A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

DO VELUDO ÀS POCILGAS

   
 
   Quando derrubaram o complexo do Word Trade Center, em Nova York, caricaturaram Osama Bin Laden mantendo relações esdrúxulas com George Walker Bush. Nessa charge, o ex-governador do Texas, aguilhoado e suando em bicas, levava a pior e gritava, preso, de quatro, nas garras do cidadão mais procurado pelos cachorrinhos recém-saídos do Pentágono.
Esse cartum foi divulgado em todos os jornais do planeta, inclusive pela Internet. Vamos conceber, agora, a mesma cena, tendo como pano de fundo o Brasil. Osama acaba  de "apear” de seu Cavallo (que atende pelo nome de Domingo). O animal é argentino, puro sangue, e foi dado de presente a um dos filhos do terrorista pela atual primeira dama desse País (esposa do regente tampão Eduardo Duhaldo), ao líder  espiritual supremo do Talibã, mulá Monhamed Omar, dias antes do fatídico onze  de setembro.
Osama cavalgou muitas horas por Brasília, ladeado por fortíssimo esquema de segurança: batedores do exército, polícia federal, militar,  civil e até os Dragões da Independência. O “Profeta do Terror”,  sempre ao lado de seu rifle Kalashnikov, acenou para os velhinhos, mandou beijinhos para as “patricinhas”, distribuiu chocolates, pegou criancinhas no colo e até fumou o cachimbo da paz com o estuprador da estudante Silvia Letícia, Paulinho Paiakan. Conheceu a Torre de Televisão,  a Fonte Luminosa, a Esplanada dos Ministérios, os Palácios do Itamaratí, do Planalto e da Alvorada. Saiu deslumbrado com o tamanho da Estação Rodoviária, representada por um imenso avião pousado (imaginou, inclusive, que um piloto seu, da rede Al Qaeda, de posse do cockpit,  voando num Boing com aquelas dimensões, poderia varrer de uma só vez os Estados Unidos e deixar Bush a ver a sua “Big Apple” afundar como o Titanic, pendurado num dos braços mutilados da Estátua da Liberdade).  Encantou-se, igualmente, com a Catedral, mais ainda com os espigões do Congresso Nacional, que muito vagamente lhe trouxeram à lembrança as duas twin towers de Manhattan. Osama se encontra em solo brasileiro porque indicaram seu nome para receber uma placa de honra ao mérito. Será condecorado, no Salão Oval,  por ato de bravura como o maior estrategista de guerra literalmente vivo. O parlamentar, autor da façanha, (na verdade um bajulador de carteirinha, de Bin) em sua moção, alegou que o nosso Virgulino, o “Lampião”, perto desse milionário excêntrico de barba, turbante e jaqueta camuflada, passou à terceira categoria e deverá ser lembrado, ou melhor, rebaixado, para  a posição de “mero aspirante” a herói, degrau que jamais conquistou.
            Segundo ele, “Lampião”, perdeu terreno,  deixando-se capturar juntamente com a Maria Bonita e seu bando de cangaceiros, ao contrário de Bin, que deu uma rasteira  cinematográfica em toda a frota armada dos americanos posta em seus calcanhares. O Che Guevara está feliz, aliás, felicíssimo. Sem dúvida alguma caiu no carinho dos pósteros. Com uma tosse fraca e intermitente, anunciou solenemente a Fernando Henrique, em nome de Alá que não estão em seus planos transformar  a cidade de Juscelino Kubitscheh num amontoado de entulho, até porque se considera muito satisfeito com o povo desse imenso paraíso e sua hospitalidade, que classificou de “impar e de primeiro mundo”.
             Fernando Henrique, em festivo alarde, e diante da enormidade desse acontecimento, necessita aparecer bem bonitinho na televisão. Deverá, por conta disso, almoçar e tomar chá com o saudita, tirar fotografias nas cercanias da Procuradoria Geral da Justiça, trocar tapinhas nos ombros com aliados e puxa-sacos e prometer solenemente ajudar os desgraçados e desvalidos do Nordeste. Correm boatos de que Fernando Henrique convidará Bin para  se mudar de mala e cuia para o lado de cá. Tudo por conta: apartamento na W3 Sul, ou se Laden preferir, uma mansão de frente para o Lago Paranoá. Carro blindado, com motorista, batedores, segurança particular, jatinho, e livre acesso aos Palácios do Planalto e Alvorada. Até agora são só  rumores, nada de concreto. Contudo, pelo andar da carruagem, é provável (mas não impossível) que futuramente Laden  venha e até se candidate à Presidência da República.
