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001 - Meu pé de gabiroba
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Pelos idos de mil novecentos e
quarenta e pouca coisa, mamãe engravidara-se de
seu sétimo, ou oitavo, ou nono filho - teve
doze.
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É... seguia a lei da natureza,
segundo a qual a mulher não foi criada para
menstruar. Ficaria grávida sempre. A humanidade
detesta a natureza; inventou os meses para a
mulher prevenir-se mensalmente, deixando de
ganhar mais um filho. Quando César nasceu,
imperador romano, a 12 de julho do ano 100 a.C.,
a mãe tinha dificuldade em dar à luz.
Abriu-se-lhe a barriga. O menino retirado. Daí a
cesariana, em sua homenagem –
realizava-se a operação anteriormente, diga-se
de passagem. Mais tarde ele aperfeiçoou o
calendário, dividindo o ano em meses - seguiu
exatamente os períodos de menstruação da mulher
Cornélia. Quem desdenha a lei da natureza tem a
TPM, dores de cabeça, dores no busto, dores no
corpo, e dores e mais dores; enche a paciência
de parentes, namorados e... maridos então... nem
se fala!
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Voltemos à minha mãe grávida.
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Grávida, tinha desejos, como
quase toda mulher – natural.
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De casa via as gabirobas –
pequenas goiabas azedas e gostosíssimas –
lindas, grandes (grandes para gabirobas!) e
maduras, em um pé no quintal da casa
dos vizinhos, o casal José Carvalhais e Nazica.
Conhecida como araçá, dependendo da região onde
se encontra, a gabiroba dá em um pé semelhante
ao da goiaba. Em Lafaiete e região, MG, há a do
mato - menor um pouco, cujo pé chega a
uns sessenta centímetros de altura, com
folhas bem maiores - o mesmo gosto, menos ácida
e menor.
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Papai chegando da loja, mamãe:
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- Zé Franco, quero comer
gabiroba. Tenho desejo de comer gabiroba!Me
arranja umas gabirobas.
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Papai declarava que arrumaria a
gabiroba. Ela adulava, insistia, e ele prometia
que, no dia seguinte, se esforçaria para
trazê-las...
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Todo dia a mesma coisa. Papai
preocupado - não achava as benditas gabirobas.
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A ladainha só rezava gabirobas:
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- Zé
Franco, eu quero gabiroba...
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- Naná, eu vou arranjar...
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- Zé Franco, você comprou a
gabiroba?
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- Naná, não achei...
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- Zé Franco, tô com vontade de...
gabiroba...
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- Naná, eu vou trazer...
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- Zé Franco, você não deu um
jeito... gabiroba...
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- Naná... não comprei...
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- Zé Franco... gabiroba!
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- Naná...
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Mamãe, como sempre
insistente, falou para o papai que na casa do
vizinho:
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- Zé Franco, olhe lá no terreiro
da Nazica do Carvalhais... um pé grande e cheio
de gabirobas enormes e maduras! Não é goiaba
pequena, é gabiroba!
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Mamãe, viva e inteligente, de
pensamento rápido - o dinamismo personificado. E
papai, com a santa paciência e a calma que Deus
lhe deu:
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- Naná, vou pedir ao Carvalhais
as gabirobas, assim você deixa de falar em
gabirobas comigo.
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Depois de dias e mais dias,
pedidos e implorações, bajulações e adulações,
choros e velas... promessas e mais promessas
descumpridas, papai criou coragem e, muito sem
jeito e desconsertado, foi até à casa do
alfaiate Carvalhais. Explicando o drama, pediu
para lhe vender algumas gabirobas para a Naná,
grávida, e com desejo de comer gabirobas.
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Papai recebeu as gabirobas
aliviado. O Carvalhais não quis vendê-las –
presenteou-o. Todo contente e eufórico, levou as
gabirobas para mamãe:
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- Naná, as gabirobas que você
tanto pediu e desejou – lindas e maduras, como
você deseja... O Carvalhais me deu.
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E mamãe, determinada como sempre:
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- Não quero! Quero é gabiroba
comprada ou de meu quintal! Doadas de quintal
dos outros não aceito! Quero do...
fez uma pausa...
ou do... meu pé de gabiroba...
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Gabiroba para comprar... não
achava...
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Para mamãe ter gabiroba de seu
quintal, papai comprou a casa do Carvalhais,
alugando-lhe a casa e um pedaço do terreno – a
parte do quintal onde está o pé de gabiroba, a
de trás, retirou-se a cerca para mamãe apanhar
suas gabirobas - até hoje faz parte do terreno
de nossa casa!
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Quem mais se regalou com as
gabirobas, durante anos e anos, fomos nós, os
filhos!
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Ela pensooou... foi nos filhos...
penso eu!
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Benedito Franco
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Em minha Família só há pessoas
honestas, logo... não há políticos!...
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 29/07/2011
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