A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
 
A negra. O loiro
 
         Dia 31 de julho.
         Saí de Belo Horizonte bem cedo, indo para Ponte Nova, MG, onde visitaria duas usinas de açúcar.
         Nas moendas das usinas de açúcar há formação de colônias de bactérias que, pela aparência, leva o nome de canjica. No momento em que a cana é cortada, as bactérias, há normalmente na cana, começam a crescer em números extraordinários. A cana deve ser moída assim que cortada - procura-se moê-la antes de vinte e quatro horas após o corte. Para acabar com a canjica, adiciona-se um antibiótico industrial: o biocida. Na fabricação de álcool, o caldo de cana é colocado em tanques imensos, chamados de dornas, onde fermenta, produzindo muita espuma - e para controlar a espuma usa-se o antiespumante. Dois produtos que a firma, onde eu trabalhava, vendia e eu orientava os clientes como usá-los.
         Passando por Ouro Preto e Mariana, e de quando em quando parando para visitar igrejas barrocas, maravilhosas, e às vezes conversar com o Zizi Sapateiro, um pintor de fama internacional - vários quadros no prédio da ONU, no Palácio da Alvorada - adquiri alguns. Visitando Mariana, chegue à casa do Zizi, numa ruazinha ao lado da Catedral - adorará falar com o velhinho simpático e palrador. NB: Zizi faleceu há algum tempo.
         Pouco antes de Ponte Nova, no alto da serra, quando começaria a descer, apareceu uma senhora negra, dessas bem pretas, magérrima, um rosto de sulcos profundos, quase sem expressão, indicando fome e sofrimento, olhos cor de chapa de estanho, como diria o Machado de Assis. Carregava um neném esquelético no colo. Interessante como os traços firmes nos entram tão rápidos na memória, instantaneamente os vi e os guardei - não nos escapam jamais.
         A senhora deu-me sinal, pedindo uma carona - parecia mais um pedido de socorro. Imediatamente, a estrada em declive acentuado, meti o pé no freio, quando, de repente, aparece por trás uma carreta, em alta velocidade; tentei jogar o carro para o acostamento. Percebi que não daria tempo. Apertei o acelerador até o fundo e a carreta freou, ouvi o barulho, e, apesar de chegar praticamente a meio metro do pára-choque de meu carro, conseguimos, ele e eu, nos safar. Que sufoco!
         A Dona e o menino, os dois de branco, ficaram para trás... mas fixaram-se no meu consciente e no meu inconsciente também.
         Trabalhei todo o dia - dia tranqüilo, com bons resultados da labuta, mas a senhora com o menino não me saía da cabeça - a carreta, da mesma forma.
         À tarde, antes de escurecer, resolvi voltar.
         Saindo de Ponte Nova, um quilômetro de asfalto percorrido, um jovem loiro de boa aparência, bermuda e camiseta coloridas, mochila nas costas, deu-me sinal.
         Lembrei-me da negra e o menino. Parei - quem sabe me indulgenciaria.
         - Você vai me dar carona mesmo?
         - Sim!... se parei...
         Ressabiado, percebi, entrou devagar, colocou a mochila entre as pernas, acomodando-se.
         - Você está indo para?...
         - Vou pra Vitória.
         Deu-me um branco. Indaguei-me a mim mesmo onde ficaria Vitória.
         - Onde fica essa Vitória?
          - Vitória, capital do Espírito Santo, nunca viu falar? Não conhece?
          - Ah! Retruquei. Conhecer eu conheço... Você está andando feito caranguejo. Vitória fica pra lá, lado inverso do que estamos indo - apontei para trás.
         Antes da resposta, fui para o acostamento, parando em seguida.
         - Seria bom descer e pegar uma carona pra trás, assim chegará mais rápido.
         Categórico, tirando um punhal da mochila:
         - Mas... não vou descer!
         Só poderia ser um louco, pensei.
         Esperei um pouco e me veio à cabeça que escurecia - último dia de julho - e depois da subida da serra, seria noite, e noite escura. O que poderia acontecer, ele com o punhal na mão e eu dirigindo.
         Comecei a correr e a correr muito. Estrada sinuosa e estreita, fazendo as curvas pegando o acostamento, jogando o carro para um lado e para outro... e toma acelerador!
         - Mais devagar! Você, desse jeito, vai me matar! - protestou ele.
         - Os dois!- bradei.
         Todos os santos foram invocados... Nossa Senhora nem se fala!...
         Numa curva bem aberta, à direita, avistei um descampado com uma malta de operários arrumando-se para ir embora, com alguns já dentro da carroceria de um caminhão.
         Não titubeei. Com uma guinada brusca no carro, parti para cima da turma, com a mão na maçaneta da porta, freando com tudo no meio deles! Com a freada violenta, o rapaz bateu com a cabeça no vidro dianteiro; levantou-se um turbilhão de poeira e os operários pularam da frente do carro, vindo em minha direção.
         O rapaz, instintivamente, investiu contra mim, mas como fui mais veloz saindo do carro, o punhal fincou na poltrona.
         - Um assalto!... gritei para eles, saindo do carro.
         Os operários, quando viram o punhal na poltrona, correram para o lado do rapaz, arrancando-o do carro.
         Imediatamente, ainda sem fôlego, dei uma ré e parti.
         Eles, operários e o loiro, sumiram na poeira deixada para trás!
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 09/11/2010