Fabriciano, lugarejo distrito da
cidade de Antônio Dias, MG, tornou-se movimentado, com gente
chegando de todos os lados: fundou-se a Acesita.
Compradas algumas fazendas, entre
elas a do Sr. Raymundo Alves, cuja sede depois virou o primeiro
hotel, e a do Sr. Heitor, em cuja casa, mais tarde, foi morar o
engenheiro chefe o Dr. Alderico. A primeira englobava os hoje
bairros centrais, Usina e Funcionários, a segunda pelos lados da
Olaria. Conta-se que várias fazendas foram invadidas - reclamar
para quem, se hoje as multinacionais fazem o que querem e fica por
isso mesmo! Imagine naquele tempo, quando imperava o ex-ditador
Vargas!
Os chefes e quase todo o pessoal,
no início, ficavam, em Coronel Fabriciano, MG, na pensão do Sô
Armando e da mulher, a Baiana - eta mulher trabalhadeira! Também
hospedavam no Hotel da Dona Raquel e Sô Zé Cornélio, ajudados pela
filha Mirú e o filho Antonio e a esposa Tereza - uma pensão mais
elegante! Quando leio livros sobre os desbravadores, lembro-me do
pessoal recém-chegado, com os chapéus de palhinha - os ingleses
também usavam, trabalhando na Vitória Minas (Vale do Rio Doce).
Um pouco antes de a Acesita vir
para Fabriciano, Fabriciano chamava-se Calado. Um local perto,
mais a leste, tinha o nome de Caladinho, onde hoje tem a Unileste.
Caladão fica no meio das lindas serras que formam um paredão ao
norte da cidade, depois do bairro Melo Viana - Melo Viana é mais
antigo que Fabriciano. As serras do Caladão, vistas de Fabriciano,
parecem intransponíveis: pedras nuas, altas e belas - de um azul
escuro ou prateado, quase pontiagudas – uma paisagem divina.
Fabriciano está a 250 m acima do nível do mar, mas nas serras do
Caladão a altitude chega a 1.260 m.
E por falar em ingleses, vieram
eles para a construção da Vitória Minas, estrada de ferro
que desbravou de Vitória a Itabira, indo atrás do minério de ferro
da região - enfrentando a malária, a febre amarela e todo tipo de
doença tropical. Papai mais de uma vez me relatou que um rapaz do
Caladão, seu afilhado, quando os ingleses se foram, acabou sendo
levado por eles, para trabalhar em um trecho da Transiberiana. O
rapaz, terminado o contrato dos ingleses, por lá ficou como
maquinista, até sua aposentadoria na Sibéria, quando então voltou.
O governo russo enviava para ele, todos os meses, o dinheiro da
pensão.
De quando em quando papai
levava-nos ao centro de Acesita. Atravessávamos o Rio Piracicaba
de bote, depois do Pinga, e subindo, íamos passando por árvores
desnudas e escassas, na planície onde está assentada a usina -
antes era mata fechada com árvores centenárias - até chegarmos ao
centro, lugar da sede da fazenda do Sr. Raymundo Alves, em frente
da qual passa o córrego que vem dos lados do Pico Ana Moura - onde
hoje assentam as antenas de TVs e Telefônicas da região.
Os pioneiros de Acesita trouxeram
um caminhão Chevrolet 1946, o da gradinha na frente, acho que era
verde folha e a gradinha amarela. Também uma "baratinha", ou perua
– seria uma VAN de hoje - muito bonita, quase toda de madeira
envernizada, caberia de oito a dez passageiros - ainda me recordo
do chefão dentro dela, o Dr. Alderico. A oficina e a garagem na
casa do Tio Totonho, ao lado de um lote vago, hoje ocupado pela
casa do Sr. Zé Avelino e o hotel, na Rua Cel. Silvino Pereira - o
Coronel ainda vivia. A baratinha levava o pessoal para os
trabalhos na Acesita.
Achei muito estranho fazer a
travessia do Rio Piracicaba longe, depois da fazenda do Sô
Domingos, onde instalaram uma balsa e onde mais tarde fizeram a
ponte. O Sô Domingos, português, o primeiro morador de Fabriciano.
Sr. Militão, chefe da segurança.
O Sr. Mundico, gerente do armazém com enorme movimento. O Sr.
Gallo montou a farmácia. Construíram também uma igreja no centro
- acho que o Padre Abdala apareceu junto – está lá até hoje. Ao
lado, um hospital, cuja diretora era irmã de minha mãe, Tia Vivi,
e perto, a Agência dos Correios, comandada por Tia Zelica - seu
marido Davi era o alfaiate dos bacanas.
Enquanto a Acesita pertenceu ao
município de Coronel Fabriciano ela era isenta de impostos
municipais - isenção dada pelos vereadores, exceção feita ao Doca
Pires, mais tarde prefeito da cidade. Quando acabou essa regalia,
a Acesita esforçou para o desmembramento do Município, tornando-se
três: Timóteo, Ipatinga e Fabriciano - ganhando com isso mais
isenção de anos a fio.
Papai tinha um compadre - morava
lá pelos lados da Cachoeira Escura. Uma enchente no Rio Doce
arrastou sua casa matando oito dos catorze filhos.
Mais ou menos em 1947, uma tromba
d'água fez grandes estragos pelas bandas do Pico do Ana Moura e no
leito do ribeirão vindo de lá e que passa no centro de Acesita.
Menino, fui pra ver e fiquei impressionado com o que a força da
água provocou.
A tromba d'água arrasou a casa e
morreram os seis filhos restantes do compadre de papai - mudou-se
para lá com a família havia pouco tempo. Apareceu em casa de meu
pai solicitando ajuda:
- Pois não, compadre, pode vir
morar nesse barracão aqui em frente.
- Cumpade, vô só pegá o que me
restou - a mulé e as pouca vazia.
No mesmo dia o compadre se
apossou do barraco e do terreno - corresponderia aos quatro lotes
em frente à nossa casa, praticamente na rua principal de
Fabriciano. Papai, contra a vontade de mamãe, acabou doando o
barraco e o terreno para o compadre.
Assim era meu pai.
Benedito CElso
A. Franco
**** Em Belo Horizonte,
morávamos na Av. Brasil, perto da Igreja de Santa Efigênia a qual
freqüentávamos. No mês de maio, havia a coroação, quando as
meninas se vestiam de anjinhos.
O importante,
a alegria e o orgulho dos pais era a filha cantar e coroar. A Tati
coroou e a Nanda também, só que, na hora de cantar, a Fernanda,
com uns três anos, pegou a coroa - todos nós na expectativa -
olhou para Nossa Senhora, e calmamente, colocou a coroa na cabeça
da imagem, virou-se para o público e falou:.
- Ah!... isquici!
A Igreja inteira foi
um só riso!