A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 

Música e Latinorum

Seria um exagero comparar as disputas pelo poder no Congresso com as guerras de quadrilhas pelos pontos de venda de drogas nas favelas cariocas?
            Só porque uns vendem crack e cocaína e outros, privilégios e ilegalidades?
            Guerra é guerra, vale tudo na disputa pelos pontos de poder. Se um tiroteio é de balas, o outro é de números e nomes; mas sempre sobram balas perdidas. Mas, quando o cerco aperta, os dois bandos acertam um armistício: o verdadeiro inimigo é a Policia. Ou, no caso do Senado, a opinião pública.
            Porque eles não temem a polícia. Nem a justiça. Eles só tem medo de perder eleição.(N.Mota)


CONGONHAS

126 – Sô Leandro

À noite, na casa do Sô Leandro, tinha eu as primeiras aulas e noções de música – na rua da Serraria, Cel. Fabriciano. Adorava escutar e seguir a banda do Sô Leandro, talvez por eu ser neto do Sô Pedro Araujo, tocador de tuba. Vovô Pedro formava um conjunto perfeito com a tuba: os dois parrudos e do mesmo tamanho!

No Seminário, em Congonhas, quando entrei para o primeiro ano - fiz antes o admissão - pedi para entrar nas aulas de piano ou harmônio e não consegui. Em capas de cadernos desenhei um teclado; colocava-o em cima da carteira e tocava, ou melhor, dedilhava minhas supostas músicas. Padre Lima, que me vetara para aprender piano ou harmônio, vendo aquele piano em cima de minha carteira, compadeceu-se de mim, encaixou-me numa aula de harmônio, tendo como meu primeiro professor o Padre Penido. Dom Lara e o Padre Henrique posteriormente foram também meus professores.

Tomava parte no coro e na Schola Cantorum, uma turma dos doze melhores cantores especializada em canto gregoriano – Pe Anselmo e Pe Borges os regentes.

Na banda de música, a furiosa, tocava saxofone, em mi bemol – aquele reto - mas gostava de experimentar todos os seus instrumentos ou regê-la de quando em vez.

Em casa tenho um piano que foi do Seminário, que os Padres Redentoristas deram para a Celma, minha irmã, e ela passou para mim. Esse piano, francês de 1932, tem cepo de madeira, um som suave e doce – tipo do que Beethoven aperfeiçoou – pode ser desmontado em segundos – pena que  desafina no tempo de chuva – a madeira incha e as cordas bambeiam.

099 - Qui bene cantat, bis ora!

           Quando tinha uns sete anos, Padre Deolindo chamou-me para ser coroinha e ensinou-me as respostas da missa - tudo em latim.

          Eu papagaiava meu latinorum, sem mesmo entender que havia o latim ou outro idioma. Graças a Deus que o Concílio Vaticano Segundo (1962-1965) substituiu o latim pelos idiomas locais!

            Indo para o Seminário de Congonhas, nos sermões ouvia duas frases constantes e marcantes: uma era esta de Santo Agostinho (354-430 aD), pois logo fui ser cantor no coro orfeônico: Qui bene cantat, bis ora - Quem canta bem reza duas vezes.

            Na leitura do latim, a consoante final de uma palavra se liga à vogal inicial, se a houver, da palavra seguinte. Ouvia a frase de Santo Agostinho... e aquele bisora (bis ora) não me saía da cabeça. Como o Padre não traduzia, quase todos, eu não, entendiam - ficava eu grilado e procurando saber o que tinha a ver cantar com besouros! Pelo menos se fosse grilo!...

           A outra era a frase de Santo Afonso Maria de Ligório, fundador da Congregação Redentorista - um dos sábios Doutores da Igreja, cujos livros já tiveram mais de um milhão de edições: Quem reza se salva, quem não reza se condena.

            Numa das visitas que mamãe me fez, levou-me um belo livro, Meditações, escrito por Santo Afonso. Nesse livro, o inferno é descrito e pintado com cores tão vivas, dignas do Dante, que eu até tremia e me arrepiava quando lia algumas dessas meditações – com meus pecadinhos juvenis, chegava a sentir um pouco o calor do fogo do inferno.

101 – O latinorum da missa!

            O Concílio Vaticano Segundo (1962-1965) substituiu o latim pelos idiomas locais na liturgia - acabando com o latinorum das missas e das liturgias da Igreja. Aliás, obrigou-se o Padre a celebrar a missa em sua língua pátria. Hoje, o Papa Bento XVI determinou que é permitido rezar missa em latim –  eu gostaria de assistir a uma dessas!

            E não era só a missa em latim, com o Padre dando as costas para o público, que o fiel deveria suportar: havia também o latim do batizado, da extrema unção ou da encomendação fúnebre, da crisma e de tudo mais da igreja.

            Para a gente comungar, deveria ser em jejum absoluto – já viu que missa à noite não havia, só até ao meio-dia! E não se podia tocar na hóstia e muito menos tomar o vinho, como hoje acontece muitas vezes.

            E ainda diziam pra gente que as rezas em latim, só de ouvi-las, valiam mais que as rezadas em português! Dá pra entender?... Nem a ordem e muito menos o latinorum!

            No Seminário eu falava para os padres que preferia rezar em português.

Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 03/09/2009