A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
 

Quem conhece o Inhotim está ganhando... e muito! Uma maravilha de Jardim Botânico, onde o paisagismo teve influência marcante de Roberto Burle Marx (1909-1994), na cidade de Brumadinho, MG, a 60 km de Belo Horizonte. O jardim mais bonito que já vi. Artes e mais artes expostas a céu aberto ou em galerias temporárias e permanentes, embora haja bastante arte contemporânea, a meu ver, muitas sem nada dizer e de mau gosto.

 Arte contemporânea, na maioria das vezes, é o atestado de incompetência em arte – muita bobarte ou tapiarte...

Laqueadura de trompa

         Tarde movimentada na rua: matar-se-ia um porco muito gordo... imenso, como nunca se tinha visto por lá. Toucinho valorizado bem mais que a carne - não havia ainda óleo de soja, ou outros óleos, para o uso diário, como hoje.

         Havia o matador e o castrador de porcos - o castrador de porcas também existia e era profissão mais especializada; inexistiam os hormônios para que os animais engordassem - castrar, a arma eficaz.

O açougueiro - ou melhor, o matador de porcos - preparou as facas, o machado, para dar a pancada na fronte e para separar os ossos e costelas; as folhas de bananeira, as verdes para, no chão da rua sem calçamento, servir de assoalho e proteção contra a sujeira e lama formadas e as secas para chamuscar todo o pêlo; as panelas, ou latas de querosene, para ferver a água, e canecões para jogá-la fervendo em cima do porco - ou capado - e, com o raspar das facas, tirar-lhe a primeira pele chamuscada e o resto de pêlos. Fogão feito na rua mesmo, com três pedras, e facas amoladas numa pedra qualquer, encontrada ali por perto, ou as do fogão. Na época inexistiam, nem lá e nem nas redondezas, ruas pelo menos calçadas, muito menos asfaltadas - talvez na vila uma pessoa sequer conhecesse o asfalto.

A matança, gritos e berros!

         Depois da pancada com o olho do machado, o porco gritava e berrava muito, desesperadamente, mas sucumbia, esperneando, e morria de pernas para o ar. Sangrado, o sangue guardado para o chouriço. Entrava em ação o fogo e logo após a água fervendo para lhe tirar o pêlo restante. Usavam-se a faca e o machado para abri-lo, cortando os ossos para separação ao meio e as bandas colocadas ao lado enquanto se preparava a barrigada. Bandas, as duas partes em que se dividia o porco, compostas do toicinho, da carne e dos ossos. Na barrigada separavam-se os rins para doá-los ao botequim mais próximo, servindo de salgadinho para as pinguinhas dos bebuns - prêmio aos sapos e espectadores!

Zé Barriga de Porco

         Papai contou-me que em Melo Viana, distrito de Fabriciano, MG,  pelos idos de 1930, o açougueiro e mais algumas pessoas mataram um porco no meio da rua, coisa corriqueira. Ali mesmo abriram a barrigada, espalhando as fezes do porco pela rua, tendo apenas o cuidado de se colocarem algumas folhas de bananeira para as bandas serem postas em cima - o normal de sempre.

         Ajuntou-se muita gente e, conversa vai, conversa vem, alguém discordou de alguém, o sangue subiu à cabeça de cada um; um pulou pra cá, o outro pulou pra lá e um dos dois, e depois o outro também, puxaram facas e, no vaivém de facas no ar, a barriga de um deles acabou sendo atingida, abrindo-se de cintura a cintura. O homem caiu no chão e o intestino saiu espalhando-se no meio das fezes de porco, misturadas com lama da rua. Seguraram-no, jogaram um balde de água - do córrego do fundo do quintal das casas de um dos lados da rua - para uma lavada primária nas tripas imundas, colocando-as para dentro da barriga. Costuraram-lhe as carnes com uma agulha achada na casa de um dos vizinhos, como se estivessem costurando um saco de linhagem ou a barriga de um porco, muito comum naqueles tempos.

         O pobre coitado não teve nem o direito de sentir dor. Acho que nessas horas, com o sangue quente, com a raiva enchendo o coração e a cabeça, é tanta coisa para se pensar que, impensando na dor, ela  desaparece. É... inexiste dor, há sensação de dor, como me disse um professor de parapsicologia.

         Vinte e cinco anos depois conheci o "Zé Barriga de Porco"!

A Princesa

         Em São Paulo trabalhei no DAEE, na Secretaria de Obras do Estado. Estagiei em um Departamento Federal, durante três meses, onde a orientadora Nancy, com curso superior na área, encarregava-se de dar as informações do Departamento para as rádios, jornais e TVs.

         Nancy tinha três filhos, sendo dois meninos e a caçulinha - demorou um pouco a vir. Depois de desejos, tentativas, novenas e mais novenas e promessas e mais promessas - nasceu uma menina, uma gracinha. Conheci-a beirando um ano. Após o nascimento da princesa, Nancy fez laqueadura das trompas - não desejava mais ter outros filhos.

         A caçulinha começava a andar, segurando-se em tudo que encontrava pela frente, como toda criança de sua idade, com a vontade férrea de ver e pegar e mexer em tudo. Em uma dessas tentativas de andanças, somente de calcinha, a trancos e solavancos, agarrou-se ao vidro colocado em cima da penteadeira do quarto da mãe. O vidro, de forma retangular, de uns trinta por cento e vinte centímetros (30cm x 120cm), foi puxado pela menina, caindo em pé e quebrando-se ao meio, e, em se partindo ao meio, a parte de cima, afiada feito navalha pegou logo abaixo dos ossos das costelas, na boca do estômago, cortando-lhe a barriga de fora a fora e o intestino pulando para fora.

         Correram com ela para o Hospital das Clínicas, o mais famoso de São Paulo e indicado no momento, mas os médicos recomendaram transferi-la para o Rio de Janeiro, onde havia um hospital com gente e aparelhagem mais especializadas para o caso. Colocaram-na em um avião e a levaram.

         Infelizmente a princesa não resistiu aos ferimentos e ao tratamento.

         Como diria minha mãe: - Sujeira não mata ninguém

 
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 20/07/2010