico de luz e a falta de oxigênio. Titia vai morrer mil vezes. Vai ser uma merda!  

Chego, mesmo, a escutar sua voz furiosa ralhando com os meus primos:

Tire esse treco de cima de mim, Vando. Cruz em credo! Cassandra, que diabos estou fazendo deitada à estas horas feito uma pamonha? Cadê a Olegária? Já mandou os rapazes almoçarem?  Afinal, por que todos olham para mim como se estivessem diante de um fantasma?

Ouvindo tia Cotinha, de repente assusto-me e por via de conseqüência, assombro o infeliz do animal, que me prostra boquiaberto, no meio da poeira.

Cavalo burro. De outra vez vê se derruba a sua mãe.

Fernanda, minha esposa, aos prantos e aos solavancos, agride-me, para que pare de gritar feito um debilóide, no meio da noite.

Que é isso, homem de Deus? Está sonhando?  Que cavalo burro é esse que você tanto xinga desesperadamente? E que idéia é essa de me dar um monte de coices? Quase me joga para fora da cama. Vê se aquieta o facho e me deixa dormir, seu jumento de uma figa!...