A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

ATAÍDE LEMOS

 

 

 

 

Drogas e as dificuldades para o tratamento

 

     Quero desenvolver um assunto que segundo meu pensamento é extremamente importante por durante muito tempo ter observado a dificuldade que as pessoas encontram sejam elas familiares ou mesmo dependentes químicos a buscarem ajuda.

Esta dificuldade existe por varias razões:

 

      O preconceito, os estigmas e os mitos que rodeiam os dependentes e as famílias que tem problemas com drogas.

 

     A falta de conhecimento sobre a doença da dependência.

 

      A Coodependencia.

 

      Questões financeiras.

 

     Poderíamos colocar vários outros fatores, mas acredito que muitos estariam correlacionados a estes.

 

                              O preconceito, os estigmas e os mitos que rodeiam dependentes e as famílias que tem problemas com drogas.

 

          É comum pessoas que estão envolvidos com drogas serem taxados de vários adjetivos negativos, serem olhados com indiferença. Muitos pais serem questionados na educação de seus filhos, serem responsabilizados pelos atos negativos deles. Serem excluídos de seus meios sociais.

 

     É comum a sociedade buscar o afastamento de envolvidos com drogas, principalmente, quando falamos em ternos de companhia, como se a dependência fosse uma doença contagiosa e a simples amizade já significasse o imediato contagio. Este afastamento não atinge tão somente o usuário, mas toda a sua família.

 

     É comum dependência química ser sinônimo de bandido, delinqüente, vagabundo, desajustados e mais sinônimos e outros adjetivos neste gênero. É comum tal de jargão "litro que vai querosene nunca mais sai o cheiro".

 

     Diz à psicologia que quando estigmatizamos ou somos em demasia rotulados o inconsciente acaba assumindo para si tais estigmas. Pôr varias vezes conversando com pessoas dependentes elas me perguntavam o porque perder tempo com eles. Diziam que eles não valiam nada e assim muitas vezes duvidavam até mesmo de nossa ajuda.

 

     Quantas famílias acabam por ficarem totalmente doentes emocionalmente por se culpar pela doença do filho, atingindo estágios elevados de coodependencia devido a estes fatores externos que são os estigmas e o preconceito.

 

     Com todos estes preconceitos, rótulos, estigmas quem se habilitaria a assumir a dependência? Como que a família estaria disposta a assumir tal doença e assim, buscar ajuda?

 

     Aqui cabe uma reflexão, não é somente o ente dependente que provoca uma coodependencia na família, mas de uma maneira a própria sociedade também tem sua co-responsabilidade, pois diante de tanta pressão interna (âmbito familiar pelo ente) e de toda execração social devido aos preconceitos, rótulos qual pessoa que consegue resistir a tudo isto e não acabar por adoecer também?

 

     A dependência tem suas características especificas que já impedem a pessoa de procurar ajuda e com estes fatores externos complica mais ainda esta tomada de atitude.

 

     Poderíamos colocar muito assunto daria para escrever um livro, mas quero ater nesta síntese.

 

                              A falta de conhecimento sobre a doença da dependência.

 

     Como disse acima o preconceito, o estigma, os mitos colaboram e em muito para que a pessoa não busque conhecimento e informações sobre a dependência. Uma coisa leva a outra. A falta do conhecimento certamente é o caos para um aprofundamento da dependência química seja ela na pessoa que a adquiriu, seja na família.

 

     Devido a vários fatores acima citados e também a outros de responsabilidade da família seja ela por ignorância, seja por comodidade, seja pela estrutura social cultural familiar, seja pela família estar de certa forma envolvida pelos seus conceitos de valores que levam a comportamentos que propiciam as drogas, seja pela ignorância no sentido de não se interessar pelo assunto por acreditar que isto jamais atingirá seu lar. Enfim, varias outros fatores também colaboram á não buscarem informações.

 

     É comum observarmos que quando se realiza palestras, encontros é uma minoria que vão atrás de informação, que realmente demonstra interesse sobre o assunto. É notório observar que os que lá se encontram são especialistas na área da Saúde, profissionais da área de Educação, são entidades que atuam na área de drogadição, familiares que estão envolvidos com drogas no lar. Enfim, são pessoas que geralmente estão ligadas ao tema e que muitas vezes estão pela obrigação ou ordem de superiores ou mesmo pela necessidade imediata, mas maioria do publico interessado e que na realidade deveriam participar pouco se fazem presente. Não se deve buscar o conhecimento sobre este assunto quando vive o problema tão somente, mas sim, como meio preventivo.

 

     É fundamental que ocorra um trabalho de conscientização onde possa reverter este quadro de inércia, de comodismo levando as famílias a saírem do conforto de suas casas buscando informações e assim, tenham um maior conhecimento sobre a dependência química podendo estar preparada e com as ferramentas certas caso venha a ter problemas de drogas no lar.

 

     A informação sobre este tema dever ser constante e de formação permanente. Todos são responsáveis nesta formação desde as empresas, as entidades religiosas, as instituições governamentais ou privadas. É mais fácil uma empresa, instituições governamentais, repartições públicas, entidades religiosas conseguirem levar as famílias a participarem de encontros e assim adquirem conhecimento do que voluntários simplesmente promoverem tais encontros. É preciso investimentos de recursos financeiros, disposição e prioridade para levar a prevenção às crianças, jovens, mas, sobretudo as famílias.