             A título de curiosidade, e, ainda, dando asas à fantasias, imaginemos Osama disputando a corrida a esse cargo tão importante. Com certeza, a essas alturas do campeonato, a Roseana Sarney (se não tivesse saído do páreo) teria explodido, junto com o marido, nos escritórios da Lumus-Agrima. Quanto ao Luiz Inácio da Silva, com toda a cúpula do PT, estaria esquentando os ossos num imenso caldeirão de lulas nas profundezas do inferno.
             José Serra não ficaria de fora e, de igual sorte, detonaria, em alto mar, de braços dados, com o mosquitinho da dengue, dentro de um desses vôos fretados pelo partido.
             Ciro Gomes, sem a Patrícia (e mesmo com a ajuda do seu guru particular Roberto Mangabeira Unger) veria cair por terra o Pilar de sustentação, sufocando seus sonhos aos frontispícios de Regente Maior. Itamar, que também disse adeus à cadeira de assento vermelho, perderia o topete, os sapatos, as meias, o Fusquinha e os pães de queijo.
Anthony Garotinho, mandaria para o espaço o  pirulito de morango, os brinquedos, as calças curtas, a Bíblia e os irmãos da Igreja, além, é claro, da Editora e Gráfica em sociedade com a Rosinha Matheus e Jonas Lopes (atual Conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro). Enfim, Osama ascenderia ao poder sem precisar que algum desenhista famoso repetisse a sátira picante de Bush, a não ser pela mudança brusca e inesperada do personagem (ou melhor, dos personagens). Bin estaria “ferrando” a nós,  ou seja, metendo no nosso rabo uma trolha sem dó nem piedade. Em contrapartida,  apoiado por FHC,  não  dinamitaria  a Casa da Dinda, nem a Rede Globo do Roberto Marinho, muito menos  mandaria  pelos ares o Cristo Redentor.
Usaria sandálias havaianas em suas peregrinações, enviaria uma carta ao Papa João Paulo II pedindo a canonização de Elvis Presley, e, de roldão, de Anchieta e Padim Ciço. Faria de Silvio Santos o seu braço esquerdo e de Nicolau dos Santos Neto (o Lalau), o direito. Proibiria novelas, filmes pornôs, futebol, camelôs espalhados pelas calçadas e arquivaria as  CPI’s (que aliás, nunca deram em nada). Os Ministérios (principalmente os do Exército, Previdência Social, Saúde  e Reforma Agrária) seriam comandados por homens-bombas. Criaria uma Medida Provisória para banir com as pipas perto dos aeroportos e seria adotada a lei do olho por olho, ou melhor, do prédio por prédio. As mulheres de zero a setenta usariam burcas e os varões pakul (chapéu afegão).
Dom Jaime Chamello, atual presidente da CNBB substituiria a Marta Suplicy (prefeita de São Paulo) e, ao oposto dela, retiraria do mercado todo o estoque de camisinhas. Preservativos só para padres e seminaristas a fim de se  erradicar o pedofilismo com os meninos e adolescentes por detrás das sacristias ou por debaixo das batinas.
             É bem verdade que a Nação mudaria a cara. Teríamos, enfim, um semblante diferenciado dos outros países,  um rosto alegre de traços felizes, para mostrarmos aos quatro cantos da terra, principalmente a George Bush, como somos desprovidos do senso prático do ridículo e, mais: o quanto adoramos ter um ferro enterrado no meio do caneco e, por paralelo, como faz a nossa felicidade seguir em frente, como uma manada de otários, “pagando mico” no picadeiro desse grande circo descrito e rotulado magistralmente pelo baiano Jorge Amado como “O País do Carnaval”.