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O ovo!
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Papai gostava de brincar conosco. Às vezes nos colocava dentro
da vitrine da loja, fechava o vidro e ficava do lado de fora
fazendo caretas. Com as mesmas caretas, outras vezes nos
sentava no alto de uma das prateleiras.
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Em casa, rodeado de meninos e meninas – doze irmãos - pegou um
ovo e nos disse:
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- Vou jogar esse ovo neste portal e ele não vai
quebrar!
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Nós negando sua afirmativa, e ele afirmando:
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- Ele não vai quebrar!
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- Quebra! Gritávamos nós os meninos.
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- Não quebra!
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- Quebra! Berrávamos nós.
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Num gesto de quem se esforçava demais, como um atleta
arremessando um disco, joga o ovo no portal.
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Mamãe, vendo o portal todo sujo e o ovo quebrado, deu uma
senhora bronca!... E bota bronca nisso!...
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Papai ria, que ria!
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O Rei da casa
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Papai ia tomar café e a gente migalhava seu pão, seu bolo ou
biscoito. Comia a casca do pão e nos dava o miolo - era o que
a gente gostava. Mamãe entregava-lhe tudo na mão, inclusive
toda a nata do leite fervido durante o dia – é por isso que
gosto de nata, pois ficava de olho naquela nata nadando em sua
xícara. Em alguns domingos, ele tomava um copo de vinho e
pingava o vinho em nossos copos d’água – reprovado pela mamãe,
mas ele fazia todas as nossas vontades! As gotas de vinho
coloriam de rósea muito clara a água, mas ele falava que nosso
vinho estava mais escuro que o dele. Quando a gente negava,
ele dizia:- È porque vocês estão no sol e a luz do sol
atrapalha suas vistas!
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Pela manhã, durante o café, aparecia um gato ou gata dos
vizinhos e papai molhava um pedaço de pão no leite e jogava
debaixo da mesa. Os gatos só apareciam durante as refeições de
papai. Entravam furtivos e desapareciam mais dissimulados
ainda.
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Para mamãe, papai era o rei da casa – todas as festas da casa
eram para ele. Sentava ele na cabeceira da mesa e era servido
pela mamãe. Cinqüenta anos passados, reclamou que sempre comia
longe de tudo e não podia se servir como gostaria...
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... E ele merecia!...
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Na época de nós irmãos jovens, brincávamos muito
com mamãe chamando-a de mandona, a chefe da casa, apitava mais
lá em casa que papai. Houve um cantor que gravou u’a música
sobre isso e um dos irmãos comprou esse disco pra mexer com
mamãe.
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- Vocês é que conhecem pouco o Zé Franco. Como
ele é muito educado, ele nunca briga. Quando quero algo que
não é de seu jeito, ele não briga, não nega. Diz, por
exemplo:- Se fizer assim, ou assado, poderia ficar mais de
acordo ou melhor. No final, eu brigando e ele sem achar ruim,
acaba ganhando a parada.
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A casa do Vovô
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A caçula Myrian, com uns dois anos, mamãe e eu viajamos para
Rio Piracicaba, MG, na maria-fumaça da Vitória a Minas, para a
casa do Vovô Pedro e Vovó Mariquinha. No caminho, a
maria-fumaça ladeando o Rio Piracicaba, passando pela estação
da Baratinha, a estação primeira após a de Fabriciano, fiquei
eufórico ao avistar e conhecer uma ilha, pois só tinha noção
pelo desenho do livro da escola: Ilha é um pedaço de terra
rodeado de água por todos os lados - estava escrito no
livro.
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Em todos os dias, sentia a satisfação do Vovô Pedro em receber
mamãe e os netos. Vovó esforçava-se o máximo, agradando-nos em
tudo.
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Vovó usava o forno de barro, instalado na grande coberta
depois da cozinha, para a feitura de biscoitos vários, entre
eles o de polvilho, e broas com sabores da roça – ela gorda,
muito branca e suando às bicas, avental comprido, carregando
as bandejas do forno - que cheiro! Sinto-o até hoje.
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Tio Neide rapazola e Tia Edimar mocinha – lembro-me dela brava
por algo que Tio Neide andou aprontando – e como aprontava! Os
dois sempre foram grandes amigos.
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A casa do Vovô, construída rente à rua, possuía, ao lado de
uma varanda, um pátio interno, com alguns canteiros de flores
e algumas árvores frutíferas, como o limoeiro, o mamoeiro, a
laranjeira e a romãzeira.
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Em Rio Piracicaba, logo abaixo da Estação, morava a Tia
Litinha. O Zé Pedro, seu filho, brincava com um velocípede de
ferro e partes de madeira construído artesanalmente por seu
pai. Olhava e desejava dar uma voltinha, mas não tinha coragem
de pedir e ele não deixava - talvez por achar que eu fosse
meio grande.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 19/06/2009
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