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Férias na fazenda - II de III
Gostava de jogar milho para as galinhas, buscando-o no paiol e
ir à manga para alimentar os porcos, assim como dar as espigas
para os cavalos - comparava a máquina manual de debulhar milho
com a boca do cavalo – debulhava uma espiga inteira quase tão
veloz quanto. Ver o gado sendo empurrado e escorregando
espetacularmente para dentro da vala, cheia de um remédio
fedorento, causava-me pena - para acabar com os carrapatos,
bicheiras, fungos e outras doenças de pele – o banheiro
carrapaticida.
A ordenha das vacas, atração a mais - o leite cru, ainda quente
com a temperatura da vaca... Hum! Delícia! As vacas produziam de
dois a 4 litros de leite por dia – uma só ordenha pela manhã. O
ruim era pisar descalço no estrume e urina do gado. Quando
esfriava, os meninos e empregados enfiavam os pés, para
aquecê-los, no estrume de boi ainda quente. À noite, na cozinha
de chão batido, acendia-se uma fogueira - onde se jogavam
espigas de milho verde ou batatas doces para assar e tudo
saboreado na hora – as pessoas em volta, sentadas em bancos ou
tamboretes toscos, contando casos e causos, rindo e se
divertindo – groteiro está sempre alegre e ri muito. A cozinha,
como em outras fazendas antigas, o cômodo maior e o principal.
Na grande varanda, tomando a frente da fazenda, estacionava o
Sr. João de Paiva pastando a vista e inspecionando os trabalhos,
o gado e as plantações - um pouco mais que o suficiente para o
gasto. Comentavam que se compravam sal e querosene, nada mais.
Sal grosso - vinha em sacos de 50 kg. Estranhava a vaca gostar
de comer sal, ainda mais, puro! O armazém de estoque de
mercadoria, ferramentas e máquinas em uso e em desuso era o
imenso porão úmido e escuro, com barranco no fundo e coisas
velhas jogadas por lá, e mais o paiol.
Nada elétrico. As lamparinas, candeias e poucos lampiões, cujos
combustíveis eram o azeite de mamona, extraído lá mesmo, ou
querosene e as velas de cera de abelha - iluminavam do início da
noite ao do dia - dormiam muito cedo e acordavam mais cedo
ainda.
Fazenda de fins do século XIX ou primórdios do século XX, com
costumes e usos do século XIX, e, quiçá, também do século XVIII.
Grande engenho, com enorme roda d’água, onde se moía a cana para
a rapadura, o açúcar e a cachaça. Movimento intenso de
homens trabalhando no corte e transporte de cana, na moenda, no
controle da água e da enorme roda-d'água, carregando bagaços,
mantendo o fogo aceso debaixo da grande tacha de cobre onde
fervia e se concentrava a garapa, para a rapadura, e, nesse
ínterim, moíam cana para também encher os tanques, ou dornas,
para a cachaça. Ficava curioso vendo todo o reboliço e de olho
na garapa - até hoje adoro e tomo garapa - caldo de cana -
sempre que posso. Depois, na cuia, com água fria, onde se jogava
um pouco do melado final, para constatar se estava "no ponto",
verdadeira delícia (chamava-se de bala puxa-puxa) que os caras
me davam com muita satisfação... e eu mais contente ainda.
Terminava quando as mulheres vinham para enformar as rapaduras e
a gente se deliciava com a rapa da tacha. Grandes tanques onde
se fazia o açúcar - cristais em cima e o melado escorrendo por
baixo, coberto com folhas de bananeira. Dias após, mais um
grande movimento para a destilação - via a cachaça brotar do
alambique. A região faz muito calor e mais calor ainda sentia-se
naquele ambiente onde tudo era quente e perigoso para mim,
criança ainda.
O meu grande amigo Arlindo, um pretinho neto de escravos -
preto feito carvão, até luzia! - cortava embira para vender -
nome da planta e da fibra - marvariço ou embira-branca. Dizia-me
que a embira, de uma fibra muito forte e comprida, servia para
fabricar cordas (corda de bacalhau, hoje usa-se quase
exclusivamente a de sisal), levada para o Rio de Janeiro.
Cortavam-se os caules, amarravam-se feixes, colocados dentro
d'água corrente, por alguns dias, num poço fundo no ribeirão lá
perto. Arlindo aproveitava para tomar banho. Alguns dias após, a
casca lavada soltava as fibras das varas - com mais ou menos um
metro a um metro e meio de comprimento. Separavam-se as fibras
dos caules, colocavam-nas para secar e vendiam-se a quilo, em
Antônio Dias. Os fazendeiros da região gostavam que se cortassem
as embiras, pois sujam o pasto e o gado não se alimenta delas -
as varas serviam também para professoras e pais bater nos
alunos... o terror dos meninos!- De marmelo a mais famosa das
varas.
Na roça, barbante coisa rara, amarravam-se tudo com embira, até
mesmo as botinas e sandálias, embrulhos e embornais - inexistiam
ainda sacolas e utensílios de plástico - de quando em vez
faziam-se a linha e o barbante com a roca, de algodão plantado
lá mesmo. As vassouras confeccionadas com uma planta fibrosa,
muito comum e muito resistente e cujo nome era exatamente
vassoura - duravam mais que as atuais.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 01/10/2008
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