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Os “eletrodomésticos”
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Na casa de meus pais, eu menino, não havia eletricidade e eles
se esforçavam o máximo para nos dar conforto, mas era difícil.
Vejam:
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O moinho de ferro fundido, manual - chamado de macaquinho, por
sua aparência - era um eletrodoméstico dos mais úteis:
moíam-se o café torrado e o fumo seco para o rapé de papai e,
na falta de fubá, o milho para os pintinhos e até mesmo arroz
quando se queria um mingau – quanto mais fino se queria o
café, o fumo ou o arroz mais se apertava um parafuso dele e
mais força a gente fazia para rodar sua manivela.
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Quando se preparava o mingau de milho verde, raspava-o em ralo
feito de lata – pegava-se um pedaço de uma lata e furava-a em
linha com um prego e as bordas do furo no avesso da lata
tornavam-se pontiagudas – a lata virava um bom e duradouro
ralo – ralava-se o milho em cima de uma gamela. O mingau era
quase um bolo, pois, na ausência de geladeira, ele duro era
mais fácil de se conservar – comíamos em pedaços, inclusive
sujavam-se menos vasilhas.
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O arroz pilado, socado num pilão, e o café comprado com casca,
torrado em uma panela de ferro – papai gostava de novidade e
modernidade, então comprou uma panela parecendo uma
bola – era a máquina prática de se torrar café.
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Mamãe preparava o doce de leite e eu detestava mexê-lo na
panela, no fogão a lenha – não conhecia o fogão a gás – se é
que existia. Com o calor do fogão, mais o calor de Fabriciano,
a gente suava às bicas! Vendia-se esse bendito doce de leite,
aos pedaços, na loja, ou colocavam-se os pedaços num prato e
nós meninos saíamos à rua para vendê-lo.
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As panelas eram de ferro. As vasilhas, quase
todas, eram latas ou cuias – feitas de um tipo de abóbora – é
a casca da abóbora d’água - seca ela endurece. Utensílios de
alumínio eram raros.
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Cozido, o feijão era liquidificado com uma ferramenta
feita de um pedaço de cabo de vassoura, com uma cruzeta de
três a quatro centímetros de lado, de arco de barril. As
mercadorias chegavam em caixotes de madeira e não em caixas de
papelão. Para reforçar os caixotes, para não abrirem, usava-se
passar em seu redor uma fita de aço bem esticada – o arco de
barril. O bico de papagaio arrebentava, ou cortava, o arco de
barril - uma ferramenta que havia na loja. Hoje há fita
semelhante, mas de plástico.
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A máquina de moer carne servia também para moer amendoim,
feijão, batata, além da carne, encher linguiça etc.
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A carne cozida era guardada em latas de 20 litros no meio de
gordura de porco – conservava-se por uns três a quatro meses,
tornando-se, passando os dias, mais macia. A carne crua,
salgada, era colocada no sol por alguns dias, ou em um varal
em cima do fogão a lenha, onde permaneciam dependuradas por
longos dias tomando fumaça – fácil de pegar e colocar na
panela, pois estava ali à mão!
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Os roceiros traziam para papai a cachaça em garrafas, em
litros ou latas de querosene – normalmente vendida em doses
ou em garrafa. Para fechar as garrafas, papai comprava
tampinhas novas e para colocá-las nas garrafas havia uma
ferramenta, o tapador de garrafas – a gente falava tampador de
garrafa.
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A roupa, lavada com água do rio ou ribeirão, era quarada, isto
é, colocada em cima de um gramado, ou mato, para tomar sol –
isso, além do anil, clareava a roupa. Poder-se-ia estendê-la
numa cerca qualquer ou num quarador de tela, como havia lá em
casa.
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A roupa quarada em gramados ou cercas, era ela passada a ferro
a brasa. Não se vestia uma roupa sem passá-la – poder-se-ia
pegar cobreiro, de algum bicho que passasse por lá. O ferro de
passar roupa era de ferro fundido. Abrindo sua tampa, na parte
de cima, colocava-se a brasa; nos fundos, a parte mais larga,
um buraco por onde se soprava a brasa e por onde entrava o ar
para mantê-la acesa.
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. Quando acabava a brasa do fogão da casa, buscava-se na casa
do vizinho. Daí adveio a frase dita para quem vai a algum
lugar e volta logo:- Foi buscar fogo? – isso
porque quem ia pedir brasa na casa do visinho deveria voltar
rápido, senão a brasa apagaria no caminho.
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A primeira profissão de papai foi a de aprendiz de alfaiate.
Por pouco tempo; não suportava buscar e pedir a toda hora
brasa na casa dos vizinhos para colocar no ferro de passar
roupa - não existia ainda ferro elétrico.Trabalho muito e
pouco fogo e menos brasa ainda na casa!
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O pilão servia para pilar o arroz em casca ou o
café, além de socar o milho e as paçocas.
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Ovos batidos em um prato com uma colher – mamãe mandava e eu
detestava bater as claras. U’a mola em aspiral, com um cabo de
madeira, agilizava o meu castigo... infelizmente usei-a poucas
vezes...
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As frutas eram descascadas com faca, espremidas, peneiradas ou
raladas à mão – nem o espremedor de laranja manual existia.
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Em Rio Piracicaba, Vovô Pedro cantava louvações e colocava
louros no recém chegado espremedor manual de laranja:
“Agora, cê pensa bem, a gente pra chupar uma laranja é só
apertar meia laranja nisso aqui. Há dois mil'anos que a gente
tinha que descascar, fazer uma mamurcha, espremer, espremer,
fazer uma força danada e, no final, ficar quase todo o caldo
no bagaço que a gente jogava fora. Porque que não inventaram
isso antes? Tão simples e tão barato!”. Nem vou falar o
que falava ele do relógio a pilha... Um ano de duração, sem
dar corda!... Só faltava o relógio falar!
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 18/05/2009
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