A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 

Ana Matos II

Jão Fulgenço

 

            Na Região Leste de Minas, na construção da Estrada de Ferro Vitória Minas, no final da década de vinte, no trecho da região de Antônio Dias, uma grande firma do Rio, os Mafras, instalou numa baixada, Japão o nome do lugar, em Ana Matos, um armazém para suprimento dos trabalhadores. 

            Grande o número de pessoas usadas para a feitura, ainda bem precária, da estrada de ferro. A terra e pedras dos cortes, dos barrancos e de pedreiras tiradas com padiolas e carrocinhas e as quantidades dessas ferramentas davam o valor e o tamanho das empreiteiras - nem se pensava em tratores por lá - se é que já existiam. O Coronel Sylvino Pereira era o Camargo Correia da região – mais tarde, após a inauguração da Vitória Minas, além da construtora, também empreitava carvão para a Belgo Mineira. Perto de sua casa, em Coronel Fabriciano, possuía um silo para o recebimento e embarque de carvão nos vagões, para a siderúrgica de João Monlevade.

            Papai, com vinte e poucos anos, foi trabalhar nesse armazém, passando logo a Gerente Geral. Havia outras toscas vendas e botecos - nestes a cachaça era a mercadoria principal. João Fulgêncio era dono de um deles e um dos mais bem movimentados - "Jão Fugênço é home brabo e perigoso, já matou mais de deis, e além disso anda armado inté os dente" - dizia-se dele.

            João Fulgêncio montava u’a mula marchadeira - Princesa do Sertão - alta, esbelta, espevitada e bela. Em cima dela considerava-se o rei da cocada. O povo dava passagem, e se não desse, ele jogava a mula em cima - um revólver de um lado da cintura e, do outro, uma bereta automática de dez ou doze tiros. Alguém acharia ruim?

            - Jão Fugenço vem aí, montado na Princesa, mula de muitos conto de reis!... Falavam e fugiam todos.

            E apareceu mesmo, jogando a mula pra cima do povo. O povo saindo correndo e se escondendo - gritaria total - João Fulgêncio ria e chicoteava quem se encontrasse em seu caminho. Numa das puxadas que deu na Princesa do Sertão, a bereta automática foi ao chão, disparando os dez ou doze tiros do pente - a cada disparo, um pulo e outro disparo. Por milagre nenhum pegou em alguém - em segundos a praça esvaziou-se.

            Papai, do interior do armazém, viu o povo entrar e se esconder às pressas. Passando entre as pessoas, encontrou o João Fulgêncio dando uivos de alegria e prazer em ver todo aquele povão correndo e com medo. Papai foi a seu encontro, apanhou a bereta do chão e, dando um pulo, conseguiu arrancar-lhe o revólver da cintura e, calmamente, entrou no armazém, sem lhe dizer uma única palavra - apenas um olhar (fulminante!).

            João Fulgêncio ajeitou-se na sela, dessorriu, quietou-se como se tivesse recebido um banho d’água gelada, calou-se, e foi-simbora de mansinho, sumindo estrada a fora... deixando tudo pra trás.

            Até hoje ninguém mais viu o João Fulgêncio - nem notícia dele e da Princesa do Sertão...

Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 27/04/2009