Costumes
Quando menino...
As escovas de dente eram de madeira, pelo de animal ou cerdas de
alguma planta – duravam muito pouco. Mamãe era zelosa, mas eram
muitos os meninos para escovar os dentes. Íamos ao dentista
prático, e muito bom, o Juvenal – com aquele motor tocado pelos
pés – as brocas rodavam numa vagareza de fazer medo – inexistiam
as tocadas a motor elétrico, e muito menos as modernas a ar
comprimido. As senhoras mais velhas mascavam fumo de rolo para
limpar os dentes.
Usavam-se bacia e cuias. O rosto era lavado em bacias
esmaltadas, de louça, cobre ou galvanizadas – nas casas,
exibiam-se jarros com bacias de louça fina, cobre ou prata e até
douradas. Eu ficava com nojo daquele negócio de jogar água no
rosto cheio de sabão e depois jogar de novo – a água cada vez
mais suja – mamãe além de mornar a água, ainda colocava água
para enxaguar. Tomava-se banho em bacias enormes – até os
adultos.
Não havia luz elétrica – só lamparinas, candeias, lampiões e
velas. Lampiões a querosene, os de pavio de algodão e os de
camisinha, ou ainda os a carbureto com um cheiro horrível.
As mercadorias chegavam de trem, em caixotes de madeira,
raramente caixas de papelão, e os carroceiros pegavam-nos – os
caixotes eram abraçados pelos arcos de aço – tirados com o bico
de papagaio. Manuelzinho e Joaquim, os carroceiros. Mais tarde,
eu rapaz, o Joaquim perdeu a perna e virou mendigo – eu falei
com papai que vi o Joaquim e ele me perguntou se eu havia lhe
dado esmola: - Ele ajudava a olhar vocês!
Havia o colocador de tampinhas nas garrafas – u’a máquina
manual. Papai entortava as tampinhas usadas e apostava com a
gente – eu não conseguia. Hoje eu entorto todas que encontro.
As garrafas de cachaça, cerveja, vinho ou conhaque, vinham em
sacos e envolvidas em uma capa de capim – depois vieram os
engradados, sem divisão e mais tarde dividiram-nos com madeira.
O primeiro cinema foi projetado na parede da estação ferroviária
– fui ao salão, atrás da parede, para ver se era lá que
aconteciam as cenas mostradas na tela – estava aberto para os
técnicos colocarem o maquinário.
Os trens eram a lenha – as marias-fumaça. O guarda-chave ia à
chegada, onde começava a duplicação dos trilhos, para mudar a
chave que indicava por onde o trem iria passar. Seu apito
característico chamava a atenção de todo o lugarejo.
Quando os raros caminhões vinham à noite, bem longe, atrás da
montanha da fazenda do Dr. Rubens, e como tudo era muito escuro,
dava para perceber os raios luminosos – os faróis com lâmpadas e
vidros comuns.
Uma rua tinha tanto barro que era chamada de Rua Seca; em
seu final localizava a casa do padrinho Natinho, esposo da Dona
Ritinha. Ele fabricava cangalhas. Com um quintal muito grande,
com inúmeras nascentes de água. Dona Ritinha tinha um enorme
pomar e horta e mandava vender as frutas e verduras na rua.
Quando eu passava uns dias por lá, eu comia muita banana – de
vez em quando mamãe se lembrava e fazia hora comigo. A
Nilda era uma filha de criação e tinha uma deficiência numa das
pernas e em um dos braços – dizia-se que ela era filha do Sô
Domingos e que sua mãe faleceu quando ela nasceu. Eu dormia no
quartinho em frente ao deles e todo dia levantava cedo para ir à
missa. Dona Ritinha possuía uma voz poderosa – seria uma
predecessora da Maria Alcinda.
Com meus sete anos, entrei na escola - uma só sala para o
primeiro ano e a outra para o segundo e terceiro ano. Minha
primeira professora foi a irmã da Dona Nair – era linda e tinha
um corpo! – Dona Nair depois foi também minha professora. O Lica
Messina, que era muito grande, brigou com Ivan Pires, muito
pequeno – o Ivan apontou o lápis e fincou no braço do Lica. O
Ivan era pequeno, magro e muito bravo. Durante anos o pedaço de
grafite ficou no braço do Lica.
Depois da festa do padroeiro São Sebastião, a da
rainha do congado era a maior do lugarejo – a Princesa, minha
irmã Rose, a caçula, foi princesa – eu, na casa da D Jandira do
Sô Messina, assistia a tudo, pois a Maria Lúcia, sua filha, era
a rainha.
Um dia fui a um piquenique, com a Dona Jandira e família – Ao
lado de uma lagoa depois da ponte do Rio Doce. Ainda havia
floresta fechada, mas já haviam algumas caieiras para fazer
carvão para os altos fornos das metalúrgicas da Belgo Mineira em
Monlevade e Sabará. Lembro-me que Dona Jandira abriu uma lata de
ameixas pretas, coisa rara para mim, e apanhamos muitas
castanhas, a saborosa sapucaia, de uma árvore debaixo da qual
nos acampamos.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 11/06/2009
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