|
O banho
Em casa tomávamos banho de bacia, com água do Rio
Piracicaba, ou aparada do telhado quando chovia - água colocada
em dois tambores de duzentos litros no chão do terreiro e
cobertos com tábuas. Mamãe, caprichosa, gastava muita água.
O leito do Rio Piracicaba, em Fabriciano, é muito
baixo, quase um pequeno vale. Era bastante sacrifício ir lá
buscar água em latas de vinte litros. Hoje em dia as latas são
de dezoito litros – será que encolheram ou já eram de dezoito
litros, ou vinte como se falava? Quantas e quantas vezes, em um
dia, meu irmão, o José Maurício, e eu buscávamos vinte latas
d’água, para encher os tambores, subindo e descendo aquele
barranco arenoso. Nas subidas, entornava um pouco de água das
latas, o que nos obrigava a dar mais de vinte idas e vindas.
Em casa, a latrina do lado de fora – a uns dez metros da casa,
por causa do odor. Debaixo de cada cama, um pinico. Na falta de
empregada, a gente lavava os pinicos – que sacrifício! É por
isso que antigamente havia os escravos – que vida!
Um pouco antes de eu ir para o internato, colocou-se
um chafariz a uns cem metros lá de casa – mas água, quase sempre
só à noite.
Dr. Joaquim, o Superintendente da Belgo, deixou que
papai colocasse em casa uma lâmpada de 60 w – e somente uma!
Água encanada e luz, só nas casas dos funcionários
da Belgo Mineira. Quando o Dr. Rubens substituiu o Dr. Joaquim,
como Superintendente da Belgo, abriu as torneiras e deu luz pra
todo mundo.
Meu sogro, o Senhor Heitor, no seu dinamismo de
sempre, nos primórdios da segunda metade do século XX, resolveu
colocar uma banheira na fazenda. Veja o que fala meu cunhado
Benício:
- "Quanto a esse assunto, tenho uma passagem
muito interessante, não para mim, quando papai comprou e
instalou uma banheira na nossa casa (da fazenda) de Ana
de Matos.
Instalou também um sistema de aquecimento de água
com serpentinas no fogão e uma caixa d´água quente improvisada
com um tambor de 200 l. A geringonça funcionou e eu fui
convocado para inaugurá-la. Quando estava todo refestelado na
banheira, aproveitando a água aquecida e prolongando o banho
gostoso, Papai chegou com uma comitiva de vizinhos, incluindo
mulheres novas e velhas e até a professora que estava
substituindo Mamãe na escola, para mostrar a novidade...
Todos entraram no banheiro e passaram a olhar
curiosamente a nova banheira... instigados pelos comentários de
Papai... e eu pelado dentro da banheira... sem condições de sair
correndo porque a porta estava entupida de gente. Procurava me
esconder debaixo d´água, mas a profundidade não era suficiente
para submergir o que era preciso... Fiquei nesta situação
horrível, pensando que muitas mulheres estavam mais interessadas
nas minhas "partes pudendas" que na própria banheira... até que
todos cansaram de discutir as vantagens do novo equipamento e
saíram.... fiquei vários dias evitando as mulheres participantes
do evento”.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 14/04/2009
|