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A Janela
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Tenho duas filhas - nunca levei
alguma a médico.
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A segunda nasceu com 2,90
kg, mas com membrana hialina - um
problema no pulmão - nasceram em São
Paulo. Com catorze dias no CTI, foi
para casa com 2,20 kg. Pegando
sapinha, fungo, emagreceu mais
ainda, chegou a 1,75 kg.
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Procurava saber, quando ia a
Fabriciano, tudo sobre criança, com
minha mãe, doze filhos, e Dona Rosa,
a sogra, catorze filhos - sendo três
na fazenda, sem uma pessoa sequer
para lhe dar alguma assistência.
Dois monumentos em pediatria!
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Tatiana, com uns seis meses - que
saudade! Aliás, criança tem este
defeito: cresce! - a mãe grávida e
eu, fomos ao Hospital das Clínicas
para a Tati tomar vacina, a
tríplice.
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No caminho, perto do Pacaembu, na
subida atrás do estádio, avistando o
Hospital, fomos parados, o trânsito
barrado. Caça a um terrorista -
escondeu-se numa das mansões do
bairro. Estávamos na ditadura.
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Tiro pra cá, tiro pra lá... saímos
ilesos - uma irresponsabilidade dos
brucutus contra a população
ordeira... enfim... deixemos
terroristas para o Obama!...
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Conseguimos chegar ao hospital.
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Achei interessante receber a
Carteira de Vacinação para controle
das vacinas - inexistia ou não
estava a par da existência.
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Formou-se pequena fila e, a nosso
lado, uma senhora com um menino
lindo, de pouco mais de um ano, com
queimadura feia e grande em um dos
bracinhos.
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A mãe contou-nos que a empregada,
moça de ótima aparência, e como se
mostrara de confiança e carinhosa
com o menino, ela, a mãe, resolveu
até mesmo voltar a trabalhar no
antigo emprego, meio expediente.
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Recebeu telefonema da empregada para
que fosse urgente para casa. O
menino havia caído em cima do ferro
de passar roupa, enquanto ela olhava
uma panela no fogão.
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A mãe correu, pegou o menino e o
levou para o Pronto Socorro.
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Bem socorrido por médicos e
enfermeiros e, por ser um menino
interessante e a queimadura grande
para uma pessoinha tão linda, o caso
despertou a curiosidade dos
funcionários presentes. Feito o
curativo, paparicado e admirado, a
mãe com o filho foi para a rua dar
um jeito de voltar para casa - ela
iria pegar um táxi. Esqueceu-se do
dinheiro e o taxista que a trouxera
até perdoara a dívida da corrida,
condoído com o sofrimento do
pequerrucho.
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Esperando o táxi veio correndo um
funcionário do Pronto Socorro
pedindo para ela voltar, pois os
médicos que a atenderam desejavam
falar-lhe. E em lá chegando, um
médico esperava-a na porta.
Entraram. O médico:
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- Minha senhora, confabulávamos, os
colegas e eu, sobre a queimadura no
bracinho do menino. Chegamos à
conclusão de a queimadura não ser
acidental... foi proposital - alguém
colocou o ferro de passar roupa em
cima do bracinho do menino e, pelas
características, até o segurou
por instantes. Será feito um B.O. -
Boletim de Ocorrência. A polícia
está a par e a Senhora terá de
comparecer ao Distrito Policial aqui
perto, com o menino e a empregada,
para esclarecimentos.
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Assinou os papéis do B.O., feito
pelo Policial presente no
Pronto Socorro, e correu para casa.
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Morava no oitavo andar. Em lá
chegando, de sopetão, avançou na
empregada, dando-lhe uma verdadeira
surra - seu físico não era dos mais
privilegiados - e não sabia onde
arrumou tanta força e coragem. No
quarto da empregada, pegou a mala e
pertences, encaminhou-se para a sala
e jogou tudo pela janela que dava
para a rua.
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Expulsando e empurrando a empregada
escada a baixo, gritou:
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- Dê graças a Deus meu marido não
estar aqui, pois, se estivesse,
jogaria a mala e os pertences na
escada e você seria atirada na rua
pela janela!
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Os tiros, o caso drástico e
dramático deixaram-me
nervoso. Chegou a enfermeira, pegou
a Tatiana, tirou-lhe a fralda e lhe
aplicou injeção na bundinha.
Tatiana, não era de chorar, fez
carinha feia e chorou e chorou.
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Se houvesse uma janela por ali... a
enfermeira... o B.O....
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Pai de primeira viagem.
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Porque não inventam mais vacinas de
gotinha?
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 27/07/2010
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