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- Autoridade e violência
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Fabriciano, MG, nem Fabriciano era... era o
Calado – até que era, mas todo mundo ainda falava Calado. No
Calado havia uma pequena cadeia, com dois soldados e o
chefe, o Cabo Arimateu.
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A cadeia, com uma pequena sala de entrada, uma
pequena cela e um cômodo menor ainda: a sala do
delegado. Nem latrina tinha, aliás, tinha: um quintal –
um corredor a céu aberto, que servia de latrina. Nem água e
nem luz. Com tanto nem, deu para perceber a pobreza
do lugar...
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Quando menino, ouvia-se dizer que, pela
lei, qualquer cidadão, que praticasse algo errado, poderia
ser preso não só por policiais, as únicas autoridades do
lugar, mas por qualquer outro cidadão - papai confirmou-me.
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Naquela manhã, o lugarejo agitava-se como nunca.
Uma desavença aqui, uma briguinha ali, uma briga acolá e um
tumulto no final da rua.
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O Cabo Arimateu ficou alerta. Conversava pouco,
e com poucos, com fama de muito violento com os presos;
depois de prendê-los, mesmo na rua, quando levados para a
cadeia, dava-lhes uns tapas e pescoções. Envergonhados, e
temendo mais represálias dentro da cadeia, os presos
comportavam-se como cordeiros acorrentados.
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No dia anterior, houve uma partida de futebol. O
jogo fora terrível e a briga empatada: 4 x 4 - quatro mortos
para cada lado - morreram oito! Verdade. Em Figueira, hoje
Governador Valadares, seria bem pior: morreriam oito de cada
lado!
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Eu bem pequeno, com uns seis ou sete anos,
encontrava-me dentro do balcão da loja, quando vejo grande
movimento na rua e um tremendo barulhão. Pessoas, com gritos
de medo e pavor, corriam em uma direção, fugindo de algo. O
pessoal passava, e passaram alguns segundos, quando vi
vir rumo à loja dois caras correndo. O de trás com uma faca
numa das mãos. O perseguido entrou na loja e o perseguidor,
furioso, atrás. O pobre coitado, sem opção de fuga, no
embalo, saltou por sobre o balcão, mas foi pego na barriga,
ainda no ar, pela peixeira do cabra da peste.
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Eu dentro da loja, ainda deu para ver as tripas
do agredido saindo e ele cair a meu lado - entre o balcão e
a prateleira.
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A balbúrdia aumentada pelo grito de dor do
ferido. Estupefato e apavorado, escondi-me no canto debaixo
do balcão.
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De repente, chegou papai que se encontrava no
interior da loja e, ao mesmo tempo, o Cabo Arimateu que foi
logo pegando e empurrando o agressor contra as paredes e
portas, deixando-o mole. Outros, com papai, socorreram o
ferido - resistiu por pouco tempo.
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O Cabo foi com o preso em direção à Delegacia,
agredindo-o com chutes, pescoções e cassetetadas. Quando o
pobre e infeliz sujeito não agüentava mais andar, com um
tremendo palavrão, o Cabo deu-lhe dois tiros pelas costas.
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Mais tarde, o Cabo começou a andar, exatamente
no meio da rua, todo posudo, com dois revolveres na cintura.
O povo, com medo, disfarçava, passava o mais longe
possível, ou se escondia.
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No dia seguinte bem cedo, quando se abriam as
lojas, apareceu o Cabo com a cabeça erguida e os dois
revolveres. Deu esbarrões em quem passava por ele e afirmou
que acabaria com a bagunça na vila. Essa apresentação de
otoridade e valentia durou umas duas horas.
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Papai ainda jovem, consideravam-no um
conciliador e um conselheiro do lugarejo. Algumas pessoas
indagaram de papai como agir. Se deveriam, e como, comunicar
às autoridades de Antônio Dias, a sede do Município - o
Calado nem Distrito era, era apenas uma Vila.
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Papai, um cidadão comum, diante da apreensão de
todos, resolveu agir. Quando o Cabo Arimateu passou em
frente à loja, foi a seu encontro:
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- Esteja preso! Vá na minha frente, até a
cadeia. Vou lhe prender!
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O Cabo tremeu nas bases, estatelou-se, perdeu a
cor - obedeceu.
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O povo veio atrás boquiaberto. Chegando à
cadeia, papai lhe ordenou:
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- Cabo, pega a chave, abre a cela, entra, tranca
a porta e me dá a chave!
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Os covardes obedecem...
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 24/03/2009
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