A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

002 - Menino brabo!... E corajoso!
 
Papai nasceu em Antônio Dias, MG. O bandeirante Antônio Dias de Oliveira, paulista de Taubaté, fundou o arraial de Antônio Dias em 1706. Em 1698 fundou e foi o primeiro a achar ouro em Ouro Preto. 
Papai menino, nos seus onze ou doze anos, era um menino bravo - "Eta minino brabo!", diziam dele.
Cabelos vermelhos (cabelo de fogo), na juventude escureceu, chegando a preto, e branco, alvo mesmo, na terceira idade.
Sério na escola e na rua, mas não gostava de levar desaforo para casa.
Inacinho, um colega e amigo mais velho, por brincadeira, numa roda de amigos, falou que o colega ficou com algo de alguém. O menino levou o dito como desaforo, investiu pra cima dele com um canivete, chegando a acertar e furar o braço do amigo. Este, depois de um tempo, esqueceu-se da desavença, pois seu amigo tinha razão. O Inacinho era gente boa. Mais tarde batizei uma sua neta.
A primeira profissão foi a de aprendiz de alfaiate. Por pouco tempo; não suportava buscar a toda hora brasa na casa dos vizinhos para colocar no ferro de passar roupa - não existia eletricidade na cidade – e muito menos ferro elétrico.
Trabalho muito e pouco fogo e menos brasa ainda na casa!
 
 A mãe, Vovó Olinda, trabalhava na escola – faxineira e merendeira. O mingau de fubá, uma delícia! Eu menino, cheguei a tomar esse delicioso mingau - ainda preparado por ela.
Na época, os professores podiam bater nos alunos - com vara e com palmatória e até mesmo tapas e puxões de orelha. Ouviram falar no "ficar de joelhos nos bagos de milho"? - E apanhar com vara de marmelo?- Normal nas escolas.
O Diretor - diretor e não diretora - o Sr Chico Letro, o pavor dos alunos. Baixo e magro, lesto e decidido, óculos caídos na cara e bem vestido, sisudo e respeitado. Andava constantemente pelo pátio do grupo, com uma vara de marmelo, a mais temida, impondo a ordem – também o conheci ainda dirigindo o Grupo Escolar. Interessante, a mim me parecia um Ruy Barbosa de cabeça pequena!
Felizmente, no ano que entrei para a escola, em Fabriciano, início do ano letivo, o Presidente de Minas, Benedito Valadares, proibiu quaisquer castigos físicos nas escolas - na época o governador de um Estado era chamado de Presidente. Sentado numa carteira, na sala do primeiro ano, quando a professora deu a notícia - deveria ter uns sete anos e não levei muito a sério, não dando a importância devida - percebia nada da grandeza do decreto do Presidente.
  
Certa vez o menino brabo levou uma varada da professora. Ficou uma fera. Ele nada fizera de  errado. Levantou-se e tirou satisfação com a professora que desconsiderou seus argumentos. Refutando os argumentos, partiu para cima para lhe dar outra ou outras varadas. Voou pra cima dela também, agarrando os cabelos compridos e depois enfiou dois dedos de cada mão em cada lado da boca. Puxou e esticou as bochechas, que se rasgavam e se abriam. O sangue jorrava e ele mais e mais força fazia. A professora, desesperada, não conseguiu se desvencilhar, procurou acertá-lo com mais varadas, mas ele mais e mais a segurava. Ela gritava e berrava. Quanto mais berrava e gritava, mais ele puxava as bochechas e mais sangue saía.
Os alunos, naquela idade, recolheram-se e encolheram-se, num canto da sala, assistindo a cena dantesca.
O Diretor Sr. Chico Letro chegou correndo, apavorado com tanta gritaria. Abriu a porta de uma só vez.
O menino fera não se fez de rogado, largou a professora, mesmo sendo a sala no segundo andar, destemeu a altura e voou pela janela caindo na rua.
Sumiu para o mato.
Esconderijo na época era mato.
    
Aos catorze anos, papai ainda morava em sua terra, na Rua do Pito Aceso, em Antônio Dias.
Nadava feito peixe - pulava da ponte sobre o Rio Piracicaba, de boa altura e atravessava-o com tremenda facilidade, mesmo com correnteza bem forte. Gostava de fazê-lo com a enchente advinda depois de uma boa chuva, aumentando ainda mais os cabelos brancos da mãe.
Conhecia todas as matas e morros da região. Nos pastos e serras adjacentes, tomava conta de cabritos de um parente. Foi procurá-los, pois subiram para a serra atrás de sua casa. Calor intenso, a serra grande, alta e íngreme, e, no meio do caminho, em um pequeno plano do terreno, com sede, parou para descansar. Eis no chão em sua frente algumas melancias grandes, no pé - no pasto da fazenda do Seu Farias, homem brabo e temido na região.
Pensou... pensou e... (já nesse tempo pensava muito!), e apanhou uma melancia, partiu-a numa pedra ao lado - estava verde... jogou-a fora.
Pegou outra - também verde... colocou-a de lado.
Uma terceira e, mais uma vez, verde... jogou-a longe...
Assim foram nove das dez melancias. A décima, de vez, deu para ser saboreada, matando-lhe a sede.
À tardinha, no centro de Antônio Dias, após um bom e desejado banho, viu um grande movimento de gente na praça - naquele tempo, nas ruas, só havia movimento de gente e de animais – cachorros, cavalos, burros e, às vezes, bois, carros de boi, carroças, cabritos e porcos - pelos idos de 1920.
Na praça sabia-se de tudo e de todos e onde rolavam os mexericos, as fofocas, as estórias e a história da cidade.
Aproximou-se e perguntou o que havia. No centro do burburinho, um rumorejo total, o Seu Farias, cuspindo fogo e marimbondos pelas ventas, com um revolver na mão, esbravejando e xingando todos os santos nomes e querendo saber quem foi o desgraçado pilantra que, em seu terreno, além de ter apanhado as melancias, partiu e jogou fora todas elas.
O menino aproximou-se e lhe disse:
- Senhor Farias, fui eu. Com muita sede e não tendo como saber qual delas estava madura e, justamente a última que peguei e parti estava de vez, foi a que comi...
O Seu Farias desarmou-se diante do menino corajoso... Guardou o revolver... E saiu calado...
Ainda lhe deu um sorriso e uma piscada d'olho! 
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 28/01/2009