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As Domésticas
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Cheguei a Belo
Horizonte para trabalhar
numa multinacional, dar
assistência técnica a
indústrias, em certa região
de Minas Gerais - tratamento
de água industrial,
resfriamento, caldeiras e
limpeza química.
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Peguei estrada, a
BR 040, rumo a Pirapora,
norte de Minas. Rodava de
quatro a seis mil
quilômetros por mês.
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Ladeando Sete
Lagoas, cidade linda e
agradável de se visitar –
hoje há tantos radares na
periferia e dentro da cidade
que a gente desanima da
visita - entrei no trevo,
disposto a ir às fábricas de
leite, tecidos (a primeira
S.A. do Brasil), macarrão,
ou ao frigorífico de carne
de cavalo e burro - lá
existia, hoje fechado - só
para exportação.
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No meio do trevo,
comprido, resolvi não entrar
mais, e sim, continuar
rumo à Pirapora. No término
do trevo, alguém me deu
sinal e percebi um
conhecido, encarregado em
uma das fábricas. Sem
vê-lo fazia tempo, mas
conhecia-o bem. Parei.
Acompanhavam-no
duas senhoras de aparência
bem simples. Pediu-me para
eu levar as amigas até o
Trevão ou a Curvelo,
dependendo de qual caminho
tomaria.
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Quase na entrada de
Paraopeba, onde nasceu a
cantora Clara Nunes, no
trevo para Cordisburgo,
terra de Guimarães Rosa e
onde está localizada a Gruta
de Maquiné, resolvi tomar um
cafezinho. As senhoras,
humildemente, empregadas
domésticas, como me contaram
e aparentavam, pediram-me se
poderiam ir ao banheiro -
coisa rápida.
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- Pois não!
Disse-lhes eu.
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Foram. Tomei o
cafezinho, saboreando-o para
um cigarro após - não fumo
mais!
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Sentei-me no carro
esperando.
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O espanto
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Apareceram... e
desapareceram as senhoras
humildes de aparência bem
simples! Vieram numa
estica e num parfume.
Entraram no carro, roupas
apertadas, vistosas e
espalhafatosas; ruge, batom,
pó de arroz,
emperiquitadas e tudo mais
possível e impossível; saias
curtíssimas, decotes
generosos, em seios mais
generosos ainda! Uma delas
com um sorriso meio maroto e
a outra, sem demonstrar
nada, hiper perfumada -
coitado de meu olfato de
químico!
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Atravessamos a
pequena cidade e, depois de
algumas poucas curvas,
entraríamos na grande reta
do Trevão - Trevão é nome de
um restaurante e de um
trevo, onde a estrada vindo
de Belo Horizonte bifurca,
uma indo para Brasília e a
outra para o norte de Minas.
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Alcançando a
primeira dessas curvas,
senti algo em minha nuca.
Pensando ser mosca ou
qualquer outro inseto,
passei a mão rapidamente.
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O canhão
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Novamente o
inseto... Quando levei a
mão, percebi algo frio,
metálico... um revolver.
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- Agora cê vai
levá a gente lá em
Diamantina, sinão!...
Com voz grossa e firme,
ordenou-me a mulher do banco
de trás - armada até os
dentes... até os dentes que
nada, senti um canhão atrás
de mim!
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- Sem problemas,
minha senhora.
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Pensei e
matutei como me livrar das
feras - uma armada com um
revolver em minha nuca e a
outra, ao lado, com mais que
uma arma, uma artilharia!...
um perfume tonteante e
perturbador... quase um gás
letal - e aquele sorriso
maroto.
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O revolver na minha
nuca.
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Comecei a rezar o
"Credo". Minha mãe me
ensinou que, nas horas de
aperto, a reza é o "Credo".
Como também o rezo em latim,
os dois se misturaram!
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Eureka!
(ηὕρηκα/εὕρηκα)
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No final da grande
reta, ao lado do Trevão, haveria,
como de costume, policiais
com binóculos observando o
trânsito, principalmente por
causa dos caminhões de
carvão - sempre irregulares
no trânsito, nos documentos
e, mais ainda, na
mercadoria. Coitado de nosso
serrado! É uma região de
metalúrgicas – a maior
produtora de ferro gusa do
país e o carvão é usado nos
fornos de fundição.
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Comecei a correr
muito... e o canhão na nuca.
Canhão, não!... o
revólver! Estrada de pista
única para cada lado,
andando na da esquerda,
contramão, e quando ia
chegando bem perto do
veículo contrário, desviava
para a direita, voltando
para a da esquerda
imediatamente. Com isso
amedrontava um pouco as
senhoras, na esperança
de lá no final os policiais
virem-me estripuliando no
trânsito.
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- Hei, moço, cê
num tá legá cá gente não!
Esbravejou a mulher com o
revolver. Interessante,
quando a gente corre muito,
dirigindo, até quem está com
um revolver na mão receia e
perde um pouco da braveza,
das idéias e até da simples
fórmula de pensar.
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A reta
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A reta, mais ou
menos infinita, ia acabando.
O Trevão ia chegando. Como é
longe!
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E chegou!
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Graças a Deus lá se
encontravam, não um,
mas alguns policiais.
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- Num para! Gritou
uma delas.
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Continuei na mesma
marcha, apesar do sinal
deles... Ainda bem que não
atiraram!
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A gente entre dois,
ou mais, revólveres...
difícil pensar, agir, tomar
iniciativa.
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Logo ao lado, duas
viaturas encostadas,
distanciadas uma da outra,
na medida exata para se
colocar um carro. E o fiz.
Virei, de uma vez, noventa
graus, entrando naquela
vaga e saindo
imediatamente do carro, sem
que as mulheres pudessem
tomar alguma atitude.
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Os soldados vieram
em meu encalço, de
revolveres em punho. Ainda
pegaram a mulher com o
revolver na mão!.
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Na volta, entrei em
Sete Lagoas, indo à fábrica
onde trabalhava o
encarregado.
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Ele havia sido
demitido por roubo, dois
meses antes.
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Obs.: Em todos os
meus contos narro como se
estivesse no local no
momento do acontecido,
colocando o que pensei na
hora, e nem sempre o que
penso hoje, isto é, mesmo
que atualmente tenha outra
versão ou discorde do
escrito. BF
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 19/08/2010
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