A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 

INFÂNCIA - I

003 – Lalá

Imaculada, minha irmã, com seus três anos, era magérrima. Por isso mamãe e papai tinham um xodó especial com ela. Até levou, de papai, o apelido de Lalá, em homenagem ao magérrimo Lamartine Babo, conhecido como Lalá - compositor famoso de tantos carnavais e de inúmeros hinos de clubes de futebol - do Flamengo, Vasco, Fluminense, América etc..

 Dona Nilza do doutor Rubens, diante da magricela afilhada, prometeu-lhe entregar, todos os dias, um litro de leite – promessa prometida e cumprida por longos anos. O leite vinha em lombo de burro, em latas de leite de uns 50 litros cada, e era vendido de porta em porta nas ruas. Usavam-se canecos de um litro para medir, caneco esse feito de uma lata de doce em calda ou coisa parecida, pois não havia ainda óleo de cozinha – de 900ml. Já naquele tempo o litro era de 900ml como hoje.

            Eu presente, mamãe fritando batatinha numa frigideira grande, no fogão a lenha, e a Imaculada, de dois para três anos, em pé em cima da parte do fogão onde ficava a lenha e o fogo. Como toda criança, ela não se aquietava e acabou tropeçando num dos paus de lenha e foi cair com todo o bracinho dentro da frigideira com banha fervente. Durante anos a pele de seu braço era um pouco fina e com manchas leves.

            Lembro-me vagamente do sufoco passado por mamãe e papai – para ela deve ter sido terrível.

 

009 – Tem gente lá atrás?

As mercadorias para a loja chegavam ao Calado através da estrada de ferro Vitória Minas – único  tipo de estrada para Fabriciano – ou no lombo de burros através das tropas. Toda estação tinha o salão, almoxarifado, para se colocarem os caixotes e outros pacotes. Retiravam-se os volumes por meio dos carroceiros – eles avisavam ao papai quando havia algo para ele. Para isso não havia veículo motorizado.

 Os trens de passageiros funcionavam diariamente, tanto para Vitória, quanto para Nova Era. De Nova Era a Belo Horizonte havia a Central do Brasil, cujo responsável geral era o Chefe Otávio, casado com a Tia Litinha, irmã de mamãe.

Apareceu um pessoal com um projetor de filmes. O Calado inteiro assistindo pela primeira vez a um filme, projetado na parede externa do almoxarifado da estação. Achei o máximo. Quando terminou, eu pensava que alguma coisa acontecia dentro do almoxarifado e aparecia na parede. Como tinha bastante intimidade com o pessoal da estação, fui conferir se aquela gente do filme estava lá dentro. Com meus cinco ou seis anos, saí decepcionado... e nada de perguntar algo a alguém... Mas no dia seguinte, dia claro, voltei para conferir!

Calado é o antigo nome de Coronel Fabriciano – leste de MG.

 

021 - Carta aérea

Entendia nada, mas ouvia falar em guerra – a Grande Guerra, a Segunda Guerra Mundial. Papai assinava a revista Em Guarda, uma propaganda americana muito bonita, com maioria absoluta de fotos da guerra; buscava-a no Correio, cujo agente, o Senhor Magalhães, era pai do Celso meu colega de escola e amigo, além de afilhado de papai e mamãe. Fotos de soldados e mais soldados, tanques e mais tanques e milhares de aviões soltando bombas e mais bombas: olhava, achava lindas as fotos, mas compreendia pouco o porquê de tanta bomba, tanta destruição e tanta gente morta.

Outra revista que papai assinava era Seleções – também propaganda americana. Revistas infantis... inexistiam!

            Apanhei a correspondência no correio e vim com um envelope com umas tarjas verde-amarelas nas bordas. Dona Telica do Sô Chiquito Quintão, mãe do Hilton e do Zé, meus vizinhos e colegas, além de me explicar que as tarjas significavam carta aérea e não comum, e que a taxa para seu envio era mais cara; admirou-se de eu ler o número 1944 estampado no envelope – eu com seis para sete anos. Hoje em dia os meninos de três ou quatro anos já lêem.

            - Mais aqui nunca veio e nem vem um avião, como é qui ela vai?

            - Você tem que saber se, para onde você vai enviar, há possibilidade de ser por avião ou por trem.

            - Ah!... (fiquei na mesma!).

 

011 - Fogo na flanela!

Fabriciano é terra quente. Em terra quente as blusas de frio são pouco usadas. No inverno, para espantar o frio, vestíamos roupas de flanela e, de quando em vez, pouca gente, as roupas de lã. Lã dava muita alergia e nylon não existia.

