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Os antigos - impressões
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Deus, em sua criação do mundo, terminou-a com uma obra
prima: o homem. Para coroá-la, burilando-a, e fechá-la
com chave de ouro, com uma costela do homem, fez a mulher. O
mundo criado, satisfação garantida, com o desfecho de duas
jóias, Deus descansou. Ao homem chamou de Adão e à mulher de
Eva.
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Dois são os filhos conhecidos de Adão e Eva: Abel e Caim; este
matou o irmão e para substituí-lo, Adão pediu a Deus mais
filhos - nasceu Set.
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Enós quando nasceu, o pai Set tinha 105 anos, mas Set viveu
mais 807 anos.
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Falecendo o pai com 912 anos, Enós com 90 anos, nasce-lhe o
filho Cainã - morre aos 905 anos.
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Cainã aos 70 tem o filho Malaleel, pai de Jared aos 65 anos.
Malaleel vive mais 840 anos, total de 910 anos e seu filho
Jared chega aos 962, gerando filhos e filhas aos 162 - entre
eles o Henoc.
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O filho de Henoc, Matusalém, é o homem que mais
viveu até hoje: 969 anos - nascido quando o pai, aos 65 anos,
gerou filhos e filhas. Enoc morreu aos 365 anos.
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Matusalém teve filhos e filhas aos 187 anos; donde
concluímos que Adão conheceu os parentes até Matusalém; os
filhos e filhas de Matusalém, um deles, Lamec pai de Noé, Adão
não chegou a ver. Aos 930 anos falece Adão.
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Sempre admirei os velhos e os velhinhos.
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Sô Zacarias, dono do cartório, a primeira pessoa que eu,
criança, percebi ser velhinho, e sua senhora, Dona Clarinha, rodeados
de uma grande e alegre família. Os filhos também chegaram a
ser admirados como pessoas de idade avançada - hoje, quase
todos falecidos.
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Sô Manoel Domingos morava em sua "fazenda" na
entrada do Calado, na saída para a cidade de Antônio Dias, MG,
a sede do Município, numa pequena baixada ladeando o Rio
Piracicaba. Quando via o Sô Manoel Domingos passar, passava o
velhinho simpático, voz mansa e macia, magro, meio curvado,
barba por fazer, sempre sorrindo, quase sempre de paletó,
apesar do calor, e o inseparável guarda chuva. Muito direito,
sério e respeitado - com um inconfundível, porém
maneirado, sotaque português. Amigo de papai -
cumprimentava-me sempre.
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Aliás, quase todo mundo era magro - pessoa gorda
era rara e conhecida no lugarejo. Apesar de só se comer
gordura de porco, morrer de enfarto - coisa raríssima! - e nem
se comentava, pois a família ficaria mal vista.
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O português Manoel Domingos parecia-me, como o habitante mais
antigo do Calado, hoje Coronel Fabriciano, que teria arribado
naquela várzea antes mesmo de o Cabral aportar nas praias da
Bahia - aparentava séculos de existência. Logo, Calado seria
a vila mais antiga do Brasil, já que ele chegou assim que veio
de Portugal.
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Se vivo fosse, Napoleão olharia para o Dr.
Alderico e lhe diria: "Quarenta séculos vos contemplam nessas
plagas de Acesita!". Impressão quando me encontrava com o Dr.
Alderico, lembrando-me de quando veio para iniciar as obras da
nova siderúrgica de aços especiais, obra faraônica para a
época, lá pelo final do ainda primeiro qüinqüênio do século
XX - consolidando o Vale do Aço. Não tão antigo assim...
apenas impressão de menino e rapaz. Lembrava-se de mim -
dava-me pequeno sorriso quando se encontrava comigo,
cumprimentando-me. Mandava e desmandava na Acesita, onde hoje
trabalha minha filha Fernanda - exercia poder e autoridade em
tudo e em todos - o imperador do outro lado do rio Piracicaba.
Um líder. Morava bem, na antiga fazenda comprada de meu sogro,
o Sr Heitor Araujo.
