A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
 
O Tiradentes se revoltou com o quinto... e nós concordamos pacificamente com os dois quintos que o Governo nos toma, mais o que os bancos, as  telefônicas e as multinacionais nos assaltam... Algum deputado ou senador já foi, ou é, a nosso favor?...
         Somos verdadeiramente carneirinhos...
 
 
Navio - A
 
         Eufóricos e apreensivos, minhas duas filhas, Tatiana com seis anos e Fernanda com cinco, e eu iríamos embarcar em um grande navio de origem portuguesa, o Funchal. Embarcaríamos no Rio rumo a Santos, Montevidéu, Mar Del Plata e Buenos Aires - em companhia de papai, de duas irmãs, Rose e Celma com seus dois filhos, ainda pequenos, a Tutuca e o Kid.
 
         A entrada no navio, anoitecendo, nada parecido com o que pensara ou sonhara... deixava de ser um sonho, era realidade - sonho do qual papai me falava desde eu criança, quando nem ele, e muito menos eu, conhecíamos o mar ou o navio!
         O navio zarpou do porto do Rio, atravessando a Baia de Guanabara, adentrando mar alto, emoldurado  por luzes de Copacabana... Ipanema... Leblon... Barra... coisa doutro mundo!... Luzes! Luzes!... e mais luzes!... Maravilha!... a oitava... O Cristo, uma das sete, nos olhando e nos abençoando ao longe – e ainda, de braços abertos, dava-nos um adeus e nos desejava boa viagem.
         No primeiro jantar, fez-se notar cada passageiro com suas características: o comandante na farda reluzente de medalhas, brasões e condecorações; o Ministro da Aeronáutica de Portugal e esposa - simples e simpáticos os dois; a coroa chique e a humilde... e os jovens com toda beleza e presença; a gentileza dos tripulantes e os garçons com dois uniformes nos jantares – um para o prato de entrada e o outro para o prato principal; o conjunto musical  com gente alegre... Enfim, uma plêiade de gente bonita e de bem com a vida.
           Demorei a dormir; as meninas, com cinco e seis anos, a Tatiana e a Fernanda, cansadas do tanto visto e novidades mil... desmaiaram naquele pequeno e delicioso camarote balançante - o que sonhavam elas?...
         O navio, com quinhentos passageiros e mais da metade disso como tripulantes rigorosamente uniformizados.
         Acordamos beirando Santos, com a Serra do Mar e imensos navios nos olhando e nos observando de perto, logo ali, quase encostados em nós. Passamos o dia no porto, onde tudo é plural. A Casa do Café, ou Museu do Café, vale a pena ser visitada.
         Durante três noites e três dias andamos em mar alto e, de quando em vez, avistávamos algumas ilhas e as costas de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul - o Uruguai foi notado quando as águas deixaram de ter o azul profundo para um marrom barrento e sem as altas ondas. Uma correnteza se fazia sentir - o Estuário do Plata. Montevidéu à vista! Na piscina, cheia com água do mar, agora água barrenta.
         Um lauto café da manhã e a missa na capela. O almoço servido bem à vontade, as lanchonetes e bares dia e noite, e o jantar sempre de gala, onde as mulheres se exibiam com vestidos de grife e jóias de ouro, platina e diamantes.
         De dia, a piscina sempre cheia; as máquinas caça-níqueis engoliam os escudos portugueses e o cassino lotado de viciados em jogos, ou os curiosos.
         De noite, o baile no salão de festas, com uma ótima orquestra e os barzinhos bem freqüentados. A animação dos jovens contagiava a todos.
         O enjôo, pelo balanço do navio, deixou muita gente de cama – trabalho para o médico a bordo e para a Rose, médica, requisitada pelo comandante.
         Previsão de que, em cada cidade que chegássemos, sairíamos para visitá-la e ver as atrações turísticas,  nela ou arredores.
 
                   Benedito Franco
 
                Navio - B = Montevidéu, Piriápolis e Punta del Este.
                Navio - C = Buenos Aires, Ciudad de los Niños e La Plata.
 
         Não basta estender a mão para o outro e, sim, ajudá-lo a desprender-se de sua cruz.
 
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 30/11/2010