A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

           
Autoridade e violência
 
            Fabriciano, MG, nem Fabriciano era... era o Calado – até que era, mas todo mundo ainda falava Calado. No Calado havia uma pequena cadeia, com dois soldados e o chefe, o Cabo Arimateu.
A cadeia, com uma pequena sala de entrada, uma pequena cela e um cômodo menor ainda: a sala do delegado. Nem latrina tinha, aliás, tinha: um quintal – um corredor a céu aberto, que servia de latrina. Nem água e nem luz. Com tanto nem, deu para perceber a pobreza do lugar...
 
            Quando menino, ouvia-se dizer que, pela lei, qualquer cidadão, que praticasse algo errado, poderia ser preso não só por policiais, as únicas autoridades do lugar, mas por qualquer outro cidadão - papai confirmou-me.
 
            Naquela manhã, o lugarejo agitava-se como nunca. Uma desavença aqui, uma briguinha ali, uma briga acolá e um tumulto no final da rua.
            O Cabo Arimateu ficou alerta. Conversava pouco, e com poucos, com fama de muito violento com os presos; depois de prendê-los, mesmo na rua, quando levados para a cadeia, dava-lhes uns tapas e pescoções. Envergonhados, e temendo mais represálias dentro da cadeia, os presos comportavam-se como cordeiros acorrentados.
            No dia anterior, houve uma partida de futebol. O jogo fora terrível e a briga empatada: 4 x 4 - quatro mortos para cada lado - morreram oito! Verdade. Em Figueira, hoje Governador Valadares, seria bem pior: morreriam oito de cada lado!
            Eu bem pequeno, com uns seis ou sete anos, encontrava-me dentro do balcão da loja, quando vejo grande movimento na rua e um tremendo barulhão. Pessoas, com gritos de medo e pavor, corriam em uma direção, fugindo de algo. O pessoal passava, e passaram alguns segundos, quando vi vir rumo à loja dois caras correndo. O de trás com uma faca numa das mãos. O perseguido entrou na loja e o perseguidor, furioso, atrás. O pobre coitado, sem opção de fuga, no embalo, saltou por sobre o balcão, mas foi pego na barriga, ainda no ar, pela peixeira do cabra da peste.
            Eu dentro da loja, ainda deu para ver as tripas do agredido saindo e ele cair a meu lado - entre o balcão e a prateleira.
            A balbúrdia aumentada pelo grito de dor do ferido. Estupefato e apavorado, escondi-me no canto debaixo do balcão.
            De repente, chegou papai que se encontrava no interior da loja e, ao mesmo tempo, o Cabo Arimateu que foi logo pegando e empurrando o agressor contra as paredes e portas, deixando-o  mole. Outros, com papai, socorreram o ferido - resistiu por pouco tempo.
            O Cabo foi com o preso em direção à Delegacia, agredindo-o com chutes, pescoções e cassetetadas. Quando o pobre e infeliz sujeito não agüentava mais andar, com um tremendo palavrão, o Cabo deu-lhe dois tiros pelas costas.
            Mais tarde, o Cabo começou a andar, exatamente no meio da rua, todo posudo, com dois revolveres na cintura. O povo, com medo, disfarçava, passava o mais longe possível, ou se escondia.
            No dia seguinte bem cedo, quando se abriam as lojas, apareceu o Cabo com a cabeça erguida e os dois revolveres. Deu esbarrões em quem passava por ele e afirmou que acabaria com a bagunça na vila. Essa apresentação de otoridade e valentia durou umas duas horas.
            Papai ainda jovem, consideravam-no um conciliador e um conselheiro do lugarejo. Algumas pessoas indagaram de papai como agir. Se deveriam, e como, comunicar às autoridades de Antônio Dias, a sede do Município - o Calado nem Distrito era, era apenas uma Vila.
            Papai, um cidadão comum, diante da apreensão de todos, resolveu agir. Quando o Cabo Arimateu passou em frente à loja, foi a seu encontro:
            - Esteja preso! Vá na minha frente, até a cadeia. Vou lhe prender!
            O Cabo tremeu nas bases, estatelou-se, perdeu a cor - obedeceu.
            O povo veio atrás boquiaberto. Chegando à cadeia, papai lhe ordenou:
            - Cabo, pega a chave, abre a cela, entra, tranca a porta e me dá a chave!  
            Os covardes obedecem...
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 24/03/2009