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Zorra total
(*) Texto de
Aparecido Raimundo de Souza.
Meu caro leitor
amigo, você já teve o desprazer de assistir ao Zorra Total da Rede Globo
nas noites de sábados, depois da novela das oito? Pelo amor de Deus, não
caia nessa besteira. É como estar com forte caganeira, a bosta à porta do
rabo, pronta para explodir as pregas e o cidadão se sentir impossibilitado
de sentar o cu no primeiro vaso que encontrar pela frente e se aliviar.
Sugiro que pare. Pare e pense. Conte até dez, ou cem. Prove a si mesmo que
ainda resta um pouco de senso do ridículo na cabeça. Mostre aos seus
vizinhos, amigos e filhos, enfim, tente estabelecer uma linha de conduta
compatível com seu caráter, a ponto de atestar ao mundo, que a sua
idiotice, embora exista, não é contagiosa, pelo menos a ponto de
ultrapassar as raias da insensatez. Compreenda que é mil vezes preferível
pegar pela frente, um pornô de segunda, sem script, sem história, sem
categoria, sem eira nem beira (sugiro o clássico Garganta profunda), onde
se aproveita somente o encanto e a beleza da atriz principal, Linda Loney,
que se plantar na frente da televisão e assistir ao desenrolar dos quadros
que são levados ao ar. Qualquer coisa é mais saudável e digerível. Outra
atração, por pior que seja, acredite, deixa de ser porcaria das grossas,
caca elevada ao quadrado, o que redunda num grande penico cheio de
excremento fedorento.
Não sei como ainda
tem gente que consegue digerir mastigar e engolir, sem se engasgar, com o
intragável Zeca Pimenteira, ou com a indigesta Lady Keith, Glauber e
Salsichão. O “Eu tô pagannnnndo” é asqueroso. Pior, a Edu Julinha - aquele
menino ou sei lá que diabo, travestido, enigmatizado - que aparece e corta
o barato do patrão, sintetizando que “ele é seu e ninguém tasca”. Leve em
conta, além da má atuação dos atores, a redação esdrúxula (embora escrita
por um número considerável de autores), de péssima qualidade, sem
mencionar, mas já o fazendo, a direção ridícula e o posicionamento, em
palco, divorciados de uma boa orientação por parte da galera que dirige o
elenco. O programa, como um todo, deixa a desejar. Os atores e figurantes
que se prestam a contracenar deveriam se dar mais valor. Se amar mais,
tipo ter amor próprio, pela imagem que está sendo veiculada. Seria mais
louvável que parassem de pagar mico, não só pelo fato de contracenarem com
boçais e cagarolas, como perder tempo e fosfato com falas repletas de
mediocridades e contra-senso, sem pé nem cabeça. De um quadro para outro,
por exemplo, ocorre um verdadeiro pandemônio de idéias mal engendradas,
onde os redatores, ao menos, nem se dão ao trabalho de criar coisas novas,
situações inusitadas, que faça o publico alcançar seu verdadeiro objetivo.
Em linhas gerais, o Zorra Total é uma espécie de sedimentação do óbvio
gritante. A concretização do inexplicável, em parceria com a insanidade de
um bando de loucos fugidos de um hospício de periferia. É como se cada
redator puxasse a cordinha de um vazo cheio de merda e atirasse, para os
encanamentos, uma enxurrada de cagalhões cuja finalidade não é outra senão
a de entupir os escutadores de novelas dessa ralé sem opção e sem
alternativa. Exatamente por não se ter outra saída mais digna, um bando de
estagnados se presta a se dar o diploma de inculto.
Quem deu vida a
Dra. Lorca, e a ativista Heloisa Marina e seu grupo de ecologistas,
deveria ir com elas para os quintos do inferno. Não quero acreditar que um
redator de humorismo tenha tanta falta de imaginação a ponto de criar, ou
melhor, cagar personagens tão vazios de si mesmo. Já não quero falar do
ilustre Paulo Silvino, no desagradável papel do repetitivo Veloso. Uma
cópia vagabunda de um outro personagem seu, o “Severino Quebra Galho” e o
eterno diretor que desmunheca. No geral, o que torna cansativo os
quadros, não são os atores em si, alguns até escapam, mas o vulgar, o
eterno bater na mesma tecla, o enfadonho arroz com feijão de sempre, isso
torra. No caso do Severino e do diretor bichona, seria mais viável se o
tal personagem mudasse as suas falas e a sua aparição em cena. Em outras
palavras, que o diretor do “Corrrrrrrrta” desse o rabo para o intruso do
cidadão que aparece para acabar com os sonhos do velho porteiro. Não há,
lado outro, na movimentação das falas, nenhuma nesga de inovismo. Nada de
útil que prenda o telespectador no sofá, ou na poltrona, a ponto de fazer
o infeliz segurar o mijo, ou a vontade de se levantar, pegar a luneta e ir
para a varanda espiar a vizinha pelada, ainda que o velho Silvino, com sua
cara gozada, seus trejeitos incomparáveis procure se desdobrar, se virar
em três ou quatro, ou apimentar as cenas, colocando uma pitada de
sarcasmo barato, mormente às custas de um empenho hercúleo, extraído,
evidentemente, dos seus muitos anos de televisão. Apesar disso, nada salva
a cena. Nada salva o inverossímil.
