A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

Férias na fazenda - II de III

 Gostava de jogar milho para as galinhas, buscando-o no paiol e ir à manga para alimentar os porcos, assim como dar as espigas para os cavalos - comparava a máquina manual de debulhar milho com a boca do cavalo – debulhava uma espiga inteira quase tão veloz quanto. Ver o gado sendo empurrado e escorregando espetacularmente para dentro da vala, cheia de um remédio fedorento, causava-me pena - para acabar com os carrapatos, bicheiras, fungos e outras doenças de pele – o banheiro carrapaticida.

A ordenha das vacas, atração a mais - o leite cru, ainda quente com a temperatura da vaca... Hum! Delícia! As vacas produziam de dois a 4 litros de leite por dia – uma só ordenha pela manhã. O ruim era pisar descalço no estrume e urina do gado.  Quando esfriava, os meninos e empregados enfiavam os pés, para aquecê-los, no estrume de boi ainda quente. À noite, na cozinha de chão batido, acendia-se uma fogueira - onde se jogavam espigas de milho verde ou batatas doces para assar e tudo saboreado na hora – as pessoas em volta, sentadas em bancos ou tamboretes toscos, contando casos e causos, rindo e se divertindo – groteiro está sempre alegre e ri muito. A cozinha, como em outras fazendas antigas, o cômodo maior e o principal.

Na grande varanda, tomando a frente da fazenda, estacionava o Sr. João de Paiva pastando a vista e inspecionando os trabalhos, o gado e as plantações - um pouco mais que o suficiente para o gasto. Comentavam que se compravam sal e querosene, nada mais. Sal grosso - vinha em sacos de 50 kg. Estranhava a vaca gostar de comer sal, ainda mais, puro! O armazém de estoque de mercadoria, ferramentas e máquinas em uso e em desuso era o imenso porão úmido e escuro, com barranco no fundo e coisas velhas jogadas por lá, e mais o paiol.

Nada elétrico. As lamparinas, candeias e poucos lampiões, cujos combustíveis eram o azeite de mamona, extraído lá mesmo, ou querosene e as velas de cera de abelha - iluminavam do início da noite ao do dia - dormiam muito cedo e acordavam mais cedo ainda.

Fazenda de fins do século XIX ou primórdios do século XX, com costumes e usos do século XIX, e, quiçá, também do século XVIII.

Grande engenho, com enorme roda d’água, onde se moía a cana para a rapadura, o açúcar e a cachaça. Movimento intenso de homens trabalhando no corte e transporte de cana, na moenda, no controle da água e da enorme roda-d'água, carregando bagaços, mantendo o fogo aceso debaixo da grande tacha de cobre onde fervia e se concentrava a garapa, para a rapadura, e, nesse ínterim, moíam cana para também encher os tanques, ou dornas, para a cachaça. Ficava curioso vendo todo o reboliço e de olho na garapa - até hoje adoro e tomo garapa - caldo de cana - sempre que posso. Depois, na cuia, com água fria, onde se jogava um pouco do melado final, para constatar se estava "no ponto", verdadeira delícia (chamava-se de bala puxa-puxa) que os caras me davam com muita satisfação... e eu mais contente ainda. Terminava quando as mulheres vinham para enformar as rapaduras e a gente se deliciava com a rapa da tacha. Grandes tanques onde se fazia o açúcar - cristais em cima e o melado escorrendo por baixo, coberto com folhas de bananeira. Dias após, mais um grande movimento para a destilação - via a cachaça brotar do alambique. A região faz muito calor e mais calor ainda sentia-se naquele ambiente onde tudo era quente e perigoso para mim, criança ainda.

O meu grande amigo Arlindo, um pretinho neto de escravos - preto feito carvão, até luzia! - cortava embira para vender - nome da planta e da fibra - marvariço ou embira-branca. Dizia-me que a embira, de uma fibra muito forte e comprida, servia para fabricar cordas (corda de bacalhau, hoje usa-se quase exclusivamente a de sisal), levada para o Rio de Janeiro. Cortavam-se os caules, amarravam-se feixes, colocados dentro d'água corrente, por alguns dias, num poço fundo no ribeirão lá perto. Arlindo aproveitava para tomar banho. Alguns dias após, a casca lavada soltava as fibras das varas - com mais ou menos um metro a um metro e meio de comprimento. Separavam-se as fibras dos caules, colocavam-nas para secar e vendiam-se a quilo, em Antônio Dias. Os fazendeiros da região gostavam que se cortassem as embiras, pois sujam o pasto e o gado não se alimenta delas - as varas serviam também para professoras e pais bater nos alunos... o terror dos meninos!- De marmelo a mais famosa das varas.

Na roça, barbante coisa rara, amarravam-se tudo com embira, até mesmo as botinas e sandálias, embrulhos e embornais - inexistiam ainda sacolas e utensílios de plástico - de quando em vez faziam-se a linha e o barbante com a roca, de algodão plantado lá mesmo. As vassouras confeccionadas com uma planta fibrosa, muito comum e muito resistente e cujo nome era exatamente vassoura - duravam mais que as atuais.

Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 01/10/2008