A carona
Morava numa cidade de Minas, bem dinâmica para
a época. Tinha um laboratório de análises clínicas e
estudava na faculdade. Coincidentemente, descobri um
advogado aqui em Lafaiete, meu colega de sala no curso
de Matemática. Lembramo-nos do professor de matemática -
um rapaz de aparência e família humildes, mas certamente
o melhor professor que tivemos. Na época, introduziam-se
os conjuntos no estudo da matemática; para dizer a
verdade, talvez o meu netinho de seis anos saiba e os
compreenda mais do que eu.
Fiz amizade com um comerciante quase vizinho.
Homem maduro, sério e ponderado no que agia e falava.
Bom papo, boa pessoa, esposa simpática e ótima família -
pessoal educado.
Em Fabriciano, na hora de voltar para o serviço
e estudos, com problema em um dos pneus do carro, fui à
retífica, onde trabalhava um irmão, o Darcy. Com algum
defeito nos pneus, apareceu o amigo comerciante. Carro
lotado com seis adultos - a esposa, um filho e três
filhas acompanhavam-no.
Ofereci carona para o filho e, talvez, mais uma
filha. Consultados, desvencilharam-se, retirando-se aos
poucos. Nesse ínterim chegou um carro com um rapaz
conhecido - as três moças aceitaram sua carona.
Pegamos estrada quase em fila indiana. Os
carros, com potência mais ou menos igual, impediam
distanciar muito um do outro. O rapaz e as moças na
frente e eu no meio - o pai, aos poucos, ficando para
trás.
Numa lombada, na estrada Rio-Bahia, perto do
destino acelerei para poder chegar mais ou menos junto
com o rapaz. No alto da lombada, avistei uma reta de uns
quinhentos metros e o carro dele chegando ao fim, onde
havia uma ponte, e a seguir uma curva de noventa graus à
direita. Quando o carro atravessou a ponte e começaria
a entrar na curva, apareceu um caminhão, invadiu sua
pista, e o rapaz entrou debaixo entre os pneus, batendo
e pegando fogo no mesmo momento - deu para ver tudo,
inclusive o estrondo da batida, pois estava de olho
nele. Cheguei perto e vi os ocupantes do carro
desesperados querendo sair e não conseguiam, ao mesmo
tempo sufocados pela fumaça e logo a seguir atordoados
pelo fogo, com as chamas invadindo completamente o
exterior e interior do carro. Em certo momento, tudo
questão de segundos, o tanque de óleo do caminhão foi
afetado, espalhando o óleo por sobre o carro. Houve uma
explosão e não se viu mais nada - como eu já havia saído
de meu carro, apenas deu tempo para eu correr da bola de
fogo e fumaça.
Fisionomias e reações de aflição, o instinto de
sobrevivência... e a inércia que ficamos, eu e o pessoal
que parou para ver ou socorrer, por não podermos fazer
algo... doeu na gente!
Chegaram os pais... Abri os braços em sua
direção e vieram perguntar-me o que houve - perceberam
minha apreensão. O irmão reconheceu o carro. Caíram em
desespero!
Você pode ser doador de sangue ou de órgãos...
Já pensou nisto?