A casa dos grandes pensadores
 

 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


R$ 24 mil x R$ 350 reais

Andaram dizendo, por ai, nos telejornais feitos nas coxas, que o reajuste dos salários dos nossos ladrões (perdão) dos nossos deputados só foi derrubado porque a sociedade, em peso, fez pressão, tendo em vista o ultrajante aumento concedido ao mínimo que não passou de apenas R$ 10 reais. Para quem estava em Brasília, sabe que essa noticia nunca espelhou a verdade. A tal “pressão” da sociedade não foi além de uns poucos estudantes com os rostos pintados de babaca tentando invadir o prédio do Congresso Nacional para aparecer diante das câmeras e mandar beijinhos para seus familiares. Fiquem sabendo que invadir aquela espelunca é tarefa difícil, não é como entrar e sair da casa de Mãe Joana...

O fato, em si, nos leva para algumas conclusões óbvias. O povo brasileiro, de um modo geral, não tem um pingo de vergonha. Nem brio, caráter, ou qualquer coisa parecida com retidão. Falta, para ele, o desprendimento vertiginoso dos destemidos, como o de um foguete construído com o vigor da sensatez ou da coragem dos valentes para ir em frente, subir a toda velocidade e conquistar o espaço que é seu. O que todos nós vimos diante do prédio do Congresso Nacional, e isso os jornalistazinhos de merda  não mostraram na íntegra, foi um suntuoso picadeiro armado com meia dúzia de palhaços fazendo gracinhas para um bando de espectadores e bonecos de engonço que batiam palmas e davam vivas e gritavam olas porque não tinham uma opção melhor onde enfiar seus focinhos.

Enquanto os bufões da corte divertiam os chocarreiros, perto dali, ou mais precisamente no STF (para quem não sabe STF significa SUPERIOR TRIBUNAL DE FALCATRUAS) decidia, por unanimidade, botar um ponto final no reajuste estapafúrdio e bombástico de 90,7% concedido pelas “cu que pulam” – melhor dizendo,  - cúpulas da Câmara Federal e do próprio Senado Federal, tendo em vista um mandado de segurança assinado por deputadozinhos contrários, entre aspas, a esses novos vencimentos. Na verdade, eles não estavam contra coisa nenhuma, apenas quiseram dar uma satisfação aos borra-botas que os elegeram. É uma forma de manter a política da boa vizinhança e garantir, sem muito esforço, a reeleição nos pleitos vindouros.

Pois bem. Os janistroques que votaram a favor dos R$ 24 mil trataram logo de se agruparem para debater sobre uma possível “fuga em massa das galinhas dos ovos de ouro de seus galinheiros”, ou de suas carteiras e, no final, encontrarem uma maneira segura e rápida para manterem o aumento pretendido. Esses xinxilhas sabem melhor que ninguém que se faz necessário achar uma brecha o mais urgente possível dentro dos regimentos internos bem ainda da Constituição para, em nome de uma  legalidade ilegal, jogar por terra o famigerado mandado de segurança e, de roldão, a liminar oriunda de sua malfadada impetração. É bem verdade que eles têm um poder de fogo e de coesão muito grande sobre a sociedade. Não somente sobre ela, mas a tudo que gira em torno do que é ético e moral aos bons costumes. Verdade seja dita: os congressistas são fortes, tinhosos e sabidos, sobretudo, sabidos e espertos.  Demonstram  essa  energia a bel prazer. Evocam seu grito de guerra quando o interesse visa diretamente os bolsos.  Nessa hora, a tal bancada se junta como bois no pasto – colocando de forma esdrúxula - como urubus sobre a carniça. Ao contrário, se a matéria  a ser votada diz respeito à parte fraca, aos tolos e boçais, a arraia miúda, por exemplo, não há Cristo que consiga “quorum” suficiente para pôr em votação qualquer medida ou  beneficio visando melhorar a vida sofrida dos badamecos que pagam os seus tributos em dia, e, em troca, se vêm massacrados por esses safados e sacripantas. Portanto, o STF vai dar um tempo e quando a poeira abaixar, arquiva o caso, ninguém toca mais no assunto e fim de papo.

Por que o STF não agiu de igual forma com a novelinha caseira do salário mínimo? Aliás, é bom lembrar, ninguém teve a iniciativa de impetrar ação idêntica junto ao STF para se chegar a um consenso sobre o salário mínimo. Bem lembrado: não é competência do STF.  De quem é então?  Um fato, contudo, é notório e merece destaque: todo ano a mesma historia  do salário mínimo se repete. Para se chegar a um consenso de R$ 8 ou R$ 10 reais, se faz necessário uma pá de reuniões, brigas acirradas, discussões sem pé nem cabeça, sem mencionar o fato de que correrá muita grana por debaixo dos panos – ou a desgraçada da bancada e seus Vem-vens desbundam, se dispersam de tal forma que nem o diabo consegue colocar os olhos em seus costados e os reunir, na Casa,  para os trabalhos legislativos.  