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Quando entrei para o Seminário, havia um padre
holandês, teria estatura alta, não fosse o corpo alquebrado e
arqueado pelo peso dos anos. Tão velhinho que deveria ter sido
companheiro de Santo Agostinho, para quem fruta roubada, ou
apanhada no quintal dos outros, é mais gostosa que a de nossa
casa. Supúnhamos, nós os meninos, que ele entendia pouco do
que lhe declarávamos no confessionário. Muito carinhoso,
achando nossos pecadinhos, pequenas travessuras de amiguinhos
que brincavam com o Jesusinho, o Menino Jesus - confessávamos,
todos nós meninos, somente com ele – entendia nossas
travessuras.
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Sô Manoel Domingos, o protótipo do homem antigo, e
Dona Izabel a senhora mais antiga que conheci - a sempiterna.
A Matriarca da Família Pereira - mãe do Coronel Silvino
Pereira, o Camargo Correia da Vitória Minas na região, e do
Tio Totonho, casado com a tia Dedê. Dona Izabel sentava-se
numa cama na salinha em frente à sua casa, rente à rua
principal do lugar, abrindo a parte de cima da porta, cortada
ao meio, - hoje Rua Coronel Silvino Pereira. De quando em vez,
eu parava e conversava com ela; não me recordo mais do que
falávamos - dava-me muita atenção. Pela idade e aparência, com
certeza, a irmã mais velha que cuidou do Matusalém quando
ainda criança - a mãe de toda a humanidade desde o início dos
tempos!
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Ainda procurava imperar a Lei do Ventre Livre -
uma das muitas leis no Brasil que chegou e não pegou,
como até hoje acontece com nossas leis que ferem os interesses
dos grandes - mas antes de a Princesa Izabel assinar a
Abolição dos Escravos, ou a Lei Áurea Rio de Janeiro, de 13 de
maio de 1888 , e anterior à Lei dos Sexagenários, a Vovó
Olinda nasceu (Viram como é difícil dizer, descobrir e
demonstrar idade de mulher?... Mulher não envelhece, mulher
fica menos nova!).
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Meu avô, Antônio Franco, faleceu novo, deixando
Vovó com cinco filhos pequenos. Papai dizia que os cunhados
tomaram-lhe a Fazenda Sant'Anna e ela então foi para Antônio
Dias, onde comprou uma casa na Rua do Pito Aceso. Eu menino,
quando ia a Antonio Dias, achava que era a cidade dos velhos –
impressão de menino, por causa de Vovó, suas parentes e amigas
– só gente de muita idade!
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Com a ajuda do Dr. Euzébio, advogado, filho do
Coronel Fabriciano, conterrâneos, foi ser faxineira no Grupo
Escolar da cidade. O Diretor do Grupo, o Sr Chico Letro, deve
ter ajudado a ela também. Quando pequeno, visitava o grupo e
Vovó, além de faxineira, preparava a merenda - dava-me o
mingau (tomado em canecas de ferro esmaltado - sinto o gosto
gostoso dele até hoje!
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Aposentada, Vovó foi morar em Ferros, na casa de
tia Bita e tio Vital. Ferros, cidade mineira à beira do Rio
Santo Antônio, onde desmancharam a antiga capela de Santana,
construindo uma igreja bem moderna e na qual a grande artista
Yara Tupinambá pintou Adão totalmente nu - esconjurado e
desamado pelas beatas.
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De quando em vez, Vovó ia a Fabriciano. Nessa
época, achava sua vida infinita - parecia-me que Deus a criara
no quinto ou sexto dia da criação do mundo, portanto, nascera
no início do Universo, quando ainda Crono e Réia governavam o
mundo, antes de seus filhos, Zeus e os irmãos,
destronarem-nos, durante a guerra contra os Titãs – jamais
desapareceria... viveria per omnia saecula saeculorum!
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E os velhinhos, além de inspirar-nos respeito
e admirarmo-nos de sua sabedoria, dão-nos uma santa inveja do
eterno viver.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 11/05/2009
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