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A canjiquinha
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Adoro canjiquinha.
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O Dicionário do Aurélio omite a palavra
canjiquinha como nós mineiros a conhecemos - fala apenas em
canjica doce, feita de milho verde, igual à usada nas festas
juninas, ou de canjica, um aglomerado de colônias de
bactérias.
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Em Minas, comemos a canjiquinha de milho moído no
"muinho", com grãos de um a dois milímetros - quase um
fubá grosso, sem o fino e o farelo. No sul do país chamam-na
de quirera - comida no inverno, para aquecer. No nordeste é
pouco conhecida - deve ser por causa do calor.
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Canjiquinha, em Minas, era comida de escravos,
assim como a feijoada - embora hoje teimam em desmentir - pois
o pessoal da Casa Grande alimentava-se raramente das costelas
e dos miúdos de porco. Feijoada - ótimo alimento com muita
proteína, energético para serviço pesado. O tutu, o angu ou
polenta, o torresmo e a couve picada... e mais um pedaço de
laranja, seu ácido e bagaço para ajudar na digestão...
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A primeira vez em que me lembro de ter comido
canjiquinha foi quando, eu muito pequeno, esteve lá em casa a
minha avó, Vovó Olinda mãe de papai, e apareceram para
visitá-la duas senhoras pretas. Uma delas bem velhinha, a
outra era filha, e que tinha sido escrava de uma parenta da
Vovó. Vovó até me falou da importância de eu estar conhecendo
uma antiga escrava. A filha, embora tenha nascido antes da Lei
Áurea, não se considerava antiga escrava porque nasceu quando
a Lei do Ventre Livre vigorava. Papai dizia que essa parenta
gostava que seus escravos andassem bem limpos e com roupas
únicas, isto é, com pano do mesmo padrão, diferentes dos
escravos das outras famílias. Encomendava aos comerciantes
peças e mais peças de pano - chita para as mulheres e brim
para os homens - cujo padrão não poderia ser vendido para mais
ninguém da região de Antônio Dias, MG. Além disso, seus
escravos andavam de sandálias, coisa impensável na época, isto
é, escravos calçados - após a Lei Áurea, todos eles
continuaram em sua fazenda, livres e espontaneamente.
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Tia Zelica, irmã da mamãe, preparava a canjiquinha
como se fosse um arroz, solta e seca - uma delícia.
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Nos botecos prepara-se a canjiquinha com muitos
temperos e costelinha de porco - às vezes lingüiça, ou
torresmo quase sempre - servida bem mais rala do que em casa e
com bastante cebolinha verde. Chamam-na de caldo de
canjiquinha. Encontrada nas lanchonetes nas beiradas das
estradas, onde costumam ter caldo de feijão temperado - feijão
gordo - vaca atolada e caldo de mocotó. Quando posso,
regalo-me com essas delícias.
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Na canjiquinha, as imprescindíveis costelinha e
cebolinha verde, acompanhadas de feijão. Mamãe preparava-a um
pouco mais grossa. Endurecia quando esfriava e então se podia
comê-la em pedaços.
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O Sô Caetano, meio mulato, gostava de me chamar de
preto, por eu ser o menos branco lá de casa, principalmente
porque estava sempre ao lado do meu irmão loiro, o José
Maurício - o contraste das cores realçava-as. Provocava-me,
encaminhando a conversa para o lado da alimentação, e quando
eu iria retrucar algo, cortava-me:
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- Preto não tem escolha: ou come canjiquinha ou
morre de fome. - Ou:
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- Deixe de conversa fiada, satisfeito da vida,
coma canjiquinha que é a comida de preto e dê graças a Deus de
ainda ter canjiquinha pra comer.
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Aproveitava e soltava uma ladainha de frases
provocadoras, inclusive dizendo que me levaria à sua casa, mas
só no dia que a Dona Maria preparasse a bendita canjiquinha -
promessas e mais promessas, nunca cumpridas. Afrontava-me
mais:
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- "Três coisas em que não se pode confiar:
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Em burro queimado de nego,
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Em horta em cima dum rego
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E em preto chamado Nego!"
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Com a pouca idade, engolido por seus argumentos,
gostava dele assim mesmo - acho que pela atenção que sempre me
dava - e até ficava com vontade de ir à sua casa comer
canjiquinha.
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Provocação devida pelo fato de meu pai, de quando
em vez, chamar-me de Prego ou de Nego. Ganhei esse apelido
quando, bem pequeno, tive furúnculos por todo o corpo -
inexistiam os antibióticos. No lugar de cada um formou-se uma
mancha escura, parecida com uma cabeça de prego enferrujado
numa tábua. Falam que sofri muito.
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Meu irmão Antônio Élcio chamava me de
Prego, Preto ou Nego.
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Papai tinha um primo, de quem gostava
muito, parece-me de parentes mais bem de vida - gente fina - o
Senhor Deolindo.
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Quando o Senhor Deolindo ia à nossa casa era muito
bem tratado e até com uma certa cerimônia - papai fazia
questão. Sr. Deolindo e senhora, de quando em vez, dormiam em
nossa casa. Acho que as únicas pessoas que dormiram lá, não
sendo tios ou avós, pelo menos que eu me recorde.
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Um dia mamãe, uma senhora cozinheira, preparou
canjiquinha e o Sr Deolindo apareceu. Comeu, gostou e
elogiou. Mamãe detestou, pois considerava-se a canjiquinha
alimento de gente pobre.
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Passados alguns dias, mamãe fez de novo a
canjiquinha, a pedido de papai. E quem apareceu por lá,
exatamente na hora do almoço?... O Sr. Deolindo.
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Visitando-nos um mês depois, o Sr. Deolindo
encontrou prontinha da silva, a senhora canjiquinha.
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Mamãe tomou ódio de canjiquinha. Não atendia nem
aos apelos do papai e muito menos aos meus. Ainda bem que, com
o passar do tempo, voltou atrás. Todos nós irmãos adorávamos!
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Uma pratada de canjiquinha, pelando de quente, com
costelinha e feijão, mais cebolinha e torresminho por
cima... e mamãe ainda colocava pedaços pequenos de
queijo-minas curado... Uma delícia! Dá pra lamber os
beiços!
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 17/03/2009
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