É certo que ele se
desdobra e a gente percebe essa luta interna para parecer um pouco cômico
engraçado e mastigável. Entretanto, em nenhum momento, tanto como
Severino, ou como Veloso, o velho palhaço consegue passar para quem está
em casa, no conforto do lar, aquela graça leve, solta, dos tempos de
outrora, onde, de fato, ele, livre no palco, se completava no artista
engraçado, inteiro, que não ficava preso a esquemas toscos, ou ao suado
“cara crachá, cara crachá”. Realmente, tempos idos, o nosso Paulo
arrancava do respeitável público um riso franco e politicamente saído do
fundo da alma. Hoje, a bem da verdade, os risos e palmas que se ouvem são
produzidos eletronicamente.
Não sei como a
Globo consegue ter tanta audiência exibindo um programa vazio, destituído
de algo puro. O que se vê, ou melhor, o que se assiste, pode se taxar de
literalmente prostituto. É o caso de Patric (o do olha a faca, olha a
faca!) e a noiva Abadia. Nem o seu “Jesus toma conta” convence. Dadânio e
Elisabeth, um cocô. Juvenal e o amigo Lima, o chato, idem. Talvez seja a
falta de opções da enorme massa falida. Ou, por outra, a falta de cultura
da ralé. Sabemos que a burrice impera, o bronco reina à solta. Em
paralelo, a asnice cresce a cada dia, se multiplica a ponto de tolher a
visão de uma boa parte da sociedade, deixando-a mais quadrada e
descentralizada da realidade. Em outras palavras, fora de tom, de foco.
Estar fora de foco é o mesmo que viver à guisa de uma deturpação
irremediável. Ou, talvez, seja uma espécie de doença rara, cujo vírus é
conhecido, nos meios clínicos, como a síndrome do duplo orelhudo. Síndrome
do duplo orelhudo é a mesma coisa que um indivíduo curto de inteligência.
Essa criatura é tão boçal que o mal ataca tão fortemente que ele se vê
reprimido, comprimido, empobrecido, vencido, sem forças. Esse ser se
traduz naquele vivente obsoleto, que se senta diante da televisão, como um
robô, sem alternativas, sem perspectivas e se dá, ou melhor, se entrega ao
trabalho de absorver qualquer merda que as emissoras resolvem colocar no
ar. De certa forma, isso mostra um pouco (tudo) do vazio de cada cidadão.
A sua falta de formação cultural, a sua burrice interna, a sua cegueira de
conhecimento. Manifesta, também, o lado disforme de cada telespectador, a
parte horrenda, o escuro descomunal que inunda sua alma. Sobretudo, dá a
conhecer, aos demais, que não perdem tempo vendo a Zorra, um
direcionamento anômalo, ao tempo que faz emergir, de dentro de seu âmago,
aquele discernimento mal parido, longe, pois, de ser bom e politicamente
salutar.
Qualquer do povo,
que senta o traseiro na frente da telinha e faz dela uma irmã siamês, para
ver, ou melhor, para perder um precioso tempo com as barraqueiras Dacilete&Valentina
e o jargão do tempo do ronca, “pavio looooonnnnngo”, Dona Rosinha e seu
Joaquim, entre outras figuras, ao invés de divertirem, provocam uma
espécie de azia incômoda. O mais sensato, meus prezados, seria desligar a
televisão e bater uma punheta para as lindas e encantadoras figurantes que
preenchem os vazios e tornam o festival de besteirol menos caótico. Em
paralelo, uma pena, uma lástima, o talento magnânimo de Maurício Shermam,
talentosíssimo diretor, dar uma de avestruz. Enfiar a cabeça nessa enorme
latrina de porcarias malcheirosas, cruzar os braços e pasmem, assinar a
supervisão geral de um programa que, por si só, já está morto e enterrado.
Uma pena, igualmente, a equipe de redatores, tolhidos pela tacanhez de uma
meia dúzia de ernegúmenos. Pena maior ainda, essa geração de escritores
anônimos continuarem acorrentados, impossibilitados de dar asas à
imaginação. Por assim, ao invés de criarem temas novos, personagens novos,
enredos novos, falas novas, se curvam, vencidos à sanha de um bando de
bonecos, bufões e hipócritas que deveriam, antes de qualquer coisa, estar
numa igreja orando para pedir paz e tranqüilidade às suas almas. Por
derradeiro, todo o elenco da Zorra Total deveria rodar a baiana e dar uma
de Dercy...
SOBRE O TEXTO:
ZORRA TOTAL - Publicado na Revista “TEXTOS INTELIGENTES” sábado 26 de
Julho de 2008 e site
www.paralerepensar.com.br
SOBRE O AUTOR:
Aparecido Raimundo de Souza, escritor e jornalista. Escreveu “As mentiras
que as mulheres gostam de ouvir”, “Quem se abilita?” e “Com os chifres à
flor da cabeça”, pela TABA CULTURAL Rio de Janeiro.
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
29/07/08
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