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O eutrapélico Vianney, meu primo, nunca falou um
palavrão - mesmo depois de um tropicão! Brincalhão, chistoso,
tinha o hábito de colocar, e sabia, apelidos nas pessoas... nos
meninos, então!... Era um craque! Apelidos nunca jocosos e nem
humilhantes... sempre carinhosos, mas pegavam!... Encaixavam
como uma luva!
A questão de apelidos, muitas vezes, transcende a
vontade e o gosto de cada um.
Tive muitos apelidos e nenhum pegou. Há pessoas em
quem quaisquer apelidos pegam; em outras, apenas um, e somente
um; pega e pega bem e, muitas vezes, faz até esquecer os
próprios nomes - tem a cara e veste justo o apelidado.
Muitos políticos investem tanto no apelido que o
tomam como nome próprio - Lula que o diga e outros mais. Já
outros, ficam uma fera quando são chamados ou gozados por seus
apelidos.
Na minha família, e em muitas outras, praticamente
não há apelidos - apenas, às vezes, diminutivos amorosos.
Antigamente havia mais pessoas com apelidos - era
muito comum. Hoje carecemos de tempo para jogarmos uma piadinha,
um chiste, brincar, dar atenção a nossos amigos e familiares –
infelizmente!
Sô João era o barbeiro mais barateiro do Calado e,
mesmo depois de o Calado passar a Coronel Fabriciano, MG,
continuou a sê-lo. Mamãe, com muitos filhos, pesquisadora de
preços, devia e necessitava, sabia disso, mandava os meninos
cortar os cabelos com o Sô João - o Sô João Barbeiro. Lá ia
eu, à Rua Seca, longe donde morava, apesar de, às vezes, o
Sô João deixar uns caminhos de ratos na cabeça da gente -
mas era barato. Gostava muito de minha família e me tratava bem
- tinha admiração por meu pai, o Sô Zé Franco.
João Barbeiro, homem de moral rigidíssima, andava
sempre com camisas de mangas compridas, colarinho fechado, assim
como sua senhora e as filhas - fizesse ou não o calor escaldante
de Fabriciano.
- Nunca vi nem os braços nus de minha senhora!-
orgulhava-se, faiscando os olhos, como se fosse a maior das
virtudes. Eu, criança, perguntava-me a mim mesmo, para que
servia ver ou não ver o braço nu de alguém, ainda mais da
humilde senhora - nenhum modelo de beleza.
O problema era o apelido: "Jão Jaó". A ignorância
encharcando-lhe o coração e alma de sua mineiridade
interiorana, virava uma fera quando os meninos de rua passavam e
gritavam: "Jão Jaóooo!"- quando isso acontecia ele tremia todo,
bufava, avermelhava, arrepiava até os cabelos dos braços - os da
cabeça tornavam-se mais perpendiculares do que já eram - e,
parecia, inchava ou inflava, de tão nervoso; perdia as
estribeiras, ia até à porta, olhava e gesticulava para o lado da
rua, e começava, apesar de moral rígida, a gritar e xingar
palavrões de todos os calibres.
Quando a Usiminas começou a ser instalada, a rua em
que o Sô João morava tomou um impulso desenvolvimentista
tremendamente grande, com os imóveis valorizando-se muito. O
movimento de gente e carros tornou-se intenso e intenso foi o
número de pessoas que passavam e gritavam: "Jão, Jaóooo! Jão,
Jaóooo!" Os alunos das escolas, e a molecada da
vizinhança, nem se falam!
A coisa tornou-se tão feia que o Sô João resolveu
mudar-se. Vendeu a casa por preço irrisório e foi para Belo
Horizonte, onde comprou uma casinha em um bairro afastado.
Colocou a pequena barbearia em um dos cômodos e se tranqüilizou
- ficou na sua, apesar de seu jeitão e modos da roça.
Tranqüilo?...
Um belo, ou um nefasto dia, passou um rapaz, no meio
de uma grande turma do bairro, e gritou: "Jão, Jaóooo!"
Em seguida, um uníssono de toda a rapaziada: "Jão, Jaóooo!
Jão, Jaóooo!" - O suficiente para a garotada ouvir e
aprender e colocar em prática o famigerado apelido. A coisa
tomou tal pé, que o Sô João não agüentou por muito tempo; vendeu
a casinha novamente por preço irrisório - mudou-se para Itabira.
Em Itabira o Sô João comprou um pequeno
barracão beirando favela - agora, no interior novamente,
tranqüilidade total! Total?
Demorou pouco, apareceu um gaiato e gritou, para
todo mundo da redondeza escutar e aprender:
- "Jão, Jaóooo! Jão, Jaóooo!"
... Sô João teve infarto fulminante...
NB: Este conto foi escrito como uma homenagem ao querido primo
Vianney.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 04/05/2009
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