A casa dos grandes pensadores

 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
A corte americana se deliciou com o assassinato do Bin Laden. Será que ela também se locupletou com o assassinato de 14 civis em Cabul?
          “O presidente afegão, Hamid Karzai, chamou neste domingo de "grave erro" e "assassinato", no sábado – 29/05/11, a morte de 14 civis em um bombardeio americano,  lançando "uma última advertência às tropas dos Estados Unidos" e exigindo o fim de suas operações unilaterais.
"Já foi dito em diversas ocasiões aos Estados Unidos e à Otan que suas operações unilaterais e inúteis causam a morte de afegãos inocentes, e que tais operações violam os valores humanos e morais, mas parece que não nos escutam", declarou Karzai em um comunicado oficial.”
            Até quando os americanos e europeus continuarão matando inocentes à troca de petróleo?
 
          A Vaca
     
Quem conta um conto, aumenta um ponto...
Conta a lenda... e de minha maneira conto eu:
Caminhava Jesus, alguns discípulos e os Apóstolos por sua terra, onde tudo é quase deserto, o sol escaldante e estafante. Andrajosos, cansados, suados, sujos, com sede e famulentos.
Numa lombada de montanha, São Pedro avista, lá em baixo, uma linda e próspera fazenda. Vai logo avisar a Jesus... e já vaticinando as benesses da descoberta:
- Venha ver, Mestre! Acabo de avistar uma linda fazenda, com plantações crescidas e viçosas, muito gado e ovelhas, além de um caudaloso ribeirão. Aposto que o proprietário, pelo jeito um grande trabalhador e eminente administrador, vai nos tratar da melhor maneira, dando-nos água e comida e até nos deixando tomar banho nas águas limpas e frescas do rio.
Chegando São Pedro à frente, e logo adentrando, abordou um empregado pedindo-lhe para chamar o proprietário. Diante do pessoal, o empregado não se fez de rogado, acudiu imediatamente ao pedido.
- O que querem? Da varanda gritou o proprietário, ao ver a turma de sujos e mal arrumados.
         São Pedro tomando a frente:
- Estamos em viagem e, como a fome e a sede nos aperta, achamos que o Senhor poderia arranjar algo para nos saciar...
- Vão embora vagabundos! Na minha fazenda só há água e comida para gente trabalhadora! Para vagabundos, imundos, maltrapilhos e andarilhos, tenho os cães. Fora! Fora! Vão procurar serviço!
Apressados uns, correndo outros, saíram à toda, os Apóstolos, os discípulos e Jesus, antes que os cachorros apontassem e aprontassem.
Mais adiante, ao lado da grande fazenda, uma cafua de sapé. Avistando-a, São Pedro, ainda ofegante:
- Mestre, o jeito é pedirmos pelo menos água a esses pobres coitados desta "modesta fazenda"! Tem até uma vaca!
- Vamos, retrucou mansamente Jesus.
Ao entrarem, foram recebidos por uma pobre senhora - suja, magra e mal vestida, com semblante de cansada, mas com um sorriso nos lábios - e um monte de meninos, mocinhas e rapazinhos.
- Pois não. O que querem?
- Estamos de viagem, com sede e fome... é que na fazen...
Antes mesmo de São Pedro acabar de relatar as amarguras, a senhora tomou a iniciativa:
 - Podem entrar e se lavarem na bica ao lado. Providenciarei algo para comerem.
Daí a pouco veio com uma gamela cheia de pães e broas e um jarro com leite, oferecendo-lhes:
- Nós temos a vaquinha e o leite sustenta a mim viúva e aos catorze filhos, quase todos pequenos. Comam, bebam e se deliciem à vontade.
Fartaram-se com broas e leite.
Agradecidos ao extremo, foram-se, pedindo a Deus abençoar e ajudar a bondosa senhora.
Voltando pelo mesmo caminho, subiram a montanha e, desta vez, avistaram a casa humilde e a vaquinha pastando. Jesus olhando:
- Pedro, repare bem a vaca... ela vai morrer.
- Mestre, não faça uma coisa dessas! Isso é ingratidão! A pobre viúva saciou-nos fornecendo-nos água, tirou o pão da boca dos filhinhos e agora mata o seu sustento? - Mate as vacas do fazendeiro rico... o desgraça...
Todos olhando, perceberam a vaquinha cair ao chão.
Contrariado e resmungando, São Pedro puxou a fila... foram-se.
   
         Dois anos mais tarde, voltou Jesus pelo mesmo caminho, agora com maior quantidade de discípulos. Tiveram visão diferente do lugar. Em vez de uma grande fazenda, havia duas. São Pedro, como sempre, tomou a palavra:
- Avisei-lhe, Mestre. Matou a vaquinha da pobre viúva e, vai ver, ela vendeu o pobre patrimônio para um rico senhor. Isso é um incentivo à globalização!
Jesus, em silêncio, encaminhou-se em direção à nova fazenda. Chegando, foi entrando, vindo, a Seu encontro, a mesma senhora viúva, agora mais bonita, mais vistosa, mais bem vestida e limpa - os filhos não apareceram... trabalhavam.
- Vamos entrar. Vocês estiveram por aqui um dia. Lembro-me de que, quando saíram, minha vaquinha morreu, não sei de que. Éramos nutridos por ela. Como não tínhamos mais leite para bebermos e para as broas, tivemos que procurar outras soluções para o sustento. Pus todos para trabalhar... Sabe, foi até bom! Com o trabalho e os ótimos resultados, nós nos animamos e progredimos. Entrem e vejam.
São Pedro calou-se.
 
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 03/06/2011