- O imposto
-
- Trabalhava
eu com minha irmã Celma Deuze,
em seu laboratório de análises clínicas em Coronel
Fabriciano.
-
- Celma tirou
alguns dias de folga, indo para Guarapari visitar o irmão José
Maurício, deixando-me a incumbência de pagar, sem falta, um
imposto no Banco do Brasil na agência de Acesita, aliás, na
época, a única do BB na região.
- No dia do
vencimento, às três e cinqüenta da tarde, lembrei-me do tal
pagamento do imposto. Eu em Fabriciano e o banco fechava às
quatro em Acesita, outro município. Peguei o carro, um Vemag,
saí afoito feito um foguete. Chegando à porta do banco,
encontrei um funcionário fechando a porta. Cumprimentei-o,
dando-lhe um pequeno sorriso perturbado e de sengracês, mas ele
levou a palma da mão à frente indicando-me que não seria
possível entrar - dessorri. Expliquei-lhe a urgência do
pagamento e que, por recomendação da Dra Celma, sua conhecida, o
imposto não poderia deixar de ser pago naquela data.
- Apesar de
pedidos e apelos, explicações e argumentos, o funcionário acabou
barrando minha entrada. Fechou as duas bandas da porta. virou as
costas e entrou, sem mesmo me cumprimentar. É bom lembrar que na
época não havia computadores e pagamento feito cinco minutos ou
uma hora depois do expediente normal não faria diferença para o
banco - acontecia e muito com os conhecidos ou amigos, assim
como com os clientes especiais. Para dizer a verdade, até mesmo
telefone para Belo Horizonte acho que ainda não existia e nem os
carros fortes de hoje.
- Sem graça,
chateado e preocupado, voltei para o trabalho. No momento tive
raiva do funcionário e antipatia para com o Banco do Brasil.
- Voltei ao
laboratório...
- Com exames
para se terminar ainda naquele dia, atrasado pela ida a Acesita,
fiquei só, além do expediente, após os funcionários terem
deixado o prédio.
- Cansado e,
terminado o serviço, fechando a porta que dá para uma escada
encaracolada, com u'a mão na chave ainda na fechadura e a outra
no interruptor, tendo inclusive apagado as luzes, parei, pois
percebi alguém chegando, adentrando e começando a subir a
escada... Caminhava devagar e cautelosamente, deu para perceber.
Qual não foi meu susto... quem vejo surgir na curva da escada e
sem olhar para cima para me ver, porquanto um pouco de luz
existente vinha da parte debaixo da entrada do laboratório donde
vinha ele... o funcionário do Banco do Brasil que barrou minha
entrada, duas horas antes.
- Acendi as
luzes. O funcionário olhou para cima e me viu,
reconhecendo-me... percebi que ele branqueou, estremeceu,
gelou - susto maior ainda que o meu! - E agora sem graça,
demonstrando preocupação e até mesmo tremendo, subindo e pisando
cada degrau devagar e indeciso. Tornei a abrir a porta e na sala
de espera, recebi-o naturalmente. Ele, após um suspiro profundo,
pausadamente e estendendo a mão com um pequeno embrulho,
disse-me:
- -
Chegando à minha casa não encontrei minha mulher e a filha. A
vizinha veio a meu encontro informar-me que tinham ido para o
hospital, pois minha filha passava muito mal. O médico pediu
alguns exames bioquímicos e que só em seu laboratório são
realizados. Aqui está o sangue, retirado pelo funcionário do
laboratório do hospital.
- - Pois,
não.
- Li o pedido
do médico, informei-lhe que os exames bioquímicos seriam
realizados por mim, independendo da Celma. Bastava esperar
algumas horas para ele mesmo levar o resultado. Começaria a
fazê-los naquele momento.
- Sentou-se
cabisbaixo. Em silêncio esperou até à meia noite.
- Sem
trocarmos uma única palavra todo o tempo, recebendo o resultado,
e mais um suspiro profundo, pagou-me... e abaixando a cabeça:
- - Deus
lhe pague!
- E se foi...
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 26/03/2008
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