Médico Presidente
Nas eleições de 2004, impressionante a quantidade de médicos
candidatos - candidatos a tudo. Pelo visto, perto da metade dos
médicos da região almejava um cargo público.
Na América Central, um monte de países paupérrimos ?
principalmente as "Republiquetas das Bananas", cujas produções
são quase exclusivas de bananas e mesmo assim em mãos de
multinacionais.
Pela proximidade, fáceis de serem explorados e espoliados pelo
primo mais rico ao lado ou sem esforço para os espertinhos, e em
particular os políticos, saírem com as riquezas desses paises.
Seus políticos viviam inconstitucionalíssimamente ou
antinconstitucionalissimamente muito bem!
Em uma das republiquetas, das mais pobres, havia um médico, tipo
o de cidade do interior, médico de família; o povo confiava e se
valia dele para todos e quaisquer incômodos ou doenças. Hoje,
temos um ou mais médicos para cada doença - há uma coleção de
médicos: o cardiologista, o urologista, o gastroenterologista,
o dermatologista, o ortopedista, o oftalmotorrinolaringologista
e outros mais com nomes e sobrenomes complicados. Há recursos
litotrípticos, há doenças como a anorexia, há sintomas como o
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico (a maior palavra
de nosso idioma e talvez, por ser uma região de vulcões, uma
doença existente por lá - o estado de uma pessoa acometida de
uma doença rara, provocada pela aspiração de cinza vulcânica) -
temos que saber grego para podermos gravar e tentar aprender, ou
pronunciar, esses nomes gigantescos, escalafobéticos,
estrambóticos, estonteantes e desconhecidos.
Médico querido e admirado na pequena cidade, foi granjeando
merecida fama nas vizinhas e, em pouco tempo, país pequeno e de
poucos médicos, em toda a nação. Não é que fosse um grande
médico, um grande especialista - apenas um pequeno grande homem
de bondade imensa e, lógico, de certa capacidade.
No país das bananas haveria eleição. Como os políticos
"melhores" debandavam-se para o paraíso vizinho, poucos se
candidataram e todos de duvidosas capacidades administrativa e
política - se é que havia algum com algum talento, mesmo entre
os que se dispersaram.
Os partidos reunidos vislumbraram uma luz no fim do túnel: o
médico querido e amado por todos seria o candidato ideal. Teria
probabilidade maior de ganhar as eleições - conditio sine qua
non entre políticos.
Convidaram-no.
Difícil convencê-lo de tamanhas empreitada e responsabilidade e,
quando o fizeram, quis ele argumentar:
- Com tantos políticos...
Cortaram-lhe a primeira frase e começaram a gritar seu nome e a
aplaudi-lo. O aplauso, e até mesmo a euforia, tomou conta do
país.
Elegeu-se o doutor por unanimidade absoluta, apesar de nada
prometer e de se reservar o direito de nomear todos os
ministros.
A posse do novo presidente foi sóbria, como convinha ao pobre
povo sofrido e desvalido, fruto de desmandos e ditaduras
anteriores. O Presidente marcou reunião ministerial para a tarde
do dia da posse.
- Senhores Ministros - abriu a reunião o Presidente - esperamos,
cada pessoa do povo e eu, que cada um dos senhores cumpra com
seu dever e que suas funções sejam exercidas para o bem do país.
Os Ministérios mais importantes, de maiores recursos no
orçamento, Aeronáutica, Exército e Marinha, terão a nobre
missão, conforme suas atribuições e treinamentos, de alargar
nossas fronteiras, uma vez que o nosso país tem parco ou nenhum
recurso natural e esta é a única saída que antevejo para nosso
futuro.
Coloquem os homens de prontidão e amanhã mesmo, de surpresa,
invadiremos os Estados Unidos.
Saindo de estalo, as palavras do Presidente, sem alguma
preleção, deixaram os ministros atônitos e boquiabertos.
- Senhor Presidente - levantando-se o Ministro da Aeronáutica -
temos apenas três aviões, dois monomotores precisando de
manutenção e um bimotor... talvez chegue à fronteira. Agora...
invadir os Estados Unidos...
- Senhor Presidente, nossos homens, poucos e mal vestidos, sem
mesmo calçado para todos, mal alimentados, famintos, seriam
incapazes de chegarem à fronteira - afirmou o Ministro do
Exército... e continuou: invadir os Estados...
- Senhor Presidente, nosso único barco sofreu avariações no
casco, a tripulação dorme em terra, e nem mesmo nossas costas
marítimas são vistoriadas faz tempo. Como chegar aos...
Interrompendo-o, afirmou o Presidente:
- Como é impossível invadir os Estados Unidos, conquistemos a
França ou a Inglaterra...
Calaram-se os Ministros. Mumificados, cada um olhava estarrecido
para o novo Presidente, desacreditando ser real o ouvido.
- Dar-lhes-ei missão mais fácil e promissora, para os Senhores
Ministros das armas gloriosas de nossa terra. Cercaremos por ar,
terra e água, o vizinho México e teremos um grande e rico país
para nosso pobre povo.
Embasbacados cada Ministro das gloriosas armas e os outros
também, emudeceram, até que o Presidente, depois de pausa
proposital:
- Senhores Ministros, já que é impossível invadir os Estados
Unidos, por causa de seu poderio, nem a Inglaterra e a França,
por estarem longe, presumo, ou apossarmo-nos do país dos amigos
mexicanos, mudemos de intenções e caiamos na realidade.
Transformemos as instalações, da Aeronáutica, do Exército e da
Marinha, como escolas e hospitais e seus integrantes serão os
professores e profissionais no que lhes convier ou for
capacitados.
Incentivemos o patriotismo e orgulhemo-nos de termos nascidos
nesta bendita terra de gente simples e honesta. Acima de tudo,
amemos e honremos a pátria e o povo!
É Utopia?... Não! Acreditem, o fato é verídico e esse país
existe.
O Médico Presidente realmente transformou as instalações
militares em escolas e hospitais, os militares em professores e
auxiliares da educação, assim como membros do setor de saúde.
Reeleito e, fruto do trabalho, a republiqueta hoje é uma nação
respeitada.
Exemplo para muitas nações.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 03/09/2008
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