 

     É mais fácil uma família retardar o consumo de álcool ao adolescente do que esperar que ele numa festa, junto com amigos evite beber. Muitos valores, conceitos de vida são construídos no dia a dia junto com a família. O conhecimento sobre a dependência química não se restringe aos conhecimentos técnicos, científicos, mas, sobretudo na formação espiritual, ética, moral e social.

 

                              A Coodependencia.

 

     Qual família que tenha um ente dependente e que não acaba tornando co-dependente? Acho que podemos contar. Na realidade de uma forma ou de outra a família acaba sendo arrastada juntamente com o ente pelas profundezas das drogas e assim, adoecem junto com eles.

 

     Aqui é importante ressaltar que mesmo com toda uma estrutura de conhecimento, ainda assim a família não está livre, porque a realidade é que a dependência abala as estruturas de qualquer pessoa afinal quando lidamos com sentimentos, emoções dificilmente a razão consegue ter o controle.

 

     Este tema também é outro que se pode escrever vários livros que não esgotaria e cada vez mais se teria materiais novos. Porque na realidade a co-dependencia segundo meu ponto de vista está inserido dentro da estrutura psicológica da sociedade, do membro familiar, inclusive do próprio ente dependente da família. A coodependencia está relacionada as questões culturais, sociais, comportamentais. Uma grande força aliada para esta superação está na espiritualidade e no conhecimento sobre a dependência.

 

     A coodependencia é construída tanto pelo ente que é dependente – uma característica da dependência química é levar o usuário e torna-se o outro coodependente – mas também ela é construída pelos membros familiares devido a temas acima abordados entre outros.

 

     Segundo meu ver, o estado de um coodependente é ainda pior do que a pessoa propriamente dependente, pois na realidade se encontra doente e não tem noção disto. Muitos deles têm comportamentos mais acentuados que o ente que faz uso de drogas; alias muitos coodependentes também são dependentes, são comuns familiares fazerem usos de varias drogas psicoativas como calmantes, antidepressivos, como também é comum vermos familiares com comportamentos adictos sem o uso de drogas.

 

     Mas ainda assim, acredito que a partir de um trabalho de desestigmatização da dependência química, somando a informação, o conhecimento sobre a dependência é possível minimizar sensivelmente o grau de co-dependencia da família.

 

Enfim, a coodependencia é um tema tão extenso que vou ater aqui.

 

                              Questões financeiras.

 

     Esta dificuldade realmente é preocupante porque na verdade anula as grandes barreiras ou etapas vencidas pela família ou barreiras superadas pelo dependente químico. Porque nada adianta assumir a doença, procurar ajuda se não existem programas onde as pessoas tenham acesso. Hoje sabemos que varias entidades de tratamento estão fechando suas portas pela falta de recursos financeiros, e esta falta de recursos afeta diretamente na contratação de profissionais capacitados. É uma grande ilusão, uma utopia imaginar que profissionais vão trabalhar a troco de nada, simplesmente por solidariedade. O trabalho voluntário não tem como exigir compromisso, pode até se criar regras, mas não funciona, quem faz por amor não pode ser exigido a não ser pela sua própria consciência.

 

     Entidades tem cotas para atendimento a carentes mesmo sendo filantrópica e certamente a admissão de um candidato à tratamento está sujeito a vontade informal dos diretores de tais entidades. Já vivi isto na pele quando precise internar uma pessoa. Os obstáculos surgem naturalmente. Uma entidade não vai deixar de internar dependentes de sua cidade gratuitamente para atender de outras localidades a não ser que este candidato venha recomendado.

 

     Hoje o que se pede para internação é um absurdo em relação ao poder aquisitivo da renda do brasileiro.

 

     Outro fator complicador também pela falta de recurso está relacionado ao preconceito que existe em torno do usuário. Quem vai ajudar uma entidade deste gênero para dividir com entidades que cuidam de crianças, sejam elas órfãs, sejam carentes, para colaborar com entidades que cuidam de "vagabundos"? Quem deixa de colaborar com entidades como abrigos para idosos, para ajudar entidades que trabalham com drogados? Não que tais entidades não mereçam atenção, mas na verdade todas as direções, projetos, recursos estão voltadas para elas, e não com aquelas entidades que trabalha com dependentes químicos. Existe uma meia dúzia de entidades para tratamento de dependentes químicos que são apadrinhadas, as restantes vivem das sobras que caem das mesas dos ricos. Algumas entidades ainda sobrevivem porque algumas famílias ou um ou outro empresário a mantém por talvez no passado terem vivido o drama da droga na família. Outras vivem esmolando com seus internos vendendo produtos de nas ruas. Alguns sacerdotes abnegados, evangélicos juntamente com pessoas que venceram as drogas se associam para criarem entidades.

 

     Tudo isto, leva as pessoas não procurarem e não conseguirem ajuda. Parece pouco, e é pouco o que as comunidades terapêuticas mais pobres cobram das famílias, normalmente um salário mínimo. Porém, para a família é muito, principalmente aquelas que ganham este mínimo por mês, ou dois ou três mínimos. Pois, na verdade, o custo da família não restringe tão somente neste valor, mas despesas de viagens, despesas pessoais do ente em tratamento.

 

     Existem entidades que cobram consulta de familiares quando estes vão visitar seus entes, pois na visita passam por consultas com psicólogos. Estes custos são adicionais.

 

     Quero ficar por aqui, porque a tanto para se falar e questionar que certamente teria muito ainda para escrever.   

Ataíde Lemos
Autor dos livros
Drogas Um Vale Escuro e Grande Desafio para Família
O Amor Vence as Drogas
Livro de poesia Palavras Expressão dos Sentimentos

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 23/01/2008