Falar, pois,  em “pressão” da sociedade em torno do aumento dos salários dos deputados ou da mexida no Mínimo é cometer um crime contra a  seriedade de alguns poucos que ainda se sentem acanhados e humilhados  por ter tido a má sorte de nascer aqui. Não temos uma sociedade de ânimos inflamados, mas uma galera literalmente fissurada, cheia de fendas, rachaduras e vontades reprimidas dentro de um saco de imperfeições que ninguém conserta. O que vemos, a cada dia, é o crescimento de um povo depauperado e amargurado vegetando sob os pés dos coronéis e déspotas que fizeram de Brasília a Capital dos Fora da Lei. Lembram do caso do senador Valmir Amaral? Duvido!!!

Somos, na verdade, uma leva de descamisados sem moral. Uma tropa de boçais  sem caráter e sem a obstinação dos audaciosos. Não fomos feitos do mesmo barro usado na moldura dos soldados sérios e responsáveis. Tampouco carregamos no sangue o DNA da visão política futurista, do bom senso ou da honradez.  Não temos, ao alcance das mãos, o grau mais baixo exigido pelo instinto patriótico, capaz de fazer aflorar, na hora certa, a chama pungente da Vitória e nos empurrar, com garra e valentia, para a frente, em  luta armada por um amanhã mais digno, ou quando muito, em defesa dos direitos e dos altos interesses desta Nação em que vivemos. Engraçado que alguns teimam em apregoar, por ai, que deveríamos zelar pela ordem e pela segurança do nosso querido Brasil. Como? De que forma? Formamos uma linha invisível de isolados, sem visão de nada, olhando para um ponto ao acaso, como o neófito, à procura de luz.  Somos recrutas de um exercito de bastardos, uma legião imensa de subjugados reverenciando sem discussão as ordens dos poderosos. Fazemos o que os generais querem e fim de papo. Amarraram em nossos olhos, como ao rosto da vagabunda da Justiça, uma venda de pano preta.  Igual a ela, carregamos, nas mãos, uma balança simbólica para fingir que pesamos os impostos e tributos que atiram contra nós sem dó nem piedade. Não dispomos de programas conscientes, não temos um rumo, um porto, um abrigo. Não nos concederam, igualmente, o salvo conduto para se chegar a publico e gritar pelas nossas necessidades mais prementes. É vexatório saber que ainda tem gente que fala em País democrático e em democracia. A democracia, como o País democrático, não passam de coisas disformes, obsoletas, mal paridas, capengas, cheias de defeitos e extremamente carentes de cuidados especiais. Ambas as formas com todas as suas variações, vivem nos corações de cada brasileiro, mas lá estão como algo irrealizável e sem nexo. Mimos que morrem a cada vez em que o cidadão liga o seu aparelho de teve ou sai às ruas. Democracia e País democrático são ainda, palavras bonitas e formosas, soam perfeitas aos ouvidos, por isso se tornaram raras como certas aves em extinção. Sabemos que existem nos livros, nas cartilhas de bê-á-bás que distribuem nas escolas. Moram nas páginas empoeiradas dos textos que nos foram legados pelos escritores antigos, em cujas visões de um porvir menos degradante tiveram as sensibilidades de construírem seu mundinho real e de viverem um sonho de vida dentro de uma existência que nunca chegaram a conhecer. Quem não se recorda do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley?  Diante do quadro que temos, concluímos que a democracia, neste Brasil de desvalidos, se traduz por demagogia, anarquia, desordem, assim como país democrático nada mais é que a tirania ou a ditadura dos tempos de outrora, de rostinho tratado a relaxamento e hidratação num dos salões de beleza da ex-favelada Heloisa Helena de Assis para engambelar os milhares e milhões de Zé-manés existentes por ai.

A “pressão” veiculada pela falsa imprensa e pelos  corrompidos com a mentira, só existiu da parte de lá, vinda da força  dos  feudais. O quarto poder não divulgou isso. O medo impera. As emissoras de televisão, os jornais, os homens que estão encarregados de formar opinião, vivem de rabo preso. Mãos atadas. A imprensa, como um todo, tem medo de espelhar a verdade. O ponto fulcral, portanto, ai está: sabemos perfeitamente que as escórias políticas, detêm o poder e, em nome dele,  influenciam, constrangem, coagem, botam banca, mandam e desmandam neste país falido, à banca rota, a mercê de fazer a raia miúda dançar ao som de uma pandorga, enquanto eles, criam asas enormes, se agigantam e se tornam invencíveis a ponto de se tornarem intocáveis como Deus. Diante disso, é como destituir Hercules depois dos doze trabalhos, ou mandar às favas Teseu depois de ele ter derrotado o Minotauro.

(*) Revista Semanal Textos Inteligentes nº. 500 – página 16 e 17 – Janeiro de 2007.            

Aparecido Raimundo de Souza é escritor

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 10/07/2007