A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

           
         Filtro e Banheira
 
            Quando pequeno, em Coronel Fabriciano, MG, em casa não havia filtro - desconhecia. Tomávamos água da "biquinha" - uma nascente nas pedras ao lado da estrada de ferro - ou até mesmo do  Rio Piracicaba - colocada para esfriar numa talha, pote ou bilha.
            Na casa de um alto funcionário da Belgo Mineira, o Sô Messina, conheci o filtro:
            - Dona Jandira, o que que é esse negóço tão bonito aqui?
            - Isso é um filtro.
            - E serve pra que?
            - Tá vendo aquela água de chuva empoçada aí no quintal? Se você colocar aqui na parte de cima, ela vai sair limpinha aqui em baixo.
            - É?... E pode tomá?
            Esse o meu primeiro contato com o filtro d'água - impressionou-me bastante. De barro, em duas partes, mas envolto em chapa de ferro, pintada e com algumas pinturas de folhas e flores, tudo sobre uma estrutura de cantoneiras de ferro - lindo e imponente. Não era para qualquer um - só mesmo um alto funcionário da Belgo poderia ter. Naquele tempo, década de quarenta, um auxiliar de escritório, com o curso primário completo, era um alto funcionário. Aliás, já havia visto aquilo na casa do Doutor Joaquim, Superintendente da Belgo Mineira, mas não sabia pra que servia.
 
            Visitei meu irmão padre, Geraldo Ildeo; morava em Igarapemirim, PA, e, em frente à sua casa, há um caudaloso rio que segue o regime das marés, apesar de longe do mar. Da casa paroquial avista-se o rio; a certa hora cheio, correndo para o leste; daí a pouco o rio esvazia-se e não se avista mais; algum tempo depois, reaparece, mas correndo para o oeste - e assim é regido. Ficava atento ao relógio para observar o fenômeno desconhecido por mim, mas muito bem sabido até mesmo pelas crianças da região. As viagens de barcos também seguem os horários das marés, pois andar contra a corrente, além de atrasar, gasta-se mais combustível e forçam-se os motores - as crianças são capazes de lhe indicar o horário que você pode viajar, e para onde, em um qualquer dia do mês seguinte.
            Nas cafuas, de tábua, ladeando o rio, tomadas de água por baixo e laterais, os ribeirinhos usam sua água para banhos constantes e para tudo, inclusive para beber. Só que o esgoto das latrinas é jogado diretamente no rio - às vezes um buraco no meio da sala, acreditem! O rio leva o esgoto e depois, por causa da maré, o traz de volta. Pensando nisso, o Geraldo recomendava para que comprassem um filtro e, para os sem recursos, ele doava. Um deles agradeceu a doação - argumentou:
            - Sô Pade, tem mais de duzentos anos que a gente moramos aqui e nunca vi falá que morreu alguém porque não tinha filtro. Será que vai acontecê só porque o Senhô chegô? Deixa pra lá, porque vai dá muito trabaio, com esse calor a gente bebe água toda hora.
            No internato onde estudei havia filtros, nos quais era colocado um  produto químico (seria salitre, como chamávamos?) tornando a água salgada e, diziam, servia para acalmar a meninada em seus arroubos da juventude. O banho de água fria também ajudava, mas, como em Congonhas faz muito frio quase o ano inteiro, difícil agüentar. O que fazer - os estudantes não tínhamos saída.
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 07/04/2009