A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 

Apelido I - Jão  Jaó    

            O eutrapélico Vianney, meu primo, nunca falou um palavrão - mesmo depois de um tropicão! Brincalhão, chistoso, tinha o hábito de colocar, e sabia, apelidos nas pessoas... nos meninos, então!... Era um craque! Apelidos nunca jocosos e nem humilhantes... sempre carinhosos, mas pegavam!... Encaixavam como uma luva!

            A questão de apelidos, muitas vezes, transcende a vontade e o gosto de cada um.

            Tive muitos apelidos e nenhum pegou. Há pessoas em quem quaisquer apelidos pegam; em outras, apenas um, e somente um; pega e pega bem e, muitas vezes, faz até esquecer os próprios nomes - tem a cara e veste justo o apelidado.

            Muitos políticos investem tanto no apelido que o tomam como nome próprio - Lula que o diga e outros mais. Já outros, ficam uma fera quando são chamados ou gozados por seus apelidos.

            Na minha família, e em muitas outras, praticamente não há apelidos - apenas, às vezes, diminutivos amorosos.

            Antigamente havia mais pessoas com apelidos - era muito comum. Hoje carecemos de tempo para jogarmos uma piadinha, um chiste,  brincar, dar atenção a nossos amigos e familiares – infelizmente!

 

            Sô João era o barbeiro mais barateiro do Calado e, mesmo depois de o Calado passar a Coronel Fabriciano, MG, continuou a sê-lo. Mamãe, com muitos filhos, pesquisadora de preços, devia e necessitava, sabia disso, mandava os meninos cortar os cabelos com o Sô João - o Sô João Barbeiro. Lá ia eu, à Rua Seca, longe donde morava, apesar de, às vezes, o Sô João deixar uns caminhos de ratos na cabeça da gente - mas era barato. Gostava muito de minha família e me tratava bem - tinha admiração por meu pai, o Sô Zé Franco.

            João Barbeiro, homem de moral rigidíssima, andava sempre com camisas de mangas compridas, colarinho fechado, assim como sua senhora e as filhas - fizesse ou não o calor escaldante de Fabriciano.

            - Nunca vi nem os braços nus de minha senhora!- orgulhava-se, faiscando os olhos, como se fosse a maior das virtudes. Eu, criança, perguntava-me a mim mesmo, para que servia ver ou não ver o braço nu de alguém, ainda mais da humilde senhora - nenhum modelo de beleza.    

            O problema era o apelido: "Jão Jaó". A ignorância encharcando-lhe o coração e alma de sua mineiridade interiorana, virava uma fera quando os meninos de rua passavam e gritavam: "Jão Jaóooo!"- quando isso acontecia ele tremia todo, bufava, avermelhava, arrepiava até os cabelos dos braços - os da cabeça tornavam-se mais perpendiculares do que já eram - e, parecia, inchava ou inflava, de tão nervoso; perdia as estribeiras, ia até à porta, olhava e gesticulava para o lado da rua, e começava, apesar de moral rígida, a gritar e xingar palavrões de todos os calibres.

            Quando a Usiminas começou a ser instalada, a rua em que o Sô João morava tomou um impulso desenvolvimentista tremendamente grande, com os imóveis valorizando-se muito. O movimento de gente e carros tornou-se intenso e intenso foi o número de pessoas que passavam e gritavam: "Jão, Jaóooo! Jão, Jaóooo!" Os alunos das escolas, e a molecada da vizinhança, nem se falam!

            A coisa tornou-se tão feia que o Sô João resolveu mudar-se. Vendeu a casa por preço irrisório e foi para Belo Horizonte, onde comprou uma casinha em um bairro afastado. Colocou a pequena barbearia em um dos cômodos e se tranqüilizou - ficou na sua, apesar de seu jeitão e modos da roça. 

            Tranqüilo?...

            Um belo, ou um nefasto dia, passou um rapaz, no meio de uma grande turma do bairro, e gritou: "Jão, Jaóooo!" Em seguida, um uníssono de toda a rapaziada: "Jão, Jaóooo! Jão, Jaóooo!" - O suficiente para a garotada ouvir e aprender e colocar em prática o famigerado apelido. A coisa tomou tal pé, que o Sô João não agüentou por muito tempo; vendeu a casinha novamente por preço irrisório - mudou-se para Itabira.

            Em Itabira o Sô João comprou um pequeno barracão beirando favela - agora, no interior novamente, tranqüilidade total! Total?

            Demorou pouco, apareceu um gaiato e gritou, para todo mundo da redondeza escutar e aprender:

            - "Jão, Jaóooo! Jão, Jaóooo!"

            ... Sô João teve infarto fulminante...

NB: Este conto foi escrito como uma homenagem ao querido primo Vianney.

Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 04/05/2009