A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
INFÂNCIA II
 
090 - Caboco
 
            Quando papai foi para Fabriciano, antes mesmo de se casar, foi atrás do cunhado Durval, com quem trabalhou durante algum tempo.
Papai teve oportunidade de comprar a casa em frente ao bar e restaurante do Sô Durval; montou uma loja de mantimentos, panos e armarinho e nela nasceram seis de seus doze filhos.
A pequena loja ia de vento em popa e começou a incomodar o vizinho Coronel Silvino Pereira, pois muitos de seus clientes debandavam para a nova loja. Apareceram os ciúmes dos dominantes do vilarejo, achando que o sucesso do Zé Franco prejudicava a loja do dono do pedaço: o Coronel Silvino. A coisa ficou tão feia que o medo e o nervosismo da mamãe fez com que papai quisesse mudar para Antonio Dias. Foi de mala e cuia esperar o trem na estação ferroviária.
Encontrar alguém gordo era coisa rara. Doutor Joaquim, Superintendente da Belgo Mineira, era um pouco barrigudo, mas não a ponto de ser chamado de gordo. Gordo e barrigudo era o Caboco, casado com a Dona Chica, irmã do Coronel Silvino Pereira.
O Doutor Joaquim era o todo poderoso da região, mas pelo cargo que exercia. O Nemrod do lugar era o Coronel Silvino: não caçava, mandava caçar.
O barrigudo Caboco era o barbeiro de papai. Quando soube que papai estava na estação para ir embora, foi a seu encontro - chegando à estação, foi logo pegando as muambas de papai, colocando-as numa carroça e trazendo tudo de volta para casa.
Nunca mais houve conversas sobre a loja de papai. Caboco sabia onde e como pisava...
 
 
011 - A bereta da Dona Marcionília
 
No Calado, hoje Coronel Fabriciano, MG, à boca pequena, ouvia-se dizer que, quando empregados recebiam um bom dinheiro do Coronel Silvino Pereira, este guardava o dinheiro até eles resolverem ir embora. O Coronel Silvino - o Camargo Correia da região - construía a estrada da Vitória Minas e também era empreiteiro de carvão da Belgo Mineira. Os empregados, indo embora, pegavam o dinheiro e a estrada, a pé ou a cavalo. Um pouco depois do hoje Bairro Mangueiras era dos bons lugares para o assalto. Passando alguém, ou o revoar dos urubus, encontrava-se o cadáver. A população entrava em reboliço, dormia mais cedo, as portas mais bem fechadas. Dona Marcionilia, a esposa do Coronel, baixinha e gorda, fechava a cara, colocava uma bereta na cintura, exibindo-a, e rondava sua residência de esquina, andando no passeio de um lado a outro, por toda a noite.
           Alguns dias passados, e a calmaria voltava à vila. Desconheciam-se os motivos, esqueciam-se o assalto, a segurança, a morte, o morto – tudo como dantes na terra de Abrantes!... como diria minha sogra, Dona Rosa.
 
 
024 - O beco
 
Na casa onde nasci havia um beco lateral de pouco mais de um metro e meio de largura. Pelo menos por duas vezes alguém pegou uma onça, colocou-a numa jaula e pediu para papai guardá-la – colocava-se a jaula nesse beco. Lembro-me que uma vez, acho que ainda usava fraldas de pano comum branco, andei até lá e veio a empregada doméstica correndo, apavorada por minha presença naquele lugar, e me carregou às pressas, levando-me para dentro de casa.
            Mais tarde, com o advento da Acesita, apareceram algumas firmas comerciais de fora, como as Casas Pernambucanas e as Casas Bury – não havia lojas de eletrodomésticos, só de panos. Esta firma comprou o imóvel ao lado e queria apossar-se do beco. Papai, como sempre, nada fez contra, mas o senhor que alugava a casa, e que se servia do beco como entrada lateral de sua loja, com a ajuda de nosso amigo o Senhor João Bragança, deu a maior briga com as Casas Bury, embargando a obra. Mesmo assim as Casas Bury ficaram com a metade do beco, sem nada pagar ao papai – dono, havia mais de trinta anos, do local.
Contra força maior, não há resistência! Os poderosos cada dia mais poderosos! Retrato de nosso Brasil...
 
 
208 – O fiscal Sô Calisto
 
No Calado, as lojas, abertas às sete da manhã, tinham que ser fechadas às 7 h da noite – e sem benesse de minutos ou até mesmo minuto, tanto para o abrir, quanto para o fechar! Sô Calisto, o fiscal do município de Antonio Dias, tava de olho! Parava no meio da rua, fitava ele o relógio de bolso, olhava de relance cada loja da rua, qualquer uma aberta após as sete em ponto era multada. 
- Cumpade Zé Franco... não se multa cumpadres qui nem o cumpadre Zé Franco... Falava baixinho!
Quando morava no Rio, mamãe escreveu-me para eu ir visitar a Diretora do Hospital Militar, pois ela era uma irmã de caridade nascida em Antonio Dias: irmã do fiscal Sô Calisto. Lá estive por duas vezes.
 
