Igarapé-Mirim
Fomos nós, Tatiana, Fernanda e eu, para o Aeroporto
de Confins, perto de BH, MG. Embarcamos para Belém,
rumo a Igarapé Mirim.
Em Belém, PA, assaltou-nos um taxista. Chamei dois
PMs e me disseram nada poder fazer - pareceu-me um
conluio. No Hotel, um bom hotel, chegamos cansados,
fomos dormir e não conseguimos - havia uma música
constante no conjunto de som do apartamento. Falamos
com a telefonista e ela, depois de esperarmos
demoradamente, enviou um técnico, que virou e
revirou tudo, foi-se, deixando-nos com aquele
castigo chinês. Pedi para mudar de apartamento, mas
disseram ser possível, se se pagasse outra diária -
os bons hotéis de hoje são de grupos multinacionais
e agem como querem - naquele tempo nada de Procon -
o Procon foi uma das causas da derrubada do
Collor... contrariou muita gente grande!
No porto de Belém, superlotado, pegamos um barco que
nos deixou noutro, onde entramos em um ônibus lotado
- fui em pé até Igarapé-mirim. Como o povo pobre
sofre. Um companheiro de viagem, também em pé, vinha
de Carajás - na época área do ouro! – seus
penduricalhos deveriam ter pelo menos uns
dois quilos de ouro em jóias – brinquei com ele.
Em Igarapé Mirim hospedamo-nos na casa
paroquial, onde o Geraldo meu irmão era vigário.
Logo na chegada convidaram-nos para almoçar na casa
do homem mais rico do lugar - exportava madeira e
naquele ano exportara 2.600.000 m3; dono de barcos
que andavam quase toda a região amazônica; pegava
vários barcos e, por alguns dos grandes rios
afluentes do Rio Amazonas, ia subindo e comprando
madeira durante o percurso – chegavam até mesmo no
Peru; na descida colhia o comprado, formando
conjuntos de até dois quilômetros de toras, quase
sempre de madeira de lei.
Em Igarapé Mirim as areias são brancas, alvas mesmo,
e na região não há pedra; quem nunca saiu de lá só
conhece pedra olhando as bases da igreja e da
prefeitura. Para se fazer uma laje, usam-se cacos de
telhas velhas e, interessante, quando a laje é
concluída, soltam-se foguetes - é uma festa!
O local está praticamente no mesmo nível do mar, e
por isso o rio do lugar, bem largo, segue o regime
das marés - apesar de bem longe do mar. Há, na maré
da região, uma diferença de nível bem elevada -
entre a maré alta e a baixa há um tempo de pouco
mais de 6 horas. Da casa paroquial avista-se o rio;
a certa hora, correndo para o leste; daí a pouco o
rio esvazia-se e não se avista mais; algum tempo
depois ele reaparece, mas correndo para o oeste - e
assim é regido. As viagens de barcos também seguem
os horários das marés, pois andar contra a corrente,
além de atrasar, gasta-se mais combustível e
forçam-se os motores.
O povo, grande parte não possui geladeira, compra
comida para o momento; um pouco antes do almoço,
compram-se a carne, o arroz e o feijão, assim como
as verduras – todos os alimentos, inclusive as
carnes, são expostos em bancas no meio da rua,
apesar daquele calorão sufocante. Um litro de açaí
custava um real; toda alimentação acompanhada de
açaí: - Num sei cumê sem açaí! - diziam
todos.
Perto, uma fazenda do antigo prefeito - casa bem
simples; ele ausente, recebeu-nos a esposa -
desinibida e dinâmica, dona do mundo em que vivia.
Falou de seus muitos trabalhos e de tudo que a
fazenda tinha e produzia - gado, cacau, pimenta do
reino, tudo em grande quantidade. Impressionante a
simplicidade dessa mulher - e de sua casa também; na
casa de máquinas, um imenso galpão, havia tratores e
máquinas agrícolas aos montes; no pasto um gado
maravilhoso e, ao lado, enorme plantação de pimenta
do reino. De palavra fácil, relatava ela, suas obras
para a comunidade do município. Numa comunidade
relativamente pobre e pouca cultura, é admirável
encontrar uma pessoa como aquela senhora.