           Nos recreios do Grupo Escolar os alunos lanchávamos em casa. No inverno, sentado à beira do fogão a lenha, meu blusão de flanela pegou fogo. Queimei todas as minhas costas. Uma terrível dor! Foi à tarde. Mamãe tirava uma soneca. Chamei-a. Ela continuava dormindo, não sentindo a importância de minha queimadura. De quando em vez o cansaço vencia-a. Acho que não demorou tanto: as dores encompridaram os meus minutos. Não havia carro - fui a pé para o hospital. Que dor! E bota dor nisso!

No Hospital Siderúrgica, durante meses, para a cura de duas grandes feridas nas costas, atendia-me o enfermeiro Tarzan. Quando rapaz, passando por São Paulo, bati nas costas de um guarda civil para pedir-lhe informação. Virando-se, quem vejo?... O Tarzan!

 014 – O primeiro cemitério

No pé do morro, quase esquina com a Rua Coronel Silvino Pereira, havia o primeiro cemitério do Calado. Ergueram a Capelinha de São Sebastião no sopé. Como o terreno era muito arenoso, a enxurrada acabava abrindo as covas e carregando ossos e defuntos – cansei de ver. Abriram uma rua em frente à Capelinha e passaria exatamente no cemitério, por isso transferiram-no para o outro lado da linha de ferro, onde hoje há uma escola do Senai. Lembro-me do pessoal cavando e retirando ossos, cabelos e restos de caixões. Demoliu-se a Capelinha para a construção da nova Igreja de São Sebastião, a Matriz, que tem a torre na parte de trás - e lá não havia uma Chica da Silva, e muito menos diamantes! Pena! Era simples e linda! Tinha até um coro onde o Sô Lambert tocava o harmônio e as moças cantavam lindo! Com tanto terreno disponível, poderiam ter passado a rua contornando seus lados, mas os brasileiros temos o costume de destruir as antigas igrejas, casarios, bibliotecas, cafés, praças, cinemas, colégios e monumentos para construir novos – quase sempre não tão lindos e artísticos. Nossos políticos gostam de demolir as coisas velhas para erigir coisas novas, normalmente  monstrengos sem beira nem eira.

No projeto inicial da Matriz de São Sebastião, na parte lateral seriam construídos prédios para Assistência Social, e na frente uma imensa escadaria. Infelizmente esses projetos foram abandonados e essas duas partes ocupadas por um imenso supermercado, descaracterizando o que seria um atrativo da cidade - tamparam até a porta da Matriz. O dinheiro falou mais alto.

 

016 - Arranca toco

 

Em Fabriciano, onde hoje é o Fórum, havia um campinho de futebol, freqüentado por mim. Começou em um terreno com pouco mato, que foi desaparecendo com os arranca tocos, assim chamadas as primeiras peladas no local, pois os tocos existentes iam sumindo com o tempo. Jogava-se descalço – quando a gente chutava um toco desses era uma tremenda dor, um deus nos acuda! Mas a pelada continuava! O campo servia como matadouro de boi ou porco. A barrigada do boi, incluindo o bucho, fígado, rins, coração etc. e a cabeça e o rabo, doavam-se para os pobres. Depois começaram a vender o coração e os miolos. Bebia-se o sangue ainda quente – as mãos da turma que matava serviam de conchas - ou recolhia-o para o preparo de chouriço de boi (falava-se boi e não vaca, como hoje). Vendia-se o sebo para fazer sabão caseiro – tomei banho, muitas vezes, com esse sabão. Atualmente vende-se tudo do boi, até mesmo o berro é gravado e aproveitado em filmes ou gravações de comerciais.

Ah!... A bola era feita com meia ou com bexiga de boi! Havia a bola de borracha – durava pouco, pois rasgava logo, além de meio pesada e queimava o pé quando chutada com força. Bexiga é sinônimo de bola e nome de bairro em São Paulo.

Os bois bravos eram levados para o matadouro amarrados pelo focinho e acompanhados de cavaleiros e andavam pela rua do vilarejo espantando a todos. Acho que as únicas coisas que a meninada tinha medo – menino morria de medo de soldado também.

            Vez ou outra mamãe ganhava uma barrigada de boi – com o tempo, passou a comprá-la – uma trabalheira para prepará-la e conservá-la. Eu sempre gostei dos miúdos de boi ou de porco advindos das barrigadas.

            Quando passo pelo local lembro-me do campinho e do pessoal matando os bois, assim como dos coros de boi esticados ao sol para secar.

Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 29/06/2009