Assombração
Pelos quinze anos, passava
férias na Casa de Campo...
Casa de Campo, onde
os internos passávamos as férias, quando estudávamos em um
internato em Congonhas, MG, Seminário São Clemente Maria, dos
Padres Redentoristas.
Estudávamos de oito a nove
horas por dia. Três semanas de férias em maio e em
setembro. De meados de dezembro ao final de janeiro, também
íamos para a Casa de Campo, aos pés da Serra de Ouro Branco -
caminhávamos a pé, umas três léguas, distância calculada pelos
colegas da roça - não passávamos férias nas casas de nossos
pais. Arrumávamos as trouxas - iam de caminhão - colocando as
roupas necessárias para todas as férias. Havia dois campos de
futebol, dois de vôlei e duas piscinas. Instalações simples e
a comida ótima e farta. Uma capela onde assistíamos à missa
diariamente.
Nessas ocasiões passeávamos
subindo a serra e acampando durante o dia. Lá em cima, além da
maravilhosa paisagem e vista quase a perder de vista,
chapadões e córregos, assim como uma linda e perigosa
cachoeira na parte de trás.
Nos terrenos da Casa de Campo
passava um ribeirão, cuja nascente é exatamente a do córrego
de cima da serra. Esse córrego, um pouco antes da Casa de
Campo, atravessava um sulco profundo cavado por ele entre as
pedras de calcário existentes por lá - chamávamos-lhe de
garganta ou funil. Tudo isso, atualmente, fica
debaixo d'água da represa feita pela Açominas para captação de
água industrial e potável.
Um dos passeios preferidos
era nas grutas atrás da serra - interessantíssimas, grandes e
lindas, com os maravilhosos salões coloniais, decorados com
estalactites e estalagmites de diversos tamanhos e formas -
não perdem em beleza e tamanho para a gruta de Maquiné ou
Lapinha. As companhias, donas do local, fecharam os
caminhos das grutas, com a anuência e tolerância da Prefeitura
local - Ouro Branco ou Ouro Preto. Proíbe-se o povo de
desfrutar as belezas de um bem público - como retiram calcário
do local, é bem provável, se nenhuma providência for tomada,
que aconteça o que tem acontecido com muitas delas nas nossas
minas gerais: virarão pó, para agricultura ou para a
siderurgia!
Numa das férias, acometeu-me
uma terrível dor de dentes. A bochecha inchou, inflamada.
Tendo aparecido um carro, coisa rara naquele tempo,
deixaram-me ir para Congonhas procurar um dentista - dentista
prático, o que havia. Fiquei só, no imenso internato, pois
seria atendido somente no dia seguinte.
O dormitório, no extremo
esquerdo do segundo andar. Eu, naquele mundão. A luz
elétrica, em dias alternados para cada lado da cidade.
Nada de luz naquele dia, ou melhor, naquela noite.
Achei alguma vela e resolvi
dormir na enfermaria, mais aconchegante - no extremo direito
do primeiro andar.
Deitei-me. Difícil dormir com
a dor, e quando enfim o sono chegava, percebi algum vidro de
janela quebrando ou sendo quebrado. Pensei logo num ladrão.
Mas ladrão para roubar o quê naquele lugar? Bons tempos,
quando ladrão era coisa raríssima.
Quase todo o prédio era de
piso de madeira e não de laje. Percebi passos ao
longe. Poder-se-ia adivinhar mais ou menos onde. Talvez alguém
no dormitório.
Nunca tive medo de nada, e,
apesar da dor e das noites mal dormidas ou mesmo passadas em
claro, dormi.
Pelas tantas da noite acordei
com barulho de passos no andar de cima. Estranhei, pois afinal
pensava estar só no prédio.
Alguém vinha em direção ao
lado direito do edifício - para o meu lado. Ouvi cada passo,
descendo a escada. Parava... descia... e foi aproximando-se...
aproximando-se... até chegar perto do corredor principal.
Com medo ou receio e
a escuridão total, deu para ver, através da fresta da
porta, alguma luz vindo - nessas horas, dois lumens viram dois
mil! Cobri-me todo. Eu ofegante e a luz mais perto, os passos
também. E a luz aumentava. Lentamente, caminhou todo o
corredor principal. Entrou no pequeno corredor da enfermaria.
Foi chegando... pelo caminhar, alguém avizinha-se da porta...
pegou no trinco torcendo-o... devagarzinho... e eu meio suado
- meio suado que nada, todo suado... e suor frio!
Abriu-se a porta, dei uma
olhadela e... o que vejo? - Uma assombração com seu lençol
alvíssimo e um lampião a vela numa das mãos! Pude comprovar
que lençol de assombração é realmente branco, branquíssimo, e
meio transparente!
Enrolei-me todo no
cobertor... encolhi-me o máximo. Fazia frio, e eu mais frio
ainda, e ele aproximando-se da cama... eu na posição fetal...
cutucou-me! Gelei-me. E murmurando:
- Sa-be on-de tem mais
co-ber-tor?... (acho que com mais medo que eu!)
Demorei-me um pouco a entrar
na realidade.
Que alívio! O Gentil, um
colega, enrolado num lençol, por causa do frio. Tinha vindo
depois de mim, chegou à noite, e, como não possuía chaves,
quebrou a vidraça e entrou.
Acabamos dormindo, os dois,
na enfermaria.
Naquela noite, além de
terrível, terminei dormindo com uma assombração!
E o lençol não era
branco!... E nem lençol!... Era um cobertor xadrez!... E
escuro!... Medo faz coisas!
Acreditem!