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Na Grécia antiga, 2.200 anos atrás, havia as termas, a maioria
de luxo incomum, para banhos frios, mornos, quentes e a vapor,
normalmente públicas e com ótimas instalações sanitárias -
dejetórios e mictórios - as latrinas. Possuíam assentos de
pedra, um ao lado do outro, escoando bastante água num canal
comum por baixo, para levar os dejetos e outro na frente para o
usuário se lavar – não existia papel higiênico. Em algumas
instalações, até uma pequena cachoeira, para que barulho
abafasse os sons das ventosidades emitidas.
Quando estudava em Congonhas, MG, no internato, desfrutávamos as
férias em uma casa de campo, onde as instalações sanitárias
assemelhavam-se humildemente às da Grécia - apenas o canal, ou
vala comum, por onde passavam a água e os dejetos desembocados
na cloaca maior - e sem o conforto dos assentos, mas com paredes
para o uso individual, as quais, nos sanitários gregos,
parece-me, inexistiriam.
Na Roma dos Césares, 2.000 anos atrás, as termas eram
faraônicas, tanto nas dimensões como no luxo exagerado - tudo de
mármore de Carrara, ouro, prata e bronze, e ao lado galerias de
arte, teatros e templos. Algumas podiam servir a mais de três
mil pessoas ao mesmo tempo, com até vinte e cinco qualidades
diferentes de banhos - frios, mornos, quentes e até mesmo com
óleos, vapores perfumados, ervas, essências etc.. Centenas de
empregados, normalmente escravos.
Quando o imperador queria agradar o povo, ordenava abrir as
portas a todos. A Terma de Diocleciano media 330m de comprimento
por 300m de largura (caberiam dentro pelo menos nove campos de
futebol, de dimensões oficiais) e a piscina de 100m x 100m
(quase dez piscinas olímpicas oficiais - medem 50m x 21m). Tudo
isso num luxo e pompa de invejar a Nabucodonosor II, sete
séculos antes, com os jardins suspensos da Babilônia, ou a
fazer Luis XIV da França, o Rei Sol, babar de inveja, dezesseis
séculos depois. A administração das termas ou edifícios públicos
ficava a cargo dos aediles (edis) - vê-se que nossos
vereadores (edis) têm boa vida desde aquela época.
Papai contou-me - como possuo uma loja de material de
construção, acabamentos, lembrei-me. Deliciem-se com as história
e estórias:
Pelos idos de 1915, a cidade de Antônio Dias, terra de meu pai,
então cidade importante de grande região no leste de Minas
Gerais - ainda não Comarca - Diamantina era a Comarca - depois
Itabira. O bandeirante Antônio Dias de Oliveira fundou o arraial
de Antônio Dias em 1706, paulista de Taubaté. Em 1698 fundou e
foi o primeiro a achar ouro em Ouro Preto.
Diamantina situava-se tão distante que, quando acontecia um
crime em Antonio Dias, o criminoso simplesmente desaparecia, ou,
quando pego, até chegar a comunicação da polícia ao Fórum e/ou
do Fórum à polícia, o criminoso, muitas vezes havia fugido ou
mesmo morrido.
Nas casas de Antônio Dias não havia sanitário - sanitário era
mato, ou, pra bem dizer, no mato!
Meninos e rapazolas, ou o apaixonado, divertiam-se em ver as
mocinhas ou as mulheres irem ao mato - claro que pais ou
maridos tomavam precauções - os pinicos!
Um pouco antes, quando Dom Pedro II passava férias no Palácio de
Petrópolis, levavam-se uns 360 pinicos - a maioria de porcelana
finíssima. Conheci uma dessas preciosidades na casa de u’a minha
irmã.
Pensam que mini-saia é coisa d'agora? Ledo engano. Pelos idos
de 1924, as mocinhas usavam-na. A Belita, Miss Antonio Dias,
mocinha linda, como o nome indica, a mais bonita da cidade,
alegre, sorridente e serelepe, de ótima família, desejada ou
admirada por todos, virava a cabeça de meninos e moços, com
curvas e rebolado sexys, nas ruas e casas. Inocentemente,
com as mini-saias, colocava à mostra a calcinha de rendas. As
idas ao mato... Nem falemos... Deixe pra lá!
Nessa época montaram uma pequena usina hidrelétrica em Antonio
Dias. Vinha gente de longe para conhecer a luz, e saíam
admirados com tamanha belezura e enorme milagre.
Voltemos atrás, pois, na ocasião, chegava a Antônio Dias a maior
invenção do Século Vinte - invenção tão importante quanto as de
Pasteur e mais que a do avião ou do computador, pelos benefícios
para a saúde da humanidade. A cidade levantou-se e ficou
curiosa. Os comentários os mais variados. As lamentações também
- meninos, moços e homens - principalmente se espalhasse para
todas as casas... acabar-se-iam as idas ao mato!
Conhecidos e desconhecidos - os parentes tinham preferência -
formavam filas para conhecer a novidade. O dono, homem de bens e
posses, orgulhosamente mostrava as instalações a todos... um
privilégio para quem via - como parente, papai foi dos
primeiros. O pessoal da roça, desconfiado e de poucos recursos,
comentava, mas ainda acreditava nos métodos antigos.
Destronaram-se o pinico e o mato! Latrinas?... Já o não seria!
Chegou o vaso sanitário!
O vaso sanitário, não de louça como agora. A caixa d'água, ou a
caixa de descarga, com uns vinte litros de capacidade - hoje de
seis a nove litros - de ferro fundido e esmaltado - ainda
existem banheiras desse material em casas ou prédios
antigos. Canos de chumbo para a entrada d’água e canos de saída,
até à fossa, ao rio ou a um pequeno riacho, de ferro fundido,
calafetados com chumbo nas emendas, ou manilha de barro. Papel
higiênico inexistia - usavam-se quaisquer papéis ou
jornal, (este, coisa rara na época) e que não se jogavam no vaso
- utilizava-se até mesmo o sabugo de milho. Aliás, herança
daqueles tempos, até hoje tem-se o mal costume de jogar papel
higiênico usado em cestas colocadas ao lado dos vasos sanitários
- anti-higiênico ao estremo - papel higiênico dissolve,
portanto, deve ser jogado dentro do vaso.
Aos poucos, desta data em diante apareceram as casinhas,
colocadas em cima de uma fossa, tendo como assoalho tábuas, no
quintal de cada casa. Na casa da vovó Olinda, mãe de papai, a
água vinha de um pequeno desvio do córrego que nascia na serra,
atrás da casa. Por cima de umas pedras, logo na saída da
cozinha, e por onde passava essa água, fez-se a latrina. Tempos
depois, o governo distribuía chapas de concreto, com um furo no
meio, para substituir os assoalhos de tábuas, com mais ou menos
120 cm x 120 cm, como a que papai acabou ganhando e instalando
no terreiro de nossa casa.
Nem todos os vasos sanitários são iguais - a forma pode variar
em alguns países. Um país da África comprou uma imensa
quantidade de vasos de uma firma do Brasil. Quando lá chegaram,
foram rejeitados, pois os vasos de lá têm a entrada d'água na
parte lateral, e não atrás como aqui... E como trazê-los de
volta e onde colocá-los no comércio.
Vaso também é e tem história e estórias!...
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 04/03/2009
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