Férias na fazenda I de III
Na casa da Vovó Olinda, mãe de meu pai, morava na
Rua do Pito Aceso, em Antônio Dias, leste de MG, quase sempre
havia alguém de fora, que ia para "fazer o grupo escolar" -
equivaleria, em importância para a época e em vivência e
saber, ao segundo grau de hoje.
Uma dessas pessoas, que passou alguns anos com a
Vovó, foi o José Avelino, pelos idos de 1930, e que mais tarde
se tornou meu Tio, pois se casou com a Tia Zina, irmã de mamãe.
Orminda - moça bonita, simples e simpática, filha do fazendeiro
Sô João de Paiva, também fez o grupo morando com a Vovó.
Nessa época ia eu para a casa da Vovó. Gostava de
comer seu arroz avermelhado, com urucum apanhado no quintal; o
feijão com farinha de milho - fubá torrado por ela - assim como
admirá-la tecendo os chapéus de palha. Ela plantava um pouco de
milho em seu quintal ou comprava as espigas, aproveitando as
palhas para tecer os chapéus e para seu pito de
fumo de rolo - Vovó, e as pessoas mais velhas, mascavam
esse fumo para limpar os dentes; o milho para as galinhas e os
sabugos para queimar no fogão e para a latrina - serviam de
papel higiênico (costume da época!).
Orminda me adorava e eu a ela. Com quatro para
cinco anos, pela primeira vez fui à fazenda com seu pai, na
garupa do cavalo.
A expectativa da chegada à fazenda superava a terrível e
incômoda viagem de duas léguas, de Antônio Dias até lá, na
garupa do cavalo do Sô João de Paiva - não tão terrível e ruim
assim. Chegando, a descida, ladeando a serra, um imenso paredão
desnudo, era realmente de doer. Dava-se um grito e a serra
respondia - quando me dei conta do eco. Nas descidas, andando na
garupa, a viagem era mais incômoda que nas subidas - chegava
cansado, moído e com feridas ou assaduras nas pernas... mas
valia a pena. A ida melhor que a volta. Acostumei-me com as idas
e vindas, pois durante as férias da Orminda, o passeio acontecia
duas vezes ao ano, até aos meus onze anos. Desconheço o porquê,
só eu entre os onze irmãos ia à fazenda - adorava. O José
Maurício, nunca foi - não nos desgrudávamos um do outro.
Dormia com a Orminda, em colchão de palha de
milho. Quantas e quantas vezes fiz xixi na cama... Acordava
molhado e sentia-me frio e desconfortável - é horrível levantar
assim (a mãe faz falta nessas horas, embora muito bem tratado...
mas a mãe da gente...). É por isso que todos nós temos que
ter bastante compreensão para com as crianças quando amanhecem
molhadas.
Andando descalço, aliás, todos andavam descalços
na fazenda, exceção feita ao Sr. João de Paiva, usava botinas, e
a Orminda, com alguns costumes da cidade. Mesmo na cidade,
calçados eram para poucos – para alguns. Eu mesmo, a maioria
das vezes, ia descalço para o Grupo Escolar. O tamanco servia de
chinelo ou sandália tipo havaiana – papai vendia muitos em sua
loja.