- 21 de
abril de 1960
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- No sábado anterior
ao 21 de abril de 1960, os cariocas despediram do Juscelino
Kubitschek, o JK, que mudaria a Capital do Brasil, do Rio
para Brasília, deixando para trás, não mais o Distrito
Federal, mas o Estado da Guanabara. Nessa época eu morava
no bairro do Catete, tão perto do Palácio, que de meu quarto
ouvia o barulho do povo cantando e gritando em homenagem ao
JK, que, com a Família, permanecia nas sacadas do Palácio, e
de vez em quando descia para o meio do povo – aí a gritaria
aumentava muito mais. Esta festa durou umas vinte de quatro
horas.
- Eu, rapaz bem novo,
lia o livro de Gustave Le Bon, Psicologia das Multidões, e
fiquei impressionado como o JK “manobrava” a multidão –
tirava um monte de benefícios da cidade, transferia grande
parte dos funcionários para os confins do mundo, sem
recursos e benesses, e a multidão, com várias Escolas de
Samba, louvando-o e demonstrando o quanto era ele querido.
Que diferença dos políticos atuais – tão odiados por todo o
povo...
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- 033
- Os Santinhos - Labutas de uma mãe
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- Papai gostava de
chamar a Imaculada, minha irmã, de Lalá, pois era magérrima
quando pequena. Magreza lembrava Lamartine Babo, apelidado
de Lalá, compositor famoso de tantos carnavais e dos hinos
de clubes de futebol - do Flamengo, Vasco, Fluminense,
América etc..
- No Rio havia um
amigo e colega no curso de química, vizinho do Lamartine
Babo, na Vila Isabel, casas uma ao lado da outra. A esposa
do amigo iria dar a luz ao segundo filho. Estávamos em seu
laboratório, meu colega no curso de química, e o exame de
sangue que realizava, quando recebeu a notícia de que a
esposa estava para dar a luz, não poderia ser adiado. Diante
disso, impossível seria, naquela hora, levá-la à
maternidade. Pediu-me para eu pegá-la, de táxi. O Lalà, todo
satisfeito e então meio gordo, prontificou-se a ajudar, ela
com dores e contrações. Felizmente o marido chegou a tempo.
Acompanhei-os à Maternidade. Poucos meses depois o Lalá faleceu.
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- A tela
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- Visitei Imaculada e
o esposo Cláudio em Salvador. Os filhos, os meninos
Claudinho, Fátima e a Jaqueline, ainda bem pequenos, mas...
impossíveis!
- Tampando a parte
aberta da área de serviço - dava para o fosso - no
apartamento do prédio onde moravam, havia uma tela bem
forte, aliás, muito apropriada para cercar os santinhos. Na
entrada do apartamento, via-se a área protegida pela tela.
Segurança total... Total?...
- Um dia, quando
regressávamos de um passeio, Imaculada, papai e eu,
deparamo-nos com Claudinho e Fátima, em cima do parapeito da
área de serviço, balançando-se agarrados na tela. A tela
tinha até se esticado e os dois iam a quase meio metro para
dentro do fosso!
- Imaculada gelou!
Afinal, estavam no sétimo andar do prédio.
- Ela, muda, com sua
santa sabedoria e paciência, foi pé ante pé, para não
assustá-los, entrou e, calmamente chamou os dois. Desceram,
como se nada houvesse acontecido. Ela nunca chamava a
atenção dos filhos.
- Imaculada e eu
caímos numa poltrona e respiramos fundo.
- Ela voltou à cor
natural.
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- Chovia dinheiro!
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- - No mesmo prédio,
no Farol da Barra, o Cláudio volta contente, pois recebeu o
pagamento, e certamente, pensando no que compraria para a
Imaculada e os santinhos. Recebendo, gostava de passar nas
lojas e comprar de tudo para eles: vestidos, calças,
calcinhas, sapatos, de um tudo, como falava. Depois de anos
de casados, ainda namoravam.
- Naquele tempo, pela
CLT, pagava-se o salário em moeda corrente no país. Nem
cheque ou depósito bancário eram permitidos - só dinheiro
vivo! Dinheiro real!
- O Cláudio trocou a
roupa e se esqueceu do bolo de dinheiro, o salário
recebido, em cima da cama, e foi à rua comprar algo.
- Quando voltou,
admirou-se do movimento nas proximidades de seu prédio e o
povo falando e gritando. Chovia dinheiro! Chegou a pegar uma
nota... Verdade!
- Olhou bem e viu
meninos, na janela de um apartamento, jogando, ao
vento, notas de Cr$ 5.000,00, as de maior valor na época!
- Reparou bem, nem
acreditou: os seus meninos! Os seus santinhos! O seu
salário!
- Cláudio, num piscar
d'olhos, subiu as escadas dos sete andares, conseguindo
ainda salvar um pouco de seu santo dinheirinho!
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- A beldade
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- - A Hedda, minha
esposa na época, fez um vestido de veludo para a Fátima.
Inteiriço, mas na parte da frente todo fechado com
colchetes. Para a Imaculada, com três santinhos, um vestido
bem prático. Para tirá-lo, bastava puxar os colchetes,
abriria por completo.
- Imaculada passeava
com os três e atravessaria uma rua bem perto da praça do
Teatro Castro Alves, um dos lugares de maior trânsito em
Salvador.
- A Jaqueline no
colo. O Claudinho agarrado à saia. Imaculada segurando a
Fátima pela parte traseira da gola do tal vestido.
- Passaria com os
três, mas o sinal fechou. Parou... mas a Fátima não. Pelo
pequeno arranque, os colchetes do vestido se abriram e a
Fátima, desvencilhando-se do vestido, seguiu seu caminho...
apenas com a calcinha.
- Diante do desfile
da beldade, os carros pararam...
- O coração da
Imaculada quase também!
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 21/04/2010
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