A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
Os “eletrodomésticos”
 
Na casa de meus pais, eu menino, não havia eletricidade e eles se esforçavam o máximo para nos dar conforto, mas era difícil. Vejam:
 
O moinho de ferro fundido, manual - chamado de macaquinho, por sua aparência - era um eletrodoméstico dos mais úteis: moíam-se o café torrado e o fumo seco para o rapé de papai e, na falta de fubá, o milho para os pintinhos e até mesmo arroz quando se queria um mingau – quanto mais fino se queria o café, o fumo ou o arroz mais se apertava um parafuso dele e mais força a gente fazia para rodar sua manivela.
 
Quando se preparava o mingau de milho verde, raspava-o em ralo feito de lata – pegava-se um pedaço de uma lata e furava-a em linha com um prego e as bordas do furo no avesso da lata tornavam-se pontiagudas – a lata virava um bom e duradouro ralo – ralava-se o milho em cima de uma gamela. O mingau era quase um bolo, pois, na ausência de geladeira, ele duro era mais fácil de se conservar – comíamos em pedaços, inclusive sujavam-se menos vasilhas.
O arroz pilado, socado num pilão, e o café comprado com casca, torrado em uma panela de ferro – papai gostava de novidade e modernidade, então comprou uma panela parecendo uma bola – era a máquina prática de se torrar café.
Mamãe preparava o doce de leite e eu detestava mexê-lo na panela, no fogão a lenha – não conhecia o fogão a gás – se é que existia. Com o calor do fogão, mais o calor de Fabriciano, a gente suava às bicas! Vendia-se esse bendito doce de leite, aos pedaços, na loja, ou colocavam-se os pedaços num prato e nós meninos saíamos à rua para vendê-lo.
            As panelas eram de ferro. As vasilhas, quase todas, eram latas ou cuias – feitas de um tipo de abóbora – é a casca da abóbora d’água - seca ela endurece. Utensílios de alumínio eram raros.
 
Cozido, o feijão era liquidificado com uma ferramenta feita de um pedaço de cabo de vassoura, com uma cruzeta de três a quatro centímetros de lado, de arco de barril. As mercadorias chegavam em caixotes de madeira e não em caixas de papelão. Para reforçar os caixotes, para não abrirem, usava-se passar em seu redor uma fita de aço bem esticada – o arco de barril. O bico de papagaio arrebentava, ou cortava, o arco de barril - uma ferramenta que havia na loja. Hoje há fita semelhante, mas de plástico.
 
A máquina de moer carne servia também para moer amendoim, feijão, batata, além da carne, encher linguiça etc.
A carne cozida era guardada em latas de 20 litros no meio de gordura de porco – conservava-se por uns três a quatro meses, tornando-se, passando os dias, mais macia. A carne crua, salgada, era colocada no sol por alguns dias, ou em um varal em cima do fogão a lenha, onde permaneciam  dependuradas por longos dias tomando fumaça – fácil de pegar e colocar na panela, pois estava ali à mão!
 
Os roceiros traziam para papai a cachaça em garrafas, em litros  ou latas de querosene – normalmente vendida em doses ou em garrafa. Para fechar as garrafas, papai comprava tampinhas novas e para colocá-las nas garrafas havia uma ferramenta, o tapador de garrafas – a gente falava tampador de garrafa.
 
A roupa, lavada com água do rio ou ribeirão, era quarada, isto é, colocada em cima de um gramado, ou mato, para tomar sol – isso, além do anil, clareava a roupa. Poder-se-ia estendê-la numa cerca qualquer ou num quarador de tela, como havia lá em casa.
A roupa quarada em gramados ou cercas, era ela passada a ferro a brasa. Não se vestia uma roupa sem passá-la – poder-se-ia pegar cobreiro, de algum bicho que passasse por lá. O ferro de passar roupa era de ferro fundido. Abrindo sua tampa, na parte de cima, colocava-se a brasa; nos fundos, a parte mais larga, um buraco por onde se soprava a brasa e por onde entrava o ar para mantê-la acesa.
. Quando acabava a brasa do fogão da casa, buscava-se na casa do vizinho. Daí adveio a frase dita para quem vai a algum lugar e volta logo:- Foi buscar fogo? – isso porque quem ia pedir brasa na casa do visinho deveria voltar rápido, senão a brasa apagaria no caminho.
 
A primeira profissão de papai foi a de aprendiz de alfaiate. Por pouco tempo; não suportava buscar e pedir a toda hora brasa na casa dos vizinhos para colocar no ferro de passar roupa - não existia ainda ferro elétrico.Trabalho muito e pouco fogo e menos brasa ainda na casa!
            O pilão servia para pilar o arroz em casca ou o café, além de socar o milho e as paçocas.
           
Ovos batidos em um prato com uma colher – mamãe mandava e eu detestava bater as claras. U’a mola em aspiral, com um cabo de madeira, agilizava o meu castigo... infelizmente usei-a poucas vezes...
 
As frutas eram descascadas com faca, espremidas, peneiradas ou raladas à mão – nem o espremedor de laranja manual existia.
 
Em Rio Piracicaba, Vovô Pedro cantava louvações e colocava louros no recém chegado espremedor manual de laranja: “Agora, cê pensa bem, a gente pra chupar uma laranja é só apertar meia laranja nisso aqui. Há dois mil'anos que a gente tinha que descascar, fazer uma mamurcha, espremer, espremer, fazer uma força danada e, no final, ficar quase todo o caldo no bagaço que a gente jogava fora. Porque que não inventaram isso antes? Tão simples e tão barato!”. Nem vou falar o que falava ele do relógio a pilha... Um ano de duração, sem dar corda!... Só faltava o relógio falar!
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 18/05/2009