- A penicilina
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- Dono do cartório de
Fabriciano, Sô Zacarias era o patriarca de imensa e ótima
família - toda ela amicíssima da minha.
- Quando nasci, mamãe
mandou-lhe um recado para me registrar. Escreveu-lhe um bilhete,
(antigamente era assim), em que colocou o nome, Benedito Celso.
Ele perdeu o tal bilhete. Quando mamãe mandou buscar a Certidão
de Nascimento, lembrou-se ele de que ela já tinha tido um filho
com o nome de Benedito - parece-me que era seu afilhado.
Consultou o livro, achou: Benedito Jésus!... Registrou-me!
- Dá para prever a
confusão vivida por mim por causa desse Benedito Jésus – faleceu
aos dois anos - todo mundo me chamava de Benedito Celso. Quando
fui para o colégio interno, foram enviados documentos, constando
de Certidão de Nascimento e de Batismo. Na Certidão de
Nascimento, nome: Benedito Jésus e Benedito Celso, na de
Batismo. Esperavam por irmãos gêmeos e prepararam duas vagas -
no dormitório, no refeitório, na rouparia, na capela, na sala de
estudo e nas salas de aula, nos cadernos de chamada etc.,
etc. Depois de anos de luta, encontrei-me com o promotor, meu
colega de infância, neto do Sô Zacarias:
- - Divaldo, qual o meu nome?
- - Uai, Benedito Celso, por quê?
- Aprovou a petição e,
assim, consegui trocar o nome no cartório.
- O pai do Divaldo,
esposo da Dona Rosinha, trabalhava com corte e venda de madeira,
colocou o nome de Jacarandá no primeiro filho e de Sucupira no
segundo. O terceiro teria mais um nome de madeira - Dona Rosinha
refutou.
- Uma das filhas do Sô
Zacarias, D. Zaide, casada com o Sr. Raimundo Alves,
farmacêutico formado e prefeito de Fabriciano por duas vezes,
morava em uma fazenda, do outro lado do Rio Piracicaba. O filho,
Rômulo, hoje bioquímico, sempre estava na casa do avô, perto da
minha. Fiz amizade com ele, uma vez que mamãe se encontrava
bastante com Dona Zaide e gostava demais dela - amizade
conservada até a morte de uma delas.
- Fui, com o Rômulo,
passear na fazenda e, recordo-me, fomos pescar no ribeirão em
frente à sede. Pesquei um piau de uns vinte centímetros. Ele
pegou um monte deles. Pescaria única, com filho único, em toda a
minha vida.
- A fazenda foi
vendida para a instalação da Acesita - a sede fica no centro
comercial.
- Mais tarde, eu
rapaz, o Sr. Raimundo Alves visitando o Laboratório Franco, de
minha irmã, a Celma, contou-me: chegando de viagem, um matuto,
empregado, morador do outro lado do córrego - o tal ribeirão da
pesca, hoje Bairro dos Funcionários - apareceu com uma
grande ferida purulenta no pé, perto do tornozelo, e com a
região muito inchada. Fez-lhe o curativo - curativo nada, pois
estava sem um remédio sequer no momento. Limpou bem a ferida e
recomendou-lhe vir todos os dias para a limpeza e um novo
tratamento, e então providenciaria os remédios necessários.
- - Mais dotô Remundo
Ávis, eu num vim inhantes pruquê o Sinhô tava fora e é difíci
pra mim, pruquê tenho qui andá e travessá o brejo, do lado de lá
e do lado de cá do coigo.
- - Faça um esforço.
Chegando, a gente vai limpar tudo. Não deixe de vir.
- No dia seguinte,
o senhor contou-lhe que havia sujado o local da ferida, lá no
brejo, logo ao ir para casa, mas a dor melhorou.
- Sr. Raimundo Alves
reparou que as gazes seguraram a sujeira do brejo e, apesar da
sujeira, a ferida não piorou, melhorou. Interessante: antes a
ferida piorava, como contou o matuto, apesar de lavá-la bem em
casa.
- - A melhora foi
total e, em muito pouco tempo, bem antes do esperado, e antes
mesmo de eu providenciar os remédios necessários. O resultado
curioso levou-me a dar uma olhada no brejo e no ribeirão, e
notei muito fungo por lá. Estranhei: esperava que a sujeira e o
fungo piorassem a ferida, o que não acontecia. Fungo sempre me
despertou a curiosidade e algum estudo. Isso me convenceu, não a
recomendar, mas a tolerar o senhor a chegar em minha casa com os
curativos sujos. Jovem e recém-formado, pouco experiente, não me
aprofundei na pesquisa. Passados alguns poucos anos, fiquei
sabendo da descoberta da penicilina e sua origem, pela equipe do
doutor Fleming.. Relacionei-a com o fungo do brejo.
- Poderia ter descoberto a
penicilina, antes mesmo da equipe do Dr. Fleming. Deixei de
curar e salvar muita gente... e de ser famoso!
Benedito Celso
A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 03/03/2008
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