A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

Meu primeiro vestibular

 
Morava com meus pais (que saudades!), em Coronel  Fabriciano, e trabalhava como químico, no Laboratório Franco, de propriedade de minha irmã Celma, bioquímica e hematologista, quando resolvi fazer o vestibular na Universidade do Trabalho, no início de seu funcionamento.
Em matéria de provas sempre fiz o mínimo necessário. Lembrei-me de quando cursava Química no Rio, pois recebendo um dez numa prova, deixava de fazer a seguinte - média cinco passava. Nessa escola - apesar de, posteriormente, ter freqüentado, por algum tempo, algumas faculdades - passando no vestibulinho, para química ou eletrotécnica, recebi o único diploma na vida, pois o trote era apenas o recebimento, pelo novo aluno, de um Diploma de Burro (guardo-o até hoje... Uma honra!). Formei-me e não busquei, até agora, o meu diploma de químico - normalmente trabalhei em multinacionais e nunca me exigiram por terem mais químicos.
Como trezentas eram as vagas e só duzentos e noventa e oito os candidatos, incluindo eu, constava no regulamento do vestibular que não passaria quem tirasse nota zero em qualquer das provas. Portanto, uma vez mais vagas que candidatos, tirando nota diferente de zero, em todas as provas, seria aprovado!
E lá fui para  a primeira delas: inglês.
Encabeçando as perguntas:
- Do you speak english?
- Yes! Respondi.
Nem bem um minuto era passado, levantei-me e entreguei os papeis ao inspetor. Meio assustado:
- Não vai fazer a prova?
- Já terminei.
Os colegas, ouvindo minha resposta, olharam-me de olhos arregalados - o inspetor mais ainda: Seria um gênio?... devem ter pensado.
Saí tranqüilamente.
A segunda: matemática. Cento e vinte problemas fáceis, capciosos. O inicial, praticamente uma soma de 2 + 2. Escrevi: = 4. Entreguei. E mais uma vez o inspetor com a mesma pergunta e os colegas me olhando de lado.
Também saí tranqüilamente.
E assim aconteceu com todas as provas. Respostas mínimas, mas com a certeza de estarem corretas. Logo... seria aprovado!
Qual não foi a surpresa quando recebi comunicação da UT para comparecer à diretoria. Pensei que a UT não chamaria um candidato à-toa, pois os desaprovados não são comunicados, logo, algo de bom aconteceu.
Comparecendo, fui argüido, por um diretor e o assistente, sobre minhas respostas nas provas. Disse-lhes que apenas segui o regulamento, tomando cuidado de as respostas estarem absolutamente certas.
Meus inquisidores, depois de confabularem, disseram-me que não havia passado porque a resposta na prova de inglês estava errada. Deveria ser: "Yes, I do!".
Argumentei que americanos, do jeito que são práticos, nunca falariam "Yes, I do!", apenas "Yes", como coloquei propositadamente na prova - mesmo sabendo poder não ser verdadeiro.
Acataram meu argumento...
E lá fui eu estudar Ciências Exatas.

 

Benedito C.A. Franco

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  30/01/2008