A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
A loja do papai
 
Os viajantes, de três ou de quatro em quatro meses, traziam enormes baús, em lotes de burros ou pela estrada de ferro, contendo o mostruário das mercadorias a se vender. À noite, de terno e gravata, visitavam seus clientes – lembro-me do Sô Valentim: meio gordo, educado e muito bem vestido.
Quando me entendi por gente gostava de ajudar na loja de meu pai – servia a cachacinha ou outra bebida qualquer, cortava salame ou queijo Parmesão e dava troco e orgulhava-me de ser o caixa, admirando cada nota e cada moeda de cruzeiro, tostão ou reis.
Fabriciano ainda era o Calado e Governador Valadares a perigosa Figueira.
Coisas vendidas na loja – comparando com os produtos de hoje encontrados em supermercados, a relação abaixo serve para se ter uma idéia de como se vivia na época:
 
- Botões de todos feitios e tamanhos, ilhós, e os diversos aviamentos para costura, fitas e rendas. Cobriam-se botões com pano e pregavam-se ilhós ou botões de metal. Dedal e agulhas comuns, de máquina de costura e até as de costurar sacos de linhagem.
- Chitas, brins, filós, casimira, sedas chinesas originais, linho, embornais, calções (não se usava cueca – só os calções!), camisas, calças, vestidos para batizados – os azuis para os meninos, os cor de rosa para as meninas, e os brancos para os dois sexos – vestidos e coroas para os anjinhos que coroavam ou os que morriam. Até vestido de noiva, pano para caixão ou para colchão encontravam-se.
            - Colchões de capim, travesseiros de algodão, de paina ou de flor de marcela...
- Feijão, arroz, fubá, farinhas, café em grão, milho, açúcar cristal ou refinado, sal fino e sal grosso – tudo colocado no caixote de mantimentos e vendidos a quilo. Mamãe lavava os sacos que traziam sal e aproveitava a água salgada para colocar nos coqueiros do quintal lá de casa. Debulhador manual de milho e torrador de café.
- Balança manual, moinho de ferro para café ou milho  - macaquinho -, puxadores, quadôs e tripé para quadô, bicarbonato, e carbureto para se usar em lampião.
- Pratos e canecas de louça ou esmaltados, louças de todo tipo, jarras, panelas de ferro, baldes e regadores de chapa galvanizada ou esmaltada. Bandejas, com o fundo desenhado com asas de borboletas. Pentes de chifre de boi ou de casco de tartaruga.
- Chapéus de todos os tipos, inclusive os de napa, palha e palhinha. Guarda-chuva e sombrinhas, gravatas, liga para meias, suspensórios, boinas, meias, camisas e calças para homens e meias para mulheres – só usavam saias. Combinações, calcinhas, soutiens, cabides de arame ou de madeira.
- Carne seca, carne de porco, toucinho e banhas, lingüiças, salame, bacalhau, sardinha em lata ou seca, peixe seco, queijos da roça.
- Doces de leite, rapadura, goiabada, marmelada, pessegada – tudo em latas ou caixotinhos de um, dois, cinco ou dez quilos. Leite condensado, toddy, assim como salsicha e lingüiça. Sessenta e quatro rapaduras formavam uma carga – o que um burro trazia de cada lado da cangalha.
- Cigarros e fumos em rolo, a gramas, ou em fiapos ou rapé.
- Enxadas, enxadões, carrinho de mão, alavancas, ferraduras e cravos, pregos, taxinhas, martelos, marretas, machados, machadinhas, arame galvanizado e farpado, prumo, fitas métricas, metros – o articulado e o de um metro de madeira maciça - correntes, picaretas, pás e garfos para carvão, chibancas, ferro à brasa para passar roupa, esquadros e colheres de pedreiro, assim como talheres – facas de todos os tipos, facões, canivetes e punhais, garfos, colheres de metal nobre, ferro comum ou de pau.
- Sapatos para homem e mulher. Botinas, sandálias, galochas, tamancos – inexistiam sandálias de dedo.
- Sabões em barra – em pó, detergentes ou água sanitária não existiam – anil, Kaol, óleo de peroba, óleo de rícino, graxa e tinta para sapatos, vassoura e rodo.
- Talco, bicos de borracha para crianças, brilhantina ou óleo Glostora, vaselina, perfumes, batons, ruges, leite de rosas – xampu e condicionador inexistiam.
- Álcool, querosene, creolina, formicida.
- Bebidas alcoólicas e refrigerantes, como: guaraná, cachaça, vinhos, conhaque, refrigerantes, cervejas, comuns e preta – vinham em sacos com 64 unidades, mais tarde, em engradados de madeira, tudo embalado em capas de capim, bebidas sem gelar, pois não havia geladeira.
- Garruchas, balas para revolver e até espoletas e dinamite.
- Carteira para dinheiro, bolsas, espelhos de diversos tamanhos.
- Canela em casca ou em pó, pimenta do reino, em grão ou em pó, urucum, bicarbonato e amoníaco – vinham em vidros, ou latas, de um ou dois quilos, vendidos a gramas. Remédios, como o melhoral, a cibalena e o leite de magnésio.
- Caderno, cadernetas, lápis de cor em caixinhas e de tipos diversos, borracha, papel crepom e cartolina, compasso e réguas, tintas para tinteiros e tinta Nanquim, além das canetas de pena e penas de metal para tinteiro.
- Cabresto, chicotes e tudo para arrear um cavalo.
- Brinquedos, de madeira, de lata, ou os dois juntos: caminhões, carros, bonecas de louça ou de papel esmaltados ou de pano.  Muitas bonecas vinham com vestidos de papel crepom! Não existiam nem nylon e nem plástico! No Natal, óbvio, os brinquedos aumentavam em qualidade e quantidade.
- Óculos de grau ou escuros, que o pessoal experimentava, jóias e bijuterias, alianças para casamento.
- Para embrulhar usavam-se sacos de papel e papel de todos os tipos.
- Sabonetes, pasta de dente, em bisnagas de chumbo, Escovas de roupa e de dentes feitas de madeira e cerda de alguma planta ou animal.
- Corantes para roupa, cadarço, barbante, cordas de bacalhau.
- Inhame, batatinha e bananas, laranjas e outras frutas que aparecessem.
- Pães vindos de Nova Era. Padaria só de quando em vez aparecia uma no lugarejo – por pouco tempo.
 