 
079 – O Plástico
 
            Quando começou a aparecer o plástico, uma das coisas que mais me chamou a atenção – eu com uns oi ou nove anos – foi o cinto para calças de homens e meninos. Nessa idade a gente acha que não mais é criança, sente-se homem adulto que deve usar cintos. Os primeiros cintos de plásticos - bem puros, de diversas cores - nem translúcidos eram, eram transparentes mesmo. Como sempre, assim que chegavam, pedíamos ao papai e ele nos presenteava – mamãe ficava brava, mas ele não se importava – sempre atendia nossos pedidos.
            Colocávamos os cintos transparentes e eles iam se esticando, esticando, e nossas calcinhas acabavam descendo pernas a baixo. Depois de pouco uso, enjoávamos deles e voltávamos com eles para a loja, onde eram vendidos.
            Quando tinha uns dezoitos anos, conheci o velotrol – um velocípede de plástico . Não aprovei muito a idéia de substituir a madeira e o metal por plástico. Para meu espanto, a coisa pegou e deu certo.
            No meu primeiro carro, o acelerador de metal se quebrou. Pedi para trocar na concessionária. Quando descobri que o novo acelerador era de plástico, voltei à concessionária para reclamar. Convenceram-me que o mundo estava mudando.
 
 
023 - Os hotéis
 
Dois hotéis no Calado: o Hotel do Sô Cornélio e a pensão da Baiana.
 De mais luxo o hotel do Sô Cornélio, um empreiteiro de carvão da Belgo Mineira.
A pensão do Sô Armando, um turco baixinho e gordo, e da Baiana, era mais popular – aliás, chamava-se Pensão da Baiana.  Criavam um menino, o Calango, acho que seu nome era Geraldo - capeta em pessoa: endiabrado! De quando em vez a Baiana (Dona Praxedes) acorrentava-o no pé de uma mesa.
De quando em vez, mamãe comprava, e eu buscava, comida da Baiana. Mandava ela ovas cozidas de galinha e de peixe, caviar – eu não gostava das ovas de peixe, mas das de galinha comia os ovinhos maiores.
            Sô Armando tinha a mania de pegar a gente pela cabeça e levantava. Doía muito e eu fugia dele – quando encontrava a gente despercebida.
A pensão da Baiana ficava ao lado de nossa loja, tendo apenas uma loja no meio. Sô Armando construiu um prédio alto na rua detrás e mudou para lá – virou hotel!
 
 
033 – Uma lâmpada de 60W!
 
No Calado – antigo nome de Coronel Fabriciano, MG - na rua onde se localizava o escritório da Belgo Mineira havia postes com lâmpadas – as simples de uns 60 ou 100 Watts. Na Rua Cel. Silvino Pereira colocaram-se três postes, até a esquina da rua que vinha da Capela São Sebastião – em frente ao atual Hotel Avelino. Nas casas dos funcionários da Belgo havia eletricidade.
Como morávamos longe, na Villa Deuzinha, a pedido de papai, o Dr. Joaquim pôs mais dois postes – o último em frente à nossa casa. Naquele tempo esse longe não passava de uns duzentos metros de nossa loja! Dentro de casa e na loja, nada de luz. Com o passar dos anos, permitiu-se colocar uma lâmpada de 60W em nossa casa – uma, e somente uma! Instalou-a na cozinha, perto do corredor, pois assim iam alguns lumens até à sala e aos quartos – na época a casa não tinha forro.
Quando Doutor Rubens passou a Superintendente da Belgo, em lugar do Doutor Joaquim, escancarou-se a porteira: deu luz pra todo mundo!
 
 
020 – E o Toninho brigando!
 
O Toninho do Sô Manuelzinho, meu colega, era o nervoso da sala e do Grupo Escolar. Brigava todos os dias. Terminadas as aulas, via-se aquele aglomerado de meninos: briga do Toninho contra um ou contra todos - uma guerra! Saía a meninada correndo atrás dele e ele enfrentava a todos. Até poeira se levantava da rua!
No Grupo, os alunos não usavam uniformes e a maioria andava descalça – até eu. Durante o recreio, íamos para casa lanchar, ou ficávamos brincando na rua. E o Toninho brigando! Com o passar do tempo, fechou-se o pátio, mas não havia merenda - nem se ouvia falar em! E o Toninho brigando!
Nunca brigou comigo - ou eu com ele!
Minha irmã freqüentou o Curso Técnico de Contabilidade. Não se cansava de elogiar o aluno mais dedicado, de melhores notas e o mais inteligente do curso.
Quem era?...  O Toninho. Acreditem!... E não brigava!
Morreu novo. De câncer na língua. Maldito cigarro!
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 17/07/2009