Tudo vendido em cruzeiros originais. Um centavo era igual a hum tostão. Um cruzeiro, igual hum mil reis e mil cruzeiros eram hum conto de reis. Os tamanhos variavam muito, mesmo algumas de mesmo valor. As moedas eram de cobre, ou coisa parecida, e algumas continham ouro ou prata – as mais reluzentes. Encontravam-se muitas do século XIX. Notas de hum mil reis, dois, cinco, dez, vinte, cinqüenta, cem, duzentos e quinhentos – em reis ou cruzeiros e seus tamanhos variavam e as de quinhentos eram enormes. Quando a pessoa era muito rica chamavam-na de milionário que, na igreja, ajoelha em cima de notas de quinhentos mil reis! O patacão, ou moeda de quatrocentos reis, era uma grande moeda de cobre e ficou tão famosa que cobre virou sinônimo de dinheiro: Ele tá cheio do cobre = Ele tá cheio do dinheiro, ou ele tá rico! Patacão foi designação de antigas moedas portuguesas de ouro, mas uma delas, de cobre, valia quarenta reis. Pataca era também uma moeda de prata, portuguesa, no valor de trezentos e vinte reis. E por falar em pataca, a pataca era a unidade monetária, e moeda, de Macau e Timor, colônias portuguesas. Fulano não vale uma pataca!- Dito quando alguém nada valia.
 
 
 JOSERCINA
 
Papai e mamãe, na loja, marcavam os preços das mercadorias através de dois códigos.
            Mamãe usava um código dela: JOSERCINA – José, de José Franco, e Ercina, seu nome. Papai gostava do código do jogo da velha – em cada espaço colocou um número.
            Cada letra do JOSERCINA representava um número: J = 1, O = 2, S = 3, e assim por diante. O zero = X, tanto para o código de mamãe, quanto para o de papai. Se uma mercadoria deveria ser vendida por Cr$ 237,50, marcava-se OSI,RX – esse ´X poderia ser dispensado, ou era colocado e dispensava-se a vírgula.
            No código do jogo da velha, um L invertido = 1, um U (reto) = 2, o L = 3, um quadrado = 5, e assim por diante.
            Sempre achei os dois códigos bem inteligentes.
            Tenho certeza absoluta que mamãe marcava preços maiores que os colocados por papai! Era ela comerciante nata!
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 02